No último sábado, a comunidade do Santo Amaro, no Catete, ganhou o Santo Amaro Skatepark, um espaço dedicado à prática do skate e ao fortalecimento da cultura esportiva no local. Diferentemente de outros esportes, que exigem infraestrutura complexa e equipamentos caros, o skate pode ser praticado em qualquer espaço urbano, como praças, ruas ou pistas improvisadas. Mas ganhar uma pista é um salto maior e já faz toda a diferença no Santo Amaro.
— Ganhei uma pista que fica em frente à minha porta. Agora eu passo o dia todo brincando —diz Clara Caetano de Mesquita, de 9 anos.
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A iniciativa foi do Instituto Ademafia, idealizado por Ademar Lucas do Nascimento Lopes. Mas a história da comunidade com o skate começou antes. A ONG só ganhou um CNPJ em 2019, mas desde 2016 Lopes promovia na quadra da comunidade eventos anuais, como aulas e oficinas, para fomentar o esporte.
— Os eventos terminavam, e a criançada queria mais. Conseguimos construir a pista e agora oferecemos aulas todas as terças-feiras. Temos o sonho de passar a oferecê-las todos os dias e remunerar quem ajuda e torna as atividades possíveis — diz.
Hoje, são atendidas pelo instituto mais de 60 crianças a partir dos 5 anos, além de jovens e adultos. A ideia é, com ajuda do skate, oferecer uma nova realidade para os alunos.
— A minha vida mudou depois que eu tive acesso ao skate. Ele faz a gente circular, conhecer novas pessoas, outras realidades. Minha vida é um exemplo disso. Pude viajar e competir em outros países por causa do skate. Não existe um muro que aprisiona as pessoas dentro da comunidade, só uma condição social. Ele é uma ferramenta para mostrar essa possibilidade a essas crianças e jovens e para trazer a paz para cá. Aqui é uma comunidade pacífica, mas não é pacificada. Então o esporte ajuda a afastar nossos alunos de becos — acredita Lopes.
O idealizador conta que a construção da pista teve o apoio da comunidade:
— Aqui temos muitos espaços, mas nem sempre conseguimos fazer com que eles tenham um impacto coletivo na comunidade. Estávamos todos alinhados, e foi isso que tornou esse sonho possível.
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A construção da pista foi um desafio. Como o Morro do Santo Amaro tem acessos estreitos, todo o transporte de materiais precisou ser feito manualmente pelos moradores, que carregaram cimento, ferramentas e até uma betoneira pelos becos da comunidade. O espaço foi viabilizado por uma parceria com o projeto Elo Solidário, que financiou a obra, e a empresa Tangente Skateparks, responsável pelo desenvolvimento da pista.
— Foi como construir uma pirâmide. Mas tivemos a força de vontade e o apoio dos moradores. Cada pessoa que ajudou, seja carregando materiais, contribuindo financeiramente ou simplesmente incentivando, foi essencial para essa conquista. Esse projeto é a prova de que, quando a comunidade se une, grandes coisas acontecem — afirma Lopes.
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O Santo Amaro Skatepark é também uma homenagem de Lopes para Wallace Santo Amaro. Foi ele quem incentivou o idealizador do Instituto Ademafia a se arriscar sobre as quatro rodas.
— O Wallace foi quem me ensinou a andar de skate quando eu tinha 11 anos. Ele nos ensinou a ter orgulho de onde viemos. Hoje, ele faz parte desse projeto e também ministra aulas— conta Lopes.
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Wallace é conhecido como o primeiro skatista da comunidade. A identificação é tanta que ele só é chamado de Santo Amaro.
— É uma gratificação enorme ver esse projeto e fazer parte disso tudo. O skate é uma ferramenta porque permite que as crianças pratiquem esportes, brinquem e não se envolvam com hábitos errados. Desde que o skate entrou aqui, não vejo mais crianças em becos e vielas ou andando por aí porque não têm como se divertir. Estou muito feliz — afirma Wallace Santo Amaro.
No Santa Marta, nova biblioteca comunitária
Outra importante ferramenta de transformação social é a leitura, principalmente em favelas, onde o acesso à educação de qualidade nem sempre é garantido. Bibliotecas comunitárias cumprem um papel essencial ao oferecer livros, conhecimento e novas oportunidades para crianças, jovens e adultos. Esses espaços vão além da leitura, tornando-se centros de cultura, de troca de ideias e de construção de sonhos. Ao estimular o pensamento crítico e a imaginação, as bibliotecas ajudam a quebrar ciclos de desigualdade, abrindo caminhos para um futuro com mais possibilidades.
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O Morro Santa Marta, em Botafogo, ganhou no último dia 19 uma biblioteca comunitária para fomentar o acesso à leitura, à cultura e à educação na comunidade. O espaço é equipado para receber atividades como saraus, narração de histórias e oficinas, proporcionando uma experiência de imersão no universo da literatura.
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A iniciativa foi do Força Para Crescer: Pontos de Leitura, um projeto itinerante que realiza ações culturais e incentiva a leitura em escolas públicas visando a combater o analfabetismo funcional.
— Trabalhamos a valorização do livro enquanto ferramenta de transformação. A biblioteca inaugurada este mês no Santa Marta chega para coroar uma série de ações realizadas em dez municípios do estado do Rio de Janeiro. Esses espaços que unem cultura e educação são sementes para novas iniciativas que estão ocupando essas bibliotecas e estreitando a relação das comunidades com a prática leitora — diz Paulo Feitosa, diretor do programa.
William Mendonça, coordenador executivo geral do projeto, destaca a importância da instalação da biblioteca no Santa Marta. Ele explica que uma das missões é desenvolver um poder crítico e criativo entre os frequentadores do espaço.
— É para ser um lugar lúdico, criativo e onde é possível desenvolver também outras atividades. É como se os moradores reconhecessem o espaço como um lugar de possibilidades criativas e de socialização — avalia.
Para Mendonça, o programa é a materialização do encontro da cultura com a educação:
—Fica muito claro que, apesar de a gente trazer uma mobília, uma pintura e um livro, ou seja, um aspecto material, o que está sendo mais relevante ali é o aspecto simbólico. Aquela escola escolhida, aquele território prestigiado, aquelas crianças contempladas… E que aquilo que a gente está fazendo é, na verdade, enaltecimento da própria potência deles.
O programa estima que já tenha beneficiado mais de 12 mil pessoas com 75 apresentações teatrais, 251 sessões de narração de histórias, dez cursos de formação para contadores de histórias e 40 saídas culturais para eventos literários.

