Após sinais de trégua em vários estados do Brasil, uma nova aliança parece estar se consolidando entre o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, facções que historicamente foram inimigas. A Polícia Civil do Rio de Janeiro, em uma operação inédita, classificou esse vínculo como uma “aliança estratégica” em um elaborado esquema de lavagem de dinheiro, que movimentou R$ 6 bilhões em somente um ano, envolvendo ambos os estados. A investigação, considerada a maior da história da corporação sobre o tema, revelou que as facções usavam empresas de fachada e bancos digitais para ocultar os lucros do tráfico de drogas.
Os criminosos realizavam depósitos frequentes de grandes somas de dinheiro, entre R$ 150 mil e R$ 750 mil, em notas de baixo valor, como R$ 5, R$ 10 e R$ 20, em bairros da Zona Oeste do Rio, como Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá. Esses valores eram direcionados para empresas de fachada, como a Ônix Perfumaria, registrada em São Paulo, mas que nunca operou no endereço indicado e tinha como sócia uma mulher cadastrada em programas de auxílio emergencial, funcionando como laranja.
O dinheiro era então pulverizado entre diversos empreendimentos fantasmas, antes de ser enviado para o 4TBank, uma fintech fundada pelo PCC em 2020, e que operava sem a autorização do Banco Central.
O 4TBank se tornou um ponto central na lavagem do dinheiro, facilitando transações de grande porte com aparência legal. Parte dos recursos era enviada para países de fronteira, conhecidos como fornecedores de drogas para o Brasil, enquanto o restante retornava como lucro para as facções, redistribuído para empresas de fachada no Rio, que ajudavam a financiar a compra de armas, drogas e munições.
A Polícia Civil descreve a cooperação entre o CV e o PCC como uma “aliança estratégica e logística”, com o objetivo principal de adquirir drogas, armas e munições a partir do dinheiro lavado.
— Não há disputa territorial envolvida. O PCC não pretende atuar nas comunidades do Rio. A aliança é puramente estratégica, voltada para a compra de armamentos e entorpecentes — explicou o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi.
Sobre os R$ 6 bilhões bloqueados até o momento, o delegado Jefferson Ferreira afirmou que ainda não é possível determinar a quantidade pertencente a cada facção, pois a apuração depende de um levantamento de dados fiscais e bancários, em processo judicial. Este valor representa o maior pedido de bloqueio patrimonial da história da Polícia Civil, que também considera essa ação como a maior contra a facção criminosa.
Em fevereiro deste ano, um comunicado assinado conjuntamente pelo PCC e CV selou oficialmente a trégua entre as facções. O texto, que circulou nas periferias de estados do Norte, Nordeste e Sudeste, inclusive em São Paulo, anunciou o fim de uma guerra histórica e a formação de uma nova aliança.
Segundo o comunicado, “toda guerra tem um início, meio e fim”. O texto também cita o dia 25 de fevereiro como “histórico”, data em que as organizações criminosas estão colocando fim à guerra e “refazendo uma nova aliança pelo bem comum”.
A operação, que faz parte da “Operação Contenção”, busca desarticular a base financeira das facções e cortar os recursos usados para a expansão territorial e fortalecimento do poderio criminoso, principalmente nas comunidades da Zona Oeste do Rio.
Em meio a segunda fase da operação, agentes ainda cumprem 46 mandados de busca e apreensão tanto na capital fluminense quanto em municípios do Estado de São Paulo. Até o momento, duas pessoas foram detidas. Um homem foragido da Justiça foi preso em Franca, no interior de São Paulo, enquanto uma mulher foi presa em flagrante com uma celular roubado, na comunidade do Fallet, na região central do Rio.
No Rio, os mandados são cumpridos nas zonas Oeste, Norte e Sul da capital, além de municípios do interior do estado. Entre os endereços estão os complexos da Maré e do Fallet-Fogueteiro.
Em São Paulo, a polícia faz buscas na capital, Região Metropolitana e nos municípios de Franca, Praia Grande e Santos.
A ação da quinta-feira foi conduzida pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE), do Departamento-Geral de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (DGCOR-LD), além da Polícia Civil de São Paulo.
