Thelma Assis, de 40 anos, e Tainá Xavier, de 22, se entendem. Elas são de gerações diferentes, sempre viveram em cidades a mais de 600 quilômetros de distância e uma venceu a 20ª edição do Big Brother Brasil (BBB) se tornando uma celebridade, enquanto a outra ainda sonha em dar uma vida melhor para a família. Mesmo assim, as duas estão profundamente conectadas por um fio condutor em comum: tiveram a própria realidade transformada ao ingressar no Programa Universidade Para Todos, o Prouni, que completa duas décadas de existência em 2025. A convite do GLOBO, Thelminha — que, há 20 anos, esteve entre as primeiras favorecidas pelo projeto — e Tainá, recém-ingressada no mesmo curso de Medicina da ex-sister, se encontraram e descobriram que algumas resistências foram superadas de lá para cá, mas que vivências e dificuldades de um bolsista inserido em uma instituição privada de ensino, sobretudo em uma carreira usualmente destinada às elites, permanecem um desafio mesmo tanto tempo depois.
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— Quando passei, senti como se saíssem cem quilos das minhas costas. Era como se minha vida estivesse resolvida. Sei que não está, que ainda tem um caminho enorme pela frente. Mas só de ter chegado ali… Só quem vivenciou sabe — contou Tainá durante o encontro, sob a concordância de Thelma.
20 ANOS DE PROUNI
Programa do governo federal que troca isenção fiscal de instituições privadas por bolsas de estudos para pessoas de baixa renda, o Prouni já teve, até hoje, 3,4 milhões de pessoas beneficiadas, o equivalente a toda a população do Uruguai. Pesquisas apontam que seus egressos evadem menos, aprendem mais e conquistam ganhos econômicos maiores.
Em cinco anos, Tainá será médica — ela planeja tornar-se cirurgiã. No início do semestre, a jovem começou seu curso no Rio. Já a atual apresentadora da TV Globo foi aprovada na primeira turma do Prouni, em 2005 — primeiro em Psicologia e, no ano seguinte, em Medicina, na cidade de Sorocaba (SP). Antes de vencer o BBB, dava plantão em hospitais públicos como anestesista.
— Lembro até hoje da carta que recebi dizendo que ia ganhar a bolsa e da roupa que estava vestindo na hora da assinatura do contrato — recorda.
Em 2005, o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) não era nem de perto a prova que é hoje. Só a partir de 2009 ele passou a selecionar os alunos para o ensino superior. Antes disso, servia para avaliar as escolas, enquanto os jovens faziam os vestibulares. O Prouni, no entanto, já nasceu usando a nota do exame para sua seleção.
— Nós, prounistas, acabávamos subestimados. Como fomos os primeiros, não sabiam direito como funcionava. Nós ouvíamos: “Mas vocês só fizeram a prova do Enem? Então não vão conseguir acompanhar um curso tão difícil” — narra Thelminha.
Em seus primeiros passos acadêmicos, Tainá já não vê o mesmo desdém direcionado aos bolsistas, mas sente, ainda assim, “uma barreira” na turma. Caçula de quatro irmãs, ela só poderia sonhar com uma faculdade se fosse gratuita — afinal, o pai vendedor e a mãe dona de casa jamais conseguiram arcar com mensalidades que podem superar R$ 10 mil. Em meio a colegas de classe média alta da universidade na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, ela experimenta um abismo — um sentimento absolutamente comum entre os beneficiários do programa.
— Consigo me relacionar com as outras meninas da faculdade, mas sinto muito a diferença da realidade — diz.
Entre professores, a percepção sobre os prounistas também mudou. De acordo com Tainá, eles já reconhecem que todos estudaram muito para estar ali. Os bolsistas ganharam, inclusive, a fama de dedicados e resilientes. Ao longo dos últimos 20 anos, os números vêm confirmando essa impressão: 58% dos participantes concluíram a graduação em 2023, contra 36% dos que não recebiam a ajuda federal.
Um estudo de Kalinca Léia Becker (UFSM) e Mário Jorge Cardoso de Mendonça (Ipea) mostra que alunos do programa apresentam notas melhores no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), prova que avalia o ensino superior brasileiro, especialmente entre os que recebem bolsa integral.“O Prouni tem como critério de elegibilidade uma nota mínima no Enem e, como critério de permanência, são exigidas do aluno frequência e aprovação em 75% das disciplinas no semestre. Os resultados desse estudo podem ser uma evidência em favor da hipótese (…) de que essas exigências aumentam o comprometimento e, consequentemente, os resultados do aluno”, sustentam os pesquisadores.
— O Prouni superou absolutamente todas as expectativas. E o impacto social é inegável, por garantir o acesso de grupos mais vulneráveis economicamente ao ensino superior — afirma Fernando Haddad, atual ministro da Fazenda, que ocupava à época a secretaria-executiva do Ministério da Educação, pasta que também viria a comandar no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e foi um dos principais articuladores da iniciativa.
O prestígio que o programa e seus bolsistas possuem hoje, contudo, foi conquistado pelo esforço dos alunos. Hoje com 37 anos e gerente de controles internos para a América Latina da JP Morgan Chase, um dos maiores bancos do mundo — onde ele também atua como líder de Diversidade, Oportunidade e Inclusão —, Edmar Moreira precisou, antes de alcançar o tão almejado sucesso profissional, encarar a desconfiança de parte dos professores, que chegavam a tratá-lo como academicamente incapaz no curso de Administração numa universidade paulista, iniciado em 2005 graças ao Prouni.
— Eles tratavam a gente com certo desprezo. Chegou ao absurdo de uma falar na frente da sala inteira que não entendia por que os bolsistas insistiam em continuar estudando se a gente sabia que não iria concluir o curso — descreve Edmar, que participou da cerimônia de entrega das primeiras bolsas com Lula.
Negro, filho de uma diarista e egresso da escola pública, Edmar viu no Prouni a oportunidade que precisava. Passadas duas décadas, conhece 25 países e pagou os estudos da irmã mais nova. A pedido do GLOBO, compartilhou a sua história com Fernando Cruz, outro jovem paulista, também negro e filho de diarista, que começa em 2025 o mesmo curso de Administração como bolsista. Para o novato, de 22 anos, é só o começo de uma longa e difícil jornada cheia de dúvidas, enquanto concilia os estudos à noite com o trabalho para ajudar em casa e custear despesas que, mesmo com o benefício, são inerentes à vida de universitário, como alimentação, transporte e material acadêmico.
— Sinto muita pressão de, agora que fui aprovado, concluir o curso. Mas e depois? Vai valer todo esse esforço de ir dormir 0h30 para acordar às 4h da manhã? — questiona.
Veteranos e calouros concordam que essa é outra marca que persiste na rotina de um prounista: a pressão. E por fatores diversos, que vão desde a necessidade de começar cedo a apoiar financeiramente a família até a obrigatoriedade de garantir desempenho mínimo para não perder a bolsa.
— Todos têm margem para errar. É normal um período em que você não está bem. Para nós, do Prouni, não. Meu terror era todo semestre assinar o termo que renova a bolsa e pensar: “Mais seis meses, mais seis meses”. Às vezes, tinha de decidir entre gastar o dinheiro com xerox ou comida. Quem é do programa tem de estar atento, se cobrar muito para não falhar e priorizar a formatura. Venho do futuro para falar que, lá na frente, vale a pena — ensinou Edmar na conversa com Fernando.
