Entre junho e julho de 1995, uma extravagância pop chegou a milhares de telas de cinema ao redor do mundo. Parecia incorporar o que defensores e críticos identificavam como a indiferença que marcava a sensação de “fim da história” naquela década. Era, quem poderia imaginar, um filme do Batman. E, no centro de tudo, estava um homem sério e robusto cercado por uma palhaçada completa: era Val Kilmer, o ator que morreu aos 65 anos nesta terça-feira.
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“Batman Eternamente” foi o terceiro filme de uma franquia iniciada em 1989 pela melancólica versão de Tim Burton. Estrelando Michael Keaton no papel-título e Jack Nicholson como o Coringa, o “Batman” de 1989 era, pelos padrões da época, sombrio para um filme inspirado em história em quadrinhos.
A continuação de Burton e Keaton, “Batman Returns” (1992), não conseguiu repetir o sucesso de bilheteria do original. Então, um novo diretor, Joel Schumacher, foi trazido com a missão de fazer o que um jornalista chamou de “Batman Light”. Schumacher era fã da interpretação de Val Kilmer para Doc Holliday no faroeste “Tombstone” (1993) e o escolheu como seu protagonista.
Mas este não seria o Batman de Burton. Não há muito o que contemplar aqui”, escreveu a crítica Janet Maslin, no “New York Times”, “além do espetáculo de adereços enigmáticos e do kitsch de bons atores (e todos fizeram recentemente melhores trabalhos em outros lugares) vestidos para um Halloween picante.
Schumacher optou por ângulos de câmera extravagantes e um esquema de cores berrantes. Os vilões (Jim Carrey como o Charada e Tommy Lee Jones como o Duas-Caras) tinham autorização para mastigar o cenário. O traje do Batman tinha mamilos (ainda mais ostensivos no filme seguinte). O filme era estranho.
Mas foi um sucesso de bilheteria. Bateu o recorde de fim de semana de estreia e eventualmente arrecadou mais de US$ 336 milhões em todo o mundo, superando seu antecessor em dezenas de milhões de dólares.
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Em seu papel de maior destaque, Kilmer interpretou Batman e Bruce Wayne de forma impassível. Ele namora a psicóloga de Nicole Kidman com uma respeitabilidade estranha (“Garotas adoram o carro”). Combate o ridículo de seus antagonistas com uma cara séria. Seu Bruce Wayne é torturado e atormentado pela culpa, já na meia-idade. Não mais apenas um filho em busca de vingança, ele se torna uma figura paterna para um jovem órfão (que acaba se tornando Robin, interpretado por Chris O’Donnell).
A extravagância de “Batman Eternamente” foi reconhecida quase imediatamente como emblemática em seu tempo. No ano seguinte, o diretor francês Olivier Assayas fez “Irma Vep”, uma sátira da forma moderna de produção cinematográfica de sucesso. Enquanto o elegante terno preto que a estrela do filme-dentro-do-filme deve usar é uma referência à Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer em “Batman: O retorno”, a estética espalhafatosa é toda “Batman Eternamente”.
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Desde então, houve esforços para reivindicar o filme de Kilmer como uma obra-prima não celebrada. Vera Drew, diretora do filme independente “The People’s Joker” (2022), creditou “Batman Forever” como sua principal influência.
Mas para Kilmer o Homem-Morcego foi trabalho de um filme só. Ele não retornou para a continuação de Schumacher, “Batman & Robin” (1997), e décadas depois disse ao Times que o papel parecia muito cifrado. “Não é sobre o Batman”, ele disse. “Não existe Batman.” Ele foi substituído por George Clooney.
“Batman & Robin” foi um fracasso relativo, mais lembrado hoje pelos trocadilhos execráveis proferidos pelo Sr. Freeze de Arnold Schwarzenegger, e pôs fim a essa era da franquia. O tipo de filme de história em quadrinhos representado por “Batman Eternamente” desapareceu, para ser substituído na década seguinte pelo realismo áspero da trilogia “O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan e pela ironia do Universo Cinematográfico Marvel. Sem contar sua breve aparição em “Top Gun: Maverick”, Kilmer nunca mais participou de um filme tão grande.
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Mas “Batman Eternamente” é um artefato imaculado de seu tempo, da mesma forma que “Top Gun” (1986), outro dos filmes mais memoráveis de Kilmer. Não foi o melhor filme dos anos 90, mas pode ter sido o filme mais anos 90 já feito. Quando os historiadores desejam saber como era viver nos Estados Unidos durante o auge de seu momento unipolar no topo do mundo, eles poderiam tirar o pó do traje de Batman de Kilmer, com mamilos e tudo.
