Uma investigação no Massachussets expôs um esquema de tráfico de armas nos Estados Unidos por imigrantes ligados ao PCC e outras facções criminosas brasileiras. Foram apreendidas 110 armas, e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos denunciou 18 brasileiros pelo esquema, em que armas compradas no Sul dos EUA ou produzidas de forma caseira eram oferecidas no estado da Costa Leste do país.
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Na denúncia, a principal menção ao PCC está em um pedido de prisão feito por um agente da Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF). Em setembro, o alvo do pedido, Floriano de Souza, de 50 anos, descobriu que um de seus clientes era o informante da polícia que contribuiu para a prisão de um cúmplice.
Floriano ameaçou o informante e um parente, ambos brasileiros, e exigiu US$ 70 mil (cerca de R$ 400 mil), dizendo que as armas que negociava eram da facção paulista. Ele cobrou o pagamento de um advogado para o cúmplice, para não haver retaliação do PCC, e disse saber onde estavam os parente dos dois, no Brasil e nos Estados Unidos, segundo o agente da ATF.
O parceiro de Floriano era Talles Provette de Faria, de 34 anos. Provette fugiu do Brasil para não ser preso por assalto a joalherias em 2022 em Minas Gerais, onde tem antecedentes por tráfico de drogas e porte de arma.
Em março do ano passado, o informante alertou que Provette traficava armas em Cape Cod. Ele comprou duas pistolas e munições por US$ 2,7 mil (R$ 15 mil) no estacionamento de uma loja de materiais de construção de Plymouth. E em maio, pagou US$1,5 mil (R$ 8,5 mil) por 50 gramas da droga fentanil.
Também foram alvos da operação João Vitor Pimenta, de 20 anos, e João Victor Soares, de 21. Com eles, o informante ameaçado comprou por US$ 6 mil (cerca de R$ 34 mil) dois rifles AR-15 em um estacionamento de supermercado em agosto. No mês anterior, Pimenta havia vendido uma “arma fantasma” para a mesma pessoa. Feitas de forma caseira, muitas vezes com impressoras 3D, elas não têm número de série e são mais difíceis de rastrear.
“Armas fantasmas” também foram negociadas por Victor de Souza e Riquelme Ferreira, o Koringa, apontado por um segundo informante como um dos líderes da gangue Trem Bala. Atuante na cidade de Framingham, onde há uma das principais comunidades brasileiras dos EUA, o grupo está envolvido com drogas, roubos e assaltos. A gangue compartilha o nome com uma das principais facções do Espírito Santo, associada ao PCC. Nas redes, Koringa postava fotos das armas que vendia.
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Os armamentos vinham do Sul dos EUA, onde as leis para a venda são mais flexíveis. Em agosto, câmeras registraram a viagem do Toyota Prius de Alason Ferreira Peixoto, de 22 anos, até Summerville, na Carolina do Sul, onde foram comprados ao menos dois rifles e uma pistola.
Duas destas armas foram vendidas a um informante em 15 de agosto, na cidade de Barnstable. Após sete vendas a autoridades americanas, Alason foi preso em setembro. Pelo seu Iphone, os agentes chegaram a Kessi Jhonny Firmino Sales. Em uma foto, os dois ostentam armas em um banheiro.
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A maior parte dos denunciados na semana passada imigrou recentemente e seis não estavam em situação regular no país. O grupo pode ser condenado a até 15 anos de prisão, mais três de liberdade supervisionada, e, depois disso, deportado. Massachusetts tem uma grande comunidade brasileira, o que ajudaria o grupo, segundo Roberto Uchôa, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública:
— Podem passar despercebidos — diz Uchôa, que chama a atenção para a venda de fentanil. — É um tráfico característico dos cartéis mexicanos. Ter pessoas ligadas ao PCC com essa droga seria algo novo.
Não são muitos os casos que conectam o PCC aos Estados Unidos. Em 2019, 14 integrantes da gangue Primeiro Comando de Massachusetts (PCM) foram acusados de envolvimento no tráfico de drogas e armas, além de cometerem crimes como roubos e sequestros. Apesar do nome semelhante e da maioria dos membros do grupo ter origem brasileira, uma ligação direta entre o PCM e o PCC não foi confirmada.
Em maio de 2023, o Serviço de Imigração anunciou ter preso em Massachusetts um membro do PCC condenado por assassinato no Brasil. Em março de 2024, o Departamento do Tesouro americano anunciou ter imposto sanções sobre Diego Macedo Gonçalves do Carmo, o ‘Brahma’, que teria lavado R$1,2 bilhão para a organização. Em setembro, a Folha de S. Paulo publicou que órgãos de inteligência brasileiros tinham conhecimento de casos de “soldados” da facção cruzando a fronteira do México com os EUA.
— Esse caso mais recente é uma sinalização de que a facção segue em sua expansão internacional — disse Uchôa.
