Em março, o caso de um homem supostamente mantido em cativeiro pelo pai e pela madrasta durante 20 anos veio à tona em Connecticut, nos Estados Unidos. A vítima teria sido privada de liberdade aos 11 anos, e vivia em um quarto insalubre em uma casa na cidade de Waterbury. Foi o próprio homem, hoje aos 32 anos, quem teve a ideia de provocar um incêndio para ser resgatado pelos bombeiros, em fevereiro, segundo as autoridades locais.
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Nesta terça-feira, 15 de abril, foi divulgada sua primeira declaração pública sobre os fatos, semanas após o fim de sua história de terror. Segundo seu próprio testemunho, ele agora busca ter voz em uma história que todos, menos ele, contaram até hoje.
O texto foi divulgado pela imprensa americana nesta terça-feira. Nele, o homem fala sobre o processo difícil que viveu durante os 20 anos em que esteve trancado em condições deploráveis e com o mínimo para sobreviver.
A madrasta, identificada como Kimberly Sullivan, de 57 anos, e o pai, Kregg Sullivan, que morreu em janeiro de 2024, o teriam maltratado e abusado de todas as formas possíveis. A mulher, no entanto, se declara inocente. No depoimento, ele diz que escolheu um novo nome para se usar até que “o controle” da “vida e futuro” sejam estabelecidos.
Leia a carta na íntegra:
“Por favor, me chamem de ‘S’. Esse não é o nome que meus pais me deram quando nasci. Estou escolhendo um novo nome para mim e usarei esse nome enquanto recupero o controle da minha vida e do meu futuro. Meu nome é minha escolha, e é a primeira de muitas decisões que tomarei por mim mesmo agora que estou livre.
Sou um sobrevivente de mais de 20 anos de cativeiro e abuso doméstico. Fui mantido prisioneiro em minha própria casa desde que fui retirado da escola na quarta série, aos 11 anos, até dois meses atrás, quando, aos 31, provoquei intencionalmente o incêndio que ajudou a me libertar.
Hoje falo publicamente para iniciar o processo de retomada da minha vida e para ter voz sobre como minha história será contada. Estou muito melhor e mais forte do que no dia em que os socorristas me retiraram de casa. Sou imensamente grato pelo cuidado que recebi desde então. A todos os profissionais de saúde que me ajudaram e cuidaram de mim, obrigado. Além de todo o cuidado, fiquei muito feliz por ter tido, pela primeira vez, uma festa de aniversário para comemorar meus 32 anos.
Também quero agradecer aos socorristas, aos investigadores da polícia e a todos que estão trabalhando para responsabilizar aqueles que abusaram de mim. Obrigado a todos da Safe Haven Waterbury e a todos que contribuíram com a página do GoFundMe, que ajudará a cobrir algumas das despesas imensas que enfrentarei nas próximas semanas, meses e anos.
Sou grato ao curador e ao meu advogado, que me ajudarão a seguir pelo processo legal daqui em diante. Eles têm sido essenciais para mim, e agradeço pelo apoio incansável.
Muito já foi dito sobre o que passei, e isso conta parte da história dos abusos que sofri. Talvez, um dia, toda a minha história venha à tona.
Peço a todos os envolvidos em minha história que colaborem plenamente com as autoridades que estão me ajudando a buscar justiça por esses crimes. Também peço ao público e à mídia que respeitem essas investigações e a minha privacidade ao longo deste processo. Isso não é apenas uma história. É a minha vida.
Agradeço a todos pelas mensagens, pelo apoio e pelas orações contínuas enquanto me recupero. Por favor, encaminhem qualquer pergunta sobre minha recuperação, pedidos de informação ou entrevistas, ou sobre o andamento do processo, para David Guarino, do Survivors Say, que se voluntariou para atuar como meu porta-voz.
Desde pequeno, S. não podia cortar o cabelo nem ter acesso a necessidades básicas. Ele conta que sua mãe não o deixava beber água, sendo obrigado a usar a água do vaso sanitário. As equipes de emergência chegaram a compará-lo a um sobrevivente do Holocausto nazista pelas condições em que foi encontrado.
Para se libertar, ele usou um isqueiro esquecido no bolso de um velho casaco que sua madrasta lhe dera. Se não morresse no fogo, raciocinou, talvez finalmente fosse libertado.
Aquela viagem de ambulância, em 17 de fevereiro, foi a primeira vez que saiu de casa desde os 12 anos, e revelou um dos segredos mais chocantes da história de Waterbury. A polícia agora acredita no que o homem disse naquela noite: por 20 anos, um quarto de 2,4 m por 2,7 m no último andar de uma casa degradada foi uma cela de prisão para um menino — agora um homem — visto pela última vez pelo mundo exterior quando ainda estava na quarta série.
No final do mês passado, a madrasta do homem, identificada como Kimberly Sullivan, de 57 anos, foi indiciada no Tribunal Superior de Waterbury. Ela foi acusada de sequestro, agressão, crueldade, restrição ilegal e negligência criminosa. Se condenada por todas as acusações, poderá passar o resto da vida na prisão.
“Ela insiste que não fez nada de errado”, disse seu advogado, Ioannis Kaloidis, em entrevista. Kaloidis culpou o pai biológico da vítima, que morreu em janeiro do ano passado (a mãe biológica havia renunciado aos seus direitos parentais, o direito de guarda era do pai).
— Eles fazem parecer que Kim Sullivan tomou todas as decisões, que foi ela quem o retirou da escola, que foi ela quem decidiu o que ele comia ou não, que foi ela quem determinou quando ele iria ao médico — acrescentou Kaloidis: — Ela não era a mãe da criança.
Além do enteado, Sullivan também tinha duas filhas mais novas com Kregg Sullivan — Alissa, agora com 29 anos, e Jamie, agora com 27 — que pareciam ter liberdade para entrar e sair de casa quando quisessem.
O homem, que está se recuperando em um centro médico de Connecticut, ainda não fez nenhuma aparição pública, e a carta divulgada pela imprensa americana é sua primeira comunicação com o mundo. A polícia não divulgou nenhuma foto ou seu nome, pois afirma que ele é vítima de abuso doméstico. Um tutor, cuja identidade não foi divulgada, foi nomeado pelo tribunal para proteger seus interesses.

