Não tenho a intenção de criticar ou ferir os brios de diplomatas, esses especialistas na árdua e paciente tarefa de realizar mediações e engendrar mudanças de pontos de vista de nações e povos em conflito. Admiro e louvo seus esforços de concórdia diante de lideranças recheadas de negligência e etnocentrismo, além de resistência a prescrutar o futuro deste nosso mundo encolhido e carente de muita fraternidade entre suas crenças, projetos e valores.
- Vera Magalhães: Defesas não negam fatos gravíssimos, apenas participação de clientes na tentativa de golpe de Estado
Por esses motivos, fiquei atônito ao ler neste jornal uma reportagem contando que um diplomata reagiu e acionou a Polícia Federal ao receber uma carta anônima contendo o desenho colorido de um “pênis alado”, como foi noticiado na edição de 20 de março.
- Malu Gaspar: Ida de Bolsonaro ao plenário do julgamento visa a enfrentamento político com STF
Não pude evitar a ponderação que ouso aqui compartilhar, contida no seguinte paradoxo: como um pênis com asas ou um antigo e célebre cazzo volante — o membro viril capaz de voar — pode ter causado tanto rebuliço entre profissionais cuja missão é desfazer as patifarias inomináveis de caudilhos, terroristas e neofascistas; e acabar com guerras e agressões? Pior que fantasiosos “pênis voadores” são os drones e foguetes que — ao contrário desses símbolos de amor e fertilidade — destroem cidades e vidas.
Não seria essa reação uma, digamos, incongruência a ser com as melhores intenções ajuizada? Afinal, nestes tempos de transitoriedade de gêneros e utopias, tempos de incertezas, ganhar um cazzo volante colorido não seria uma bênção e um enfático voto de felicidade, e jamais um caso de polícia?
Nas grandes civilizações, o pênis ereto foi (e ainda é) apreciado como sinal de força e sinceridade. Se, porém, for dotado de asas, ele se transforma num símbolo de sorte, liberdade, força e, acima de tudo, petulância e fertilidade. Caralhos — com a devida vênia pelo português castiço — somente são agraciados com asas, como os anjos, quando querem muito bem a quem são endereçados.
Todos os humanos portadores desse órgão singular — e, às vezes, problemático ou, digamos, usando a gloriosa psicanálise, neurótico — sabem dos seus caprichos. Um dedo, perna, olho, boca ou nariz movimentam-se obedecendo à vontade consciente do dono do corpo de que são parte. Mas, Deus do Céu, o órgão que motivou a reportagem tem uma índole peculiar, porque pode estar ao lado da consciência do comandante ou a ele ser ostensivamente indiferente. Se tal for o caso, ele, sem asas ou viço, fica mole na decepção dos “desmancha-prazeres”.
Por tudo isso, os pênis alados, como sabiam os antigos orientais, são a imagem de um pênis ideal. Um membro que, presunçoso, paira nas alturas como representação imaginativa mais do que legítima de poder, amor e fertilidade. É justamente por ter essas peculiaridades que o cazzo volante foi inventado e, desse modo, era apreciado e venerado por todos, todas e todes na velha Roma e em outros logradouros.
O pênis alado era (e é) um alento para todos que conheciam e aceitavam o peso da idade, das inseguranças e dos desfalecimentos masculinos ocultos pelo machismo como preconceituoso “mecanismo de defesa” — conforme me dizia o distinguido antropólogo social Renato Rosaldo, quando eu era inteligente e frequentava o Peabody Museum da Universidade Harvard.
Se o professor Rosaldo abriu meus olhos para o horror do machismo, o falecido pesquisador e curador de arte Francesco Pellizzi, nobre romano e profundo conhecedor do mundo antigo, instruiu-me e presenteou-me com uma bela miniescultura desse venerável “pênis voador”.
Guardo com carinho e respeito essa dádiva na mais elevada prateleira da minha mais alta estante. E, quando penso em morrer, ela me lembra seu laço com meus amados bisnetos e reafirma sua alada proteção nas inseguranças que não caem bem num jovial antropólogo-cronista de 88 primaveras.
