Com quantos pianos se faz uma revolução? A música tradicional de Cuba experimentou uma guinada surpreendente no final dos anos 1990. Indicado ao Oscar de melhor documentário de 1999, o filme “Buena Vista Social Club”, do alemão Win Wenders, jogou luz numa geração de músicos esquecidos da ilha, nomes como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo e Omara Portuondo, colocando os ritmos daquele país de volta aos ouvidos do mundo. O título do filme virou quase uma marca, sinônimo de música cubana da velha guarda, aquela dos grandes bailes dos anos 1940 que não fomos mas que imaginamos, a música acalorada e cheia de paixão que privilegia gêneros como o son, o bolero e o danzón. Quase 30 anos depois do filme, a Buena Vista Orchestra — projeto que se inspira no filme — está no Brasil para uma série de shows. Eles tocam hoje no Teatro Clara Nunes, na Gávea, e amanhã, no Circo Voador, na Lapa.
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Liderado pelo trombonista Jesus “Aguaje” Ramos, único remanescente do Buena Vista original, o grupo de dez músicos, todos cubanos, levam para o palco alguns dos maiores sucessos do repertório original do filme — e que virou disco, aliás, vencedor de um Grammy em 1998. Clássicos como “Chan chan”, “El cuarto de tula”, “Quizas, quizas, quizas”, “Carbonero”, “Silencio” e “Dos gardenias” estão no roteiro.
— Estou loco para chegar no Rio — diz Aguaje ao GLOBO, de Natal, no Rio Grande do Norte, uma das 13 cidades pelas quais passaram antes de chegar ao Rio. Daqui, vão para São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Goiânia e Florianópolis. — Todos os lugares têm sido fabulosos, cenários lindos, estamos, muitos felizes. O público daqui é ótimo, os brasileiros estão sempre rindo, sempre muito amigáveis e carinhosos. Levarei um pedaço deles no meu coração.
Aos 74 anos, Aguaje testemunhou de perto como o filme catapultou a música cubana para um outro patamar. Ele diz que o filme foi uma espécie de “big bang” para os músicos da ilha.
— Teve uma importância tremenda, fez com que o mundo conhecesse a gente. Quando passávamos pelos teatros na época em que o filme estava sendo exibido, todo mundo corria pra ver. Mudou a vida de todos nós. Houve um impacto porque havia um grande bloqueio à música cubana. Não saía da ilha, passou muitos anos sem sair da ilha. Não se comercializava em lugar nenhum do mundo. Nós chegamos com uma música, tradicional acústica, todos assimilaram muito bem, foi um impacto mundial.
De fato, o documentário de Wenders, que teve colaboração fundamental do guitarrista Ray Cooder, fez daqueles músicos grandes estrelas internacionais. O disco “Buena Vista Social Club” vendeu mais de um milhão de cópias, número muito superior a trabalhos de grandes artistas pop lançados paralelamente naquela época. Em 2003, o álbum foi listado pela revista Rolling Stone em 260º lugar nos 500 melhores álbuns de todos os tempos. O burburinho segue até hoje — recentemente, um musical com o mesmo nome do filme estreou na Broadway.
— Eu não me separo das raízes da música tradicional. Não há concessão. E em Cuba, as pessoas nos seguem. Todo mundo toca “Chan Chan”, “El cuarto de tula”, dos mais jovens aos mais velhos, todos. E pelo mundo todo, a música tradicional cubana, mesmo com o passar dos anos, segue em alta, segue sendo escutada por toda a gente.
