A disparada dos preços dos combustíveis provocada pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã tem levado manifestantes às ruas em diferentes partes do mundo, em meio à pressão sobre o fornecimento de energia e aos impactos sobre o custo de vida. Desde que a mais recente alta levou o petróleo para acima de US$ 100 o barril, manifestantes queimaram pneus e carros na Guatemala e na Síria para expressar sua revolta.
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Em Portugal, motoristas têm percorrido as estradas lentamente em protesto, buzinando, depois que o diesel atingiu um recorde de mais de US$ 9 por galão. E, especialmente nos países em desenvolvimento da Ásia, que dependem fortemente da energia do Oriente Médio e estão endividados em razão de esforços anteriores para compensar os impactos da guerra, os sistemas de transporte e os governos enfrentam mais uma rodada de enorme pressão.
A escassez de combustíveis e as longas filas nos postos estão desacelerando as economias, assim como as greves de taxistas e trabalhadores. Nos Estados Unidos, a alta se refletiu nos preços da gasolina e levou analistas a preverem um aumento de 30% no custo do óleo usado para aquecimento durante o inverno no Hemisfério Norte.
Os governos enfrentam, ao mesmo tempo, a pressão para decidir entre repassar a alta dos combustíveis aos consumidores, com o risco de acelerar a inflação, ou ampliar subsídios e outras formas de auxílio, aumentando a dívida pública e pressionando suas moedas. Sana Jaffrey, professora da Universidade Nacional Australiana que pesquisa conflitos na Ásia, questionou por quanto tempo os países terão capacidade fiscal para administrar a crise.
— O que acontece com os mercados financeiros globais quando essa capacidade começa a se esgotar? Em algum momento, isso vai se tornar um problema de todos.
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Veja alguns dos principais focos de tensão ao redor do mundo:
Síria
Na Síria, uma alta acentuada nos preços dos combustíveis no fim de semana desencadeou as maiores manifestações no país desde a queda do regime de Bashar al-Assad, há dois anos. O governo elevou temporariamente o preço do diesel para US$ 1,43 por litro, um aumento de aproximadamente 40%, e o da gasolina em mais de 25%, segundo a agência estatal SANA.
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O Ministério da Energia sírio atribuiu os reajustes à disparada dos preços globais e à manutenção da refinaria de Baniyas, a maior do país, que ampliou a dependência das importações. Ainda assim, manifestantes se reuniram em diferentes cidades, bloquearam o trânsito e incendiaram pneus, exigindo que o aumento dos preços fosse cancelado. No domingo, um grupo bloqueou rodovias e impediu a passagem de caminhões-tanque.
Um homem derramou sobre a própria cabeça o que afirmou ser gasolina e ameaçou atear fogo ao próprio corpo, antes que pessoas na multidão interviessem.
Guatemala
Na Guatemala, caminhoneiros, trabalhadores do setor de transportes e ativistas indígenas realizaram manifestações contra os preços dos combustíveis. Grupos bloquearam rodovias, e houve danos em diferentes partes do país. Vídeos também mostraram marchas pacíficas pela Cidade da Guatemala e, dias depois, carros incendiados nas ruas de Villa Nueva.
Policiais de choque guardam bloqueio em Villa Nueva, na Guatemala, durante protestos contra o aumento nos preços dos combustíveis
Johan Ordonez / AFP
Parte dos manifestantes pede medidas que vão além de limites temporários de preços e subsídios, incluindo a suspensão de impostos sobre combustíveis. Agricultores, que dependem do diesel para operar tratores, estão entre os grupos afetados. Em uma das manifestações, um organizador acusou governos e setores mais ricos da sociedade de não considerarem a situação econômica da classe trabalhadora e afirmou que os protestos continuariam.
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O Congresso guatemalteco discute uma proposta para limitar os preços até o fim do ano. Se aprovada, a medida estabeleceria o pagamento de subsídios governamentais aos importadores quando os valores ultrapassassem o teto determinado, segundo a agência Associated Press. O presidente do Congresso, Luis Contreras Colindres, afirmou que Executivo e Legislativo precisam encontrar uma resposta conjunta.
— As pessoas não podem pagar esses preços e não sentir o impacto em suas finanças — afirmou Contreras. — O diesel é o motor que movimenta a economia deste país.
Portugal
Em Portugal, motoristas organizaram “buzinões”, com veículos circulando lentamente, depois que o diesel alcançou mais de US$ 9 por galão. Os atos provocaram congestionamentos em vias importantes, entre elas a Ponte 25 de Abril, em Lisboa, e um comboio bloqueou acessos próximos a uma grande refinaria em Sines, segundo a imprensa local.
No sábado, cerca de 80 pessoas também participaram de uma manifestação em Espinho contra os preços dos combustíveis e o aumento do custo de vida, segundo a agência Lusa. Organizado por empresários locais, o grupo marchou até a casa do primeiro-ministro Luís Montenegro. A Liga dos Bombeiros Portugueses também alertou que os preços estão se tornando insustentáveis para as corporações e organizações voluntárias.
Na segunda-feira, o governo português anunciou um pacote de medidas para aliviar os efeitos da alta, incluindo apoio a transportadores de cargas, taxistas, bombeiros e ao setor social. Naomi Hossain, socióloga política da Universidade de Londres que estuda os impactos de choques energéticos, afirmou que aumentos nos combustíveis e na inflação frequentemente são associados pela população a um conluio entre elites políticas e empresas.
— Há boas razões para acreditar que a inflação descontrolada está empurrando os eleitores para a direita. Os governos de centro não parecem conseguir fazer muita coisa para proteger as pessoas contra esses choques, e não há alternativas realistas de esquerda na maioria dos lugares. Portanto, uma das consequências é que isso está alimentando o populismo.
França
Na França, cerca de 50 pescadores bloquearam na terça-feira um importante depósito de combustíveis em Fos-sur-Mer, no sul do país, em parte para protestar contra a alta dos preços. O bloqueio durou várias horas e houve um breve confronto com policiais, segundo a BFMTV. O prefeito Philippe Maurizot afirmou que o setor pesqueiro enfrenta uma “crise profunda” e pediu uma resposta do Estado, acrescentando que a revolta “precisa ser ouvida”.
Pescadores franceses acendem fogueira e bloqueiam depósito de combustível em Frontignan contra o aumento dos preços e a piora nas condições de trabalho
Gabriel Bouys / AFP
“A alta dos custos, o aumento dos preços dos combustíveis, o número crescente de restrições, a renda insuficiente e a falta de perspectivas estão colocando alguns profissionais em uma situação insustentável”, afirmou ele em carta dirigida ao premier Sébastien Lecornu.
Filipinas
Nas Filipinas, trabalhadores do grupo de transportes Manibela entraram em greve na segunda-feira para reivindicar subsídios e a eliminação de impostos sobre combustíveis. Empresas petrolíferas anunciaram uma nova rodada de reajustes, com aumento de US$ 0,01 por litro de gasolina a partir de terça-feira, segundo a Philippine News Agency. Diesel e querosene também tiveram novos aumentos.
Motoristas de ônibus e de aplicativos também têm protestado contra os custos. Modesto Floranda, líder de um grupo que reúne cerca de 70 mil motoristas e proprietários de ônibus, afirmou que jornadas de 15 a 18 horas agora rendem apenas o suficiente para uma refeição. O governo ofereceu pagamentos únicos de aproximadamente US$ 80 a motoristas do transporte público, medida que Floranda considerou insuficiente.
A secretária de Energia das Filipinas, Sharon Garin, afirmou que cada reajuste afeta não apenas o abastecimento dos veículos, mas também o orçamento das famílias, o sustento dos motoristas e os custos das empresas. O governo anunciou ter superado uma etapa necessária para uma possível redução dos impostos especiais cobrados sobre derivados de petróleo.
Pescadores da Baía de Manila também têm permanecido nos portos por não conseguirem arcar com o combustível necessário para voltar ao mar após semanas de chuvas de monções. Fernando Hicap, presidente de uma associação nacional de pescadores, afirmou que muitos queriam retomar o trabalho, mas não tinham dinheiro para comprar gasolina.
Em março, cerca de um mês após o início da guerra com o Irã, manifestantes já haviam marchado em Manila em direção ao palácio presidencial contra os preços da energia. Na ocasião, o líder sindical Jerome Adonis pediu o fim da ofensiva americana contra o Irã e afirmou que os efeitos da interrupção no mercado de petróleo estavam sendo sentidos pela população por meio da pobreza e da fome. Sindicatos estudantis também participaram de protestos contra a crise do custo de vida ao longo do ano.
Indonésia
Na Indonésia, moradores de Makassar, na província de Sulawesi do Sul, relataram nesta semana escassez de gás de cozinha, apagões rotativos e o início de um sistema de racionamento de gasolina. Motoristas empurraram motocicletas com tanques vazios e formaram longas filas em postos sem combustível, enquanto taxistas protestaram contra a distribuição baseada em placas de veículos com números pares e ímpares.
Em Yogyakarta, na ilha de Java, estudantes também protestaram na segunda-feira contra a alta dos combustíveis, mas o ato foi dispersado por organizações pró-governo. O país discute restringir o acesso de famílias ricas e de classe média a combustíveis subsidiados.
Bangladesh
Em Bangladesh, que importa mais de 90% do petróleo que consome, principalmente do Oriente Médio, a escassez de gás natural liquefeito usado para gerar eletricidade provocou racionamento e o fechamento temporário de fábricas de roupas, principal motor da economia. Muitas empresas passaram a utilizar diesel depois do início da guerra, em fevereiro, mas agora também enfrentam a alta desse combustível.
Robiul Hasan Mehedi, funcionário de uma fábrica em Gazipur, um dos principais polos da indústria têxtil do país, afirmou que cortes de energia ocorrem quatro ou cinco vezes por dia. Paralisações de várias horas, multiplicadas por dezenas de fábricas e milhares de trabalhadores, tornaram-se frequentes. Em Daca, o líder da oposição Nahid Islam acusou grupos ligados aos setores de gás, petróleo e eletricidade de tentar elevar os preços.
Sri Lanka
No Sri Lanka, onde o governo determina mensalmente os preços dos combustíveis, distribuidores começaram a restringir a oferta aos postos enquanto aguardam um novo reajuste. Kumara Rajapaksha, presidente da Associação dos Proprietários de Postos de Combustíveis, afirmou que as empresas estão operando com prejuízo.
O ministro da Energia do Sri Lanka, Anura Karunathilaka, disse que as autoridades avaliam aumentar os preços oficiais e conceder subsídios. O país já tem uma das maiores relações entre dívida pública e Produto Interno Bruto entre as economias em desenvolvimento.
(Com New York Times)
Disparada nos preços dos combustíveis provoca protestos ao redor do mundo em meio à guerra dos EUA com o Irã
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