Janete Clair provocou um terremoto na TV — e não foi no sentido figurado. Uma das maiores novelistas da História do Brasil, que completaria 100 anos no próximo dia 25, chegou à TV Globo em 1967 para ajudar a resolver um problema da trama “Anastácia: a mulher sem destino”, de Emiliano Queiroz. O autor se complicou com personagens demais, que fizeram a história perder o ritmo e virar uma bagunça. Com conhecimento de folhetim — narrativas dramáticas, base das novelas, publicadas em capítulos nos jornais do século XIX — pelo trabalho prévio no rádio e na TV Tupi, Janete foi contratada por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, na época diretor da emissora, para dar um jeito naquele caos. A solução? Ela inseriu um terremoto na história, que matou boa parte dos personagens e consertou o rumo das coisas.
Nos anos seguintes, Janete foi, aos poucos, lapidando a forma de se fazer novela no Brasil, com romantismo, humor e suspense nas tramas principais e paralelas de histórias tipicamente brasileiras. Um abalo sísmico sentido até hoje, parte da formação cultural do país, e que será reverenciado com a exposição “Janete Clair 100 anos: A usineira de sonhos” no Museu da Imagem e do Som, na Lapa, com abertura na próxima segunda-feira. Um episódio do programa “Conversa com Bial”, da Globo e do GNT, ainda sem data para ir ao ar, também faz parte das comemorações.
— Janete não inventou o folhetim, mas foi a novelista que melhor o estruturou (na televisão) —diz o jornalista Mauro Ferreira, autor do livro “Nossa Senhora das Oito: Janete Clair e a evolução da telenovela no Brasil” (Ed. Mauad). —Novela que a gente conhece hoje foi uma criação dela com o diretor Daniel Filho e Boni.
Nascida em Conquista (MG), Janete foi registrada como Jenete Emmer (assim mesmo, por um erro do escrivão, que não entendeu o sotaque libanês do pai dela). O Clair veio da música “Clair de lune”, de Claude Debussy, que ela adorava e lhe foi sugerido como nome artístico quando já morava no Rio e trabalhava no rádio.
Foi nesse ambiente que conheceu o dramaturgo Dias Gomes, com quem se casou, teve quatro filhos (um deles morreu com 2 anos de idade) e viveu por toda a vida, até morrer de câncer, em 1983, aos 58 anos, em plena atividade.
Só na TV, Janete criou mais de 20 novelas. A mineira era uma máquina de escrever: emendava uma obra na outra e no horário mais nobre da TV, o “das oito”. São delas “Véu de noiva”, a primeira novela naturalista da Globo (“mais brasileira e atual”, disse Daniel Filho, em 1969), “Irmãos Coragem” (1970), “Selva de pedra” (1972), “O astro” (1977), “Pai herói” (1979) e outras tantas.
—Ela cuidava da casa, dos filhos, do marido e escrevia um capítulo por dia, infalivelmente — relembra o filho Alfredo Dias Gomes, um dos curadores da exposição no MIS e diretor do curta “A escritora”, em homenagem à mãe, que estreia no Cine Joia, em Copacabana, no próximo sábado, às 20h, seguido de um pocket show com a trilha sonora do filme. —Era uma mãe carinhosa, dedicada, mas vivia no mundo dela. No curta, conto a história de quando ela teve que escrever às pressas “Pecado capital”, e o pano de fundo é o movimento da casa.
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A gênese de “Pecado capital” reflete bem o potencial criativo da novelista. Em 1975, Janete estava, pela primeira vez, alocada no horário das 19h, quando “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, foi proibida pela censura do regime militar às vésperas de ir ao ar. A TV Globo não tinha um plano B além de Janete Clair. Em poucos dias, escreveu a sinopse da história e a produção começou enquanto a emissora transmitia um compacto de outro sucesso dela, “Selva de pedra”.
—Tudo na Janete era criatividade — relembra Boni. — Ela não refutava trabalho, era capaz de entregar três, quatro capítulos por dia.Nunca tive problema de atraso de texto com ela. Tive com outros autores geniais, mas ela podia escrever um capítulo com a mão direita e outro com a esquerda.
Numa época em que novela era trabalho solo, ou seja, autor não tinha colaboradores, como acontece hoje, Janete era conhecida também pela função informal de supervisão. Ajudou na formação de nomes como Gilberto Braga e Gloria Perez, esta última a única pessoa que escreveu com ela.
— Num almoço, a nora da Janete, Cecília, comentou que ela estava doente, procurando pela primeira vez um colaborador, e tinha recusado todos os que a Globo indicou — relembra Gloria. —Perguntei se ela levaria um trabalho meu para ela. Disse que sim. Deixei o almoço de lado e fui em casa pegar o roteiro de “Malu mulher” que ninguém quis ler. Horas depois, Cecilia ligou: Janete tinha gostado, mas queria ver como eu me sairia contando uma história dela. Mandou um resumo para que eu desenvolvesse. Ela aprovou, mas veio o teste mais difícil: precisava saber se haveria afinidade entre nós. Fui com o coração na mão. E a conexão foi instantânea.
Gloria Perez diz que o maior ensinamento que recebeu de Janete Clair é “não sabotar a imaginação, nem ter medo de tocar nas emoções mais fortes”. Mauro Ferreira, autor de “Nossa Senhora das Oito”, atesta que se ela precisasse sacrificar coerência por causa da emoção, o fazia sem dó.
Naquele momento em que assistir a novelas era uma experiência única, sem concorrência de outras telas e formatos, essa predileção pela emoção e pela simplicidade a ajudou a conquistar o posto de autora a mais popular da história da TV brasileira. O velório dela, no Theatro Municipal do Rio, durou 16 horas com filas ininterruptas no foyer e no saguão, dizia a capa do GLOBO em 18 de novembro de 1983, dia seguinte à morte.
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“Meus personagens são expressões do cotidiano. Não vivi sempre tendo casa de campo e motorista particular. Já andei muito de ônibus e trem”, disse ela em 1981 ao GLOBO, dois anos antes de esses tipos cotidianos lotarem sua despedida.
Mas a crítica especializada nem sempre anda de mãos dadas com o público. A mineira foi, por diversas vezes, reprovada justamente por colocar a emoção à frente da razão num cenário em que seus “concorrentes” eram o marido, Dias Gomes, e Lauro César Muniz, autores ícones do realismo social, com obras como “Roque Santeiro” e “Escalada”, respectivamente. Seu filho Alfredo Dias Gomes diz que a mãe ficava, sim, ressentida e relembra como a Censura dos governos militares caíram pesadamente sobre obras dela. Um exemplo é “Fogo sobre terra”, de 1974, que mostra dois irmãos em conflito não só pelo amor de uma mulher, mas também por causa da construção de uma hidrelétrica que vai destruir um povoado do Mato Grosso. O impacto ambiental da trama não era um tema bem-vindo pela política desenvolvimentista dos militares.
—Meu pai acabou sendo mais conhecido por isso, mas minha mãe também fazia críticas sociais e sofreu com a Censura — diz Alfredo. — Ela costumava dizer que escrevia uma novela e o que ia ao ar era outra.
Os capítulos das obras de Janete também eram retalhados por causa dos costumes. Em “Selva de pedra”, os censores cismaram que Cristiano (Francisco Cuoco) não poderia se casar com Fernanda (Dina Sfat) porque Simone (Regina Duarte) estava viva e ele seria bígamo. Acontece que, na trama, Cristiano não sabia desse fato — ele realmente acreditava que era viúvo e só o público tinha noção do que realmente acontecera.
—Ela teve que reinventar a novela de uma noite para outra — diz Mauro. — Era mágica.
Não foi só “Selva de pedra” ou “Fogo sobre terra” que desagradaram os militares. Janete foi amolada até seu último trabalho no horário das 20h, “Sétimo sentido”, exibido em 182. Na edição do GLOBO de 3 de outubro, às vésperas do fim da trama, centrada na dupla identidade de Luana, que incorporava a espírito de Priscila, a autora desabafou sobre sobre o cerceamento. “Fui muito prejudicada pela Censura, que cortou cenas de amor entre Rudy (Carlos Alberto Ricelli) e Luana (Regina Duarte). Nesta época, assustei-me um pouco. Mas depois que fui até Brasília para conversar e resolver o problema, a novela manteve seu alto pique de audiência.”
