Ao observar a cena de ciclismo que tomava as ruas de Salvador, cerca de dez anos atrás, Lívia Suarez não se sentia parte do rolê. “Comecei a pedalar pela cidade e notei que a maioria dos grupos eram formados por pessoas brancas. Não me identificava com as vestimentas nem com as narrativas daquela turma”, relembra. Tornou-se, então, bikeativista, criou eventos de pedal para pessoas negras e, em meio a essa jornada, encontrou a oportunidade para um negócio: a Loja Bicipr3ta (@bicipr3ta). A marca, voltada à população negra, produz bicicletas sob medida conforme as necessidades dos clientes, roupas, acessórios e tem como carro-chefe uma linha de produtos inovadores: capacetes capazes de acomodar penteados como dreadlocks, tranças e blackpower sem comprometer o look.
Isso é possível pela combinação entre aberturas que permitem a saída de parte dos fios e uma espuma especial que protege a cabeça e não amassa o penteado. Tudo amarrado com um design caprichado. “Inspirei-me no afrofuturismo e criei modelos com viseiras magnéticas que podem ser removidas, por exemplo”, conta a empreendedora, de 37 anos, que já viajou para países como Peru, Estados Unidos e Etiópia, para apresentar seus produtos em eventos. “Por onde andei, nunca vi nada parecido.”
Há também uma linha com pichações do artista Vandalismo, e outra infantil, que recebeu desenhos afros assinados por Samuca. “São ótimos para quem quer dar close”, brinca Lívia. Todos os envolvidos vivem na Bahia, assim como a fabricação é totalmente feita lá, para assegurar o selo “Made in Salcity” (Salvador, para os íntimos). “Com toda essa história, não faria o menor sentido criar o produto aqui e produzi-lo na China.”
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CEO do Movimento Black Money & D’Black Bank, Nina Silva observa que o mundo tem descoberto novos conceitos de wellness, mas isso ainda não está, em geral, atrelado aos comportamentos de consumo e ao lifestyle de pessoas negras. “Precisamos normalizar o bem-estar da nossa comunidade, e iniciativas como a Bicipr3ta colocam beleza, criatividade e segurança no centro de um negócio lucrativo e sustentável”, diz. “E isso tudo dentro do território mais preto fora de África, que é a Bahia. Bora conquistar esse mundão!”

