A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de protelar a reforma ministerial que está em discussão desde o final do ano passado faz com que as próximas mudanças na Esplanada tenham de ser eventualmente refeitas em menos de um ano. Isso porque a tendência é que 20 dos 38 ministros deixem os cargos para disputar as eleições de 2026. Reservadamente, integrantes do governo dizem que o presidente perdeu o momento de fazer uma reforma ampla. Por outro lado, pessoas ligadas ao Palácio do Planalto afirmam que Lula só deve fazer nos próximos meses mudanças pontuais.
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Quaisquer alterações significativas só seriam feitas para acomodar aliados de modo a garantir fidelidade política ao presidente ou resolver problemas de gestão, dizem aliados.
Pela regra eleitoral, quem quiser disputar precisa se desincompatibilizar de cargos públicos pelo menos seis meses antes do pleito, ou seja, até o início de abril. Entre os ministros que devem deixar os cargos, há pré-candidatos à Câmara dos Deputados, ao Senado e a governos estaduais.
Entre os mais próximos a Lula, Rui Costa (Casa Civil) e Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais) estão entre os que já avisaram que vão deixar os cargos em abril de 2026. Costa tem a intenção de disputar uma vaga no Senado pela Bahia. Já no caso de Gleisi, o próprio PT avalia ser importante que ela se reeleja como deputada federal, tanto pelo seu potencial eleitoral quanto por seu perfil combativo que pode ser importante em caso de uma eventual derrota presidencial petista.
Entre os que ainda são incógnita, o mais relevante é o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT-SP), que segundo aliados não quer ser candidato, mas poderia disputar o Senado em São Paulo a pedido de Lula. O presidente tem dito a ministros e aliados mais próximos que a eleição para o Senado é crucial. Ele tem demonstrado preocupação com os movimentos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que tem se organizado para apresentar candidatos com potencial eleitoral. Evitar que o bolsonarismo conquiste a maioria no Senado é uma das prioridades de Lula, avaliam interlocutores do presidente.
Também em São Paulo, o ministro do Empreendedorismo, Márcio França (PSB), deseja disputar o governo, mas depende do aval do PT.
Entre os ministros de Lula há atualmente quatro senadores, mas só um em fim de mandato: o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD-MT), que deve se candidatar à reeleição. Os titulares das pastas de Educação, Camilo Santana (PT-CE), e Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias (PT-PI), têm mandato até 2030 e pretendem permanecer no governo.
O ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB-AL), também tem mandato de senador até 2030, mas vai deixar o cargo em abril. Ele é um dos emedebistas que pleiteia a vaga de vice na chapa de Lula à reeleição, mas seu plano B é disputar novamente o cargo de governador de Alagoas, posto que ocupou por dois mandatos.
Também são certas as saídas dos ministros do Planejamento, Simone Tebet (MDB-MS), e de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG), embora ainda não esteja definido que cargos vão disputar. Silveira tem dito que sua prioridade é coordenar a campanha de Lula em Minas Gerais, mas pode disputar tanto o Senado quanto lançar-se ao governo, no caso de uma desistência do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Tebet, por sua vez, tem dito a aliados que só disputaria o Senado a pedido de Lula. Ela é aliada, em Mato Grosso do Sul, do atual governador, Eduardo Riedel (PSDB), que tem discurso bolsonarista. Pessoas próximas a Tebet têm pressionado a ministra a transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo para disputar o Senado. A ideia esbarra, no entanto, no perfil antipetista do MDB no estado, que tem nomes como o ex-presidente Michel Temer e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, entre suas principais lideranças..
Entre os ministros de perfil político, além de Camilo Santana e Wellington Dias, têm a intenção de permanecer até o fim do governo os ministros da Saúde, Alexandre Padilha (PT-SP); dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo (PT-MG); e da Previdência, Carlos Lupi (PDT-RJ).
Há ao todo dez deputados federais licenciados no ministério, dos quais nove devem deixar a equipe para disputar a reeleição ou outros cargos. Além de Gleisi e Padilha, elegeram-se deputados federais em 2022 os ministros dos Esportes, André Fufuca (PP-MA); do Turismo, Celso Sabino (União-PA); do Trabalho, Luiz Marinho (PT-SP); do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede-SP); do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira (PT-SP); de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos-PE); e dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara (PSOL-SP). Desses, só Padilha fica até o fim do governo.
Marinho e Teixeira já decidiram que vão disputar a reeleição. Marina não bateu o martelo, embora aliados deem como provável que ela se candidate à Câmara de novo. Sabino, Silvio Costa Filho e Guajajara (PSOL-SP) também devem disputar a reeleição.
Já Fufuca pleiteia se candidatar ao Senado, embora o estado tenha ao menos outros quatro virtuais candidatos da base de Lula. Os senadores Weverton Rocha (PDT) e Eliziane Gama (PSD) querem concorrer à reeleição e o atual governador Carlos Brandão (PSB) também mira uma vaga no Senado.
Devem ainda disputar vagas na Câmara em seus estados os ministros da Igualdade Racial, Anielle Franco (PT-RJ); das Cidades, Jader Filho (MDB-PA); e da Pesca, André de Paula (PSD-PE).
Enquanto Lula protela a reforma, partidos tentam aumentar sua participação na Esplanada. O PSD, por exemplo, cobiça o Ministério do Turismo, hoje com o União Brasil.
Já o espaço reservado ao União é motivo de desentendimento na legenda. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), indicou o líder da sigla na Câmara, Pedro Lucas Fernandes (MA), para ser ministro das Comunicações. E quer emplacar Juscelino Filho, que deixou a pasta após ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por desvios de emendas, na liderança da bancada.
A cúpula do partido, contudo, e parte dos deputados, quer manter Pedro Lucas como líder e evitar assim uma guerra pelo posto.

