Nesta quarta-feira (23), às 9h30, em cerimônia no Teatro Carlos Gomes, a prefeita de Estrasburgo, Jeanne Barseghian, passa o bastão de Capital Mundial do Livro ao Rio de Janeiro. Detentora do título em 2024, a cidade francesa teve um ano intenso em torno do livro e da leitura, promovendo mais de 1.500 atividades que envolveram 30 editoras locais, 60 bibliotecas, diversas livrarias e grupos tão diversos quanto centros de saúde, presídios e clubes esportivos.
Desde 2001 a Unesco nomeia uma capital do livro por ano. A honra é concedida agora ao Rio, que se prepara para eventos como Bienal do Livro, Book Parade Rio e Noite com Livros, entre outros. Em sua passagem pela cidade, Barseghian conversou com o GLOBO sobre a experiência de Estrasburgo e detalhou as políticas públicas pensadas para ampliar o mapa da leitura de sua cidade.
Com que espírito Estrasburgo assumiu o título de Capital do Livro no ano passado?
Era natural para Estrasburgo se candidatar, assim como é para o Rio, creio, pois é uma cidade que ama os livros e a leitura, com uma longa história ligada a isso. Muitos autores e ilustradores famosos viveram em Estrasburgo, como Goethe e Gustave Doré. Foi em sua passagem pela cidade, no século XV, que Gutenberg desenvolveu a imprensa. Nós já tínhamos muitos eventos anuais ligados à leitura, mas o objetivo era usar esse novo título para ampliar o acesso ao livro e à leitura para todos. Para nós, era importante não permanecer apenas no círculo das pessoas que já leem e frequentam ambientes de leitura.
Como vocês colocaram em prática essa ampliação?
Organizamos eventos com associações de bairro, centros socioculturais, clubes esportivos, entre outros. Iniciamos com um plano de 450 ações e atividades e, no fim, chegamos a mais de 1.500, com cerca de 450 parceiros. Não foi algo que se limitou ao mundo da cultura. Toda a cidade se envolveu: desde os trens decorados até uma instalação artística próxima à catedral chamada Page Blanche (página branca), que atraiu cerca de 200 mil visitantes.
Que outros grupos sociais participaram das ações?
Além de espaços tradicionais como escolas e bibliotecas, conseguimos envolver prisões, centros médico-sociais e clubes esportivos. O clube de futebol Racing Club de Strasbourg, por exemplo, promoveu uma ação em que seus jogadores falavam sobre seus livros favoritos, incluindo jogadores-autores que escreveram seus próprios livros.
Como a cidade envolveu a cadeia do livro, como editoras e livrarias, nas ações?
Trabalhamos com 30 editoras locais e quase 60 bibliotecas, além de várias livrarias independentes. Durante o mercado de Natal, por exemplo, montamos um chalé especial para destacar editoras locais. A cidade comprou 19 mil livros, que foram distribuídos nas escolas e bibliotecas, todos adquiridos em livrarias locais. Também encomendamos obras, textos e até uma nova tipografia chamada Azimut, que pode ser usada gratuitamente por qualquer pessoa.
A cadeia do setor ficou satisfeita com o retorno econômico?
Recebemos queixas, ainda que esporádicas, por parte dos livreiros. O setor tinha uma expectativa muito alta de retorno econômico. Mas, mesmo com algumas atividades bem concretas, como as compras de livros que mencionei, eles não tiveram o retorno esperado. Creio que é mais um reflexo da preocupação do setor, que está enfrentando dificuldades atualmente na França. Por outro lado, é preciso gerar um movimento mais amplo (de promoção à leitura), e, talvez, se não tivéssemos vivido esse ano excepcional como Capital do Livro, os resultados dos livreiros tivessem sido ainda mais baixos. Pesquisas na França mostram que os índices de leitura estão diminuindo por conta da concorrência com as telas.
Como essa concorrência com as telas foi abordada nas atividades?
Não nos posicionamos necessariamente em competição com as telas. Mostramos que o livro pode existir em todos seus formatos. Pode ser o audiolivro ou o livro em formato digital. Criamos iniciativas cem que booktokers recomendavam livros e escreviam textos. Também houve eventos para bebês, como leituras em cruzeiros fluviais com os pais. No fim das contas, a ideia era mostrar que, independentemente do tipo ou do formato do livro, o mais importante é despertar desde a mais tenra idade esse gosto pelo livro, seja qual for sua forma, seu formato.
Após um ano de atividades, já é possível medir efeitos nos índices de leitura?
Dá para ver que houve um impacto, porque, em particular, nossas mediatecas tiveram uma ampliação de frequência 17% maior, graças, eu diria, a essa dinâmica presente na cidade. Mas ainda é cedo para tirar conclusões. Outras cidades disseram que os efeitos aparecem após alguns anos. Com certeza, plantamos sementes.
Há projetos em comum entre Estrasburgo e o Rio de Janeiro?
Sim, ambos compartilham a vontade de alcançar públicos distantes do livro. No caso de Estrasburgo, mais da metade das ações ocorreram fora do centro, em bairros com maior vulnerabilidade social. Sabemos que no Rio também há projetos semelhantes, como o Festival do Livro das Periferias, e estamos curiosos para conhecer mais.

