Enquanto o país está mergulhado em sua maior tragédia natural em quase duas décadas após o forte terremoto que devastou diversas regiões na sexta-feira e já deixou ao menos 1.700 mortos — com equipes de resgate lutando contra o tempo e o calor sufocante na busca de sobreviventes e a previsão de que o número de vítimas suba muito mais — a junta militar que governa Mianmar manteve os ataques aos grupos rebeldes com os quais trava uma guerra civil desde que derrubou o governo civil em 2021. Relatos de bombardeios aéreos a pelo menos quatro zonas, inclusive em áreas afetadas pelo terremoto, causaram indignação em organizações de direitos humanos e assistência humanitária e até da própria ONU, que pediram um fim imediato aos ataques. Por sua vez, a principal organização rebelde, o Governo de Unidade Nacional (NUG), declarou um cessar-fogo parcial de duas semanas a partir deste domingo para facilitar os esforços de resgate.
Os bombardeios ocorreram nas regiões de Magway, Shan, Sagaing e na fronteira com a Tailândia. Segundo relatos colhidos, entre outras, pela BBC Birmanesa, que cobre Mianmar (antiga Birmânia), o primeiro aconteceu na tarde de sexta-feira, cerca de 3 horas após o terremoto, na aldeia de Naungcho, no estado de Shan. Cinco aeronaves bombardearam uma base do Exército de Libertação do Povo Danu, matando sete pessoas. Também houve um ataque à aldeia de Chaung Oo, em Sagaing, zona fortemente atingida pelo sismo.
— As pessoas já estavam aterrorizadas pelo terremoto, e com o caos, foi impossível buscar refúgio nos abrigos antiaéreos — disse ao New York Times a moradora Phyu Win.
Neste domingo, novo bombardeio atingiiu a aldeia de Pakokku, em Magway, matando duas mulheres e ferindo sete pessoas. O relator especial da ONU para Direitos Humanos em Mianmar, Tom Andrews, reagiu com indignação, tachando os ataques de “completamente revoltantes e inaceitáveis”. Para ele, é “simplesmente inacreditável” que os militares continuem “a jogar bombas enquanto você está tentando resgatar as pessoas”.
— Quem quer que tenha influência sobre os militares tem de aumentar a pressão e deixar bem claro que isto não é aceitável — disse ele. — Estou apelando à junta a parar qualquer de suas operações militares.
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A organização de direitos humanos Human Rights Watch juntou-se ao relator da ONU nas críticas à junta militar de Mianmar, que após o terremoto lançou um apelo por ajuda internacional.
“Relatos de que os militares de Mianmar continuam com os ataques aéreos depois do terremoto dizem tudo o que se precisa saber sobre a junta — obcecada com sua brutal repressão aos civis e desesperadamente tentando vencer a guerra a despeito de quaquer custo humano”, disse em post no X a diretora para Ásia da HRW, Elaine Pearson.
Desde que derrubou o governo civil encabeçado por Aung San Suu Kyi em um golpe em 2021, a ditadura enfrenta forte resistência de grupos étnicos e pró-democracia que aos poucos evoluiu para uma guerra civil. Estima-se que o governo controle hoje entre 25% e 50% do território do país de 54 milhões de habitantes, e os ataques aéreos são sua principal forma de conter avanço dos rebeldes, que dominam extensas áreas rurais. Neste domingo, o NUG, que representa o governo deposto e vários desses grupos, anunciou uma trégua de duas semanas, mantendo apenas operações defensivas. O porta-voz de um dos grupos, a União Nacional Karen, alertou para o possível uso da ajuda internacional pós-terremoto pela junta para seus próprios fins, dada “a natureza dos militares em nsso país”.
— Eles podem usar o dinheiro para a guerra. Nos preocupamos com isso — disse Padoh Saw Taw Nee.
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Para analistas, a forma como o chefe da junta, general Min Aung Hlaing, vai lidar com as consequências do terremoto nos próximos dias e semanas pode determinar o curso dos acontecimentos. Mesmo antes da tragédia, a ONU já alertava que 20 milhões de pessoas corriam risco de fome em Mianmar este ano. No ano passado, uma ofensiva rebelde chegou perto de Mandalay, a segunda maior cidade do país, com 1,5 milhão de habitantes, fortemente atingida pelo sismo, no que foi considerado na época um possível divisor de águas no conflito. O especialista sênior em Mianmar do International Crisis Group, Richard Horsey, vê um “momento de perigo para Min Aung Hlaing”.
— É realmente um momento crítico para ele, mas também para o atual regime. Ele não sabe exatamente como tudo vai se desenrolar, mas sabe que vai haver enormes consequências políticas — disse ele ao New York Times.
Enquanto isso, as equipes de resgate continuam o trabalho frenético de busca a sobreviventes, que começam ver suas chances diminuírem a partir desta segunda-feira, quando se completam 72 horas do terremoto, período após o qual os especialistas indicam uma queda drástica na possibilidade de escapar com vida debaixo dos escombros. O abalo sísmico de 7,7 de intensidade atingiu Mianmar e parte da Tailândia por volta de 12h45 de sexta-feira (hora local) deixando ao menos 1.700 mortos, 3.400 feridos e 300 desaparecidos no território birmanês, segundo os últimos números fornecidos pela junta. Na Tailândia, ao menos 18 pessoas morreram na capital, Bangcoc, e 78 continuam desaparecidas.
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Na cidade de Mandalay, próxima ao epicentro e uma das mais afetadas, o terremoto causou o desabamento de prédios e pontes e rachaduras nas estradas. Neste domingo por volta das 14h (4h30 no horário de Brasília), outra réplica, de magnitude 5,1, segundo o Serviço Geológico dos EUA, fez com que as pessoas corressem para as ruas novamente e interrompeu temporariamente os esforços de resgate. As equipes de resgate birmanesas e chinesas continuam procurando por sinais de vida no Monastério de U Hla Thein, que desabou parcialmente quando cerca de 180 monges estavam prestando um exame. Até agora, 21 pessoas foram encontradas vivas e 13 corpos foram retirados, de acordo com uma autoridade. Nãos e sabe ao certo quantos monges estão soterrados, mas estima-se que passe de uma dezena.
— Quero ouvir o som da voz dele rezando — disse no local San Nwe Aye, irmã de 48 anos de um monge desaparecido.
Por sua vez, uma mulher grávida que teve a perna amputada para que se pudesse tirá-la de debaixo dos esombros de um edifício não sobreviveu aos ferimentos, segundo a agência AFP.
A ONU alertou para uma “grave escassez” de suprimentos médicos que dificulta a ajuda, afirmando que os socorristas não têm equipamentos de trauma, bolsas de sangue, anestésicos e medicamentos essenciais. As operações de resgate também são prejudicadas pelos danos a hospitais e infraestrutura de saúde, assim como estradas e redes de comunicação.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) enviou com urgência quase três toneladas de suprimentos médicos para hospitais em Mandalay e Naypyidaw, a capital, onde milhares de feridos estão sendo tratados, e fez um apelo para arrecadar US$ 8 milhões para o socorro emergencial e para impedir a eclosão de epidemias nos próximos 30 dias. A organização classificou a crise em Mianmar em nível 3, o mais elevado de seu programa de intervenção.
Pelo menos 12 países já começaram a enviar ajuda com equipes médicas e de resgate, dinheiro e equipamentos, entre eles Índia, Malásia, Rússia, Cingapura e a própria Tailândia, também atingida pelo terremoto. A China enviou 82 socorristas e prometeu US$ 13,8 milhões (R$ 79,5 milhões) em assistência, e o Vietnã anunciou o envio de 80 socorristas, enquanto Hong Kong enviou 51. A Cruz Vermelha lançou um apelo para arrecadar US$ 100 milhões (R$ 576 milhões).
A quase mil quilômetros de Mandalay, em Bangcoc, os socorristas ainda esperam retirar com vida os trabalhadores do local onde um arranha-céu de 30 andares em construção desabou. A operação mobilizou grandes escavadeiras mecânicas, cães farejadores e drones térmicos para detectar sinais de vida. A maioria dos mortos em Bangcoc eram trabalhadores que morreram no desabamento do prédio, localizado no distrito de Chatuchak, perto de um mercado muito popular entre os turistas.
