Fabricantes chineses estão invadindo o TikTok e outros aplicativos de mídia social com apelos diretos aos consumidores americanos, incentivando as pessoas a comprarem itens de luxo diretamente de suas fábricas. E, em meio às ameaças de tarifas altíssimas sobre as exportações chinesas, os americanos parecem estar totalmente a favor.
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O argumento nos vídeos é que as pessoas podem comprar leggings e bolsas exatamente como as de marcas como Lululemon, Hermès e Birkenstock, mas por uma fração do preço. Muitas vezes, alegam — de forma falsa — que os produtos são feitos nas mesmas fábricas que produzem para essas marcas.
Os influenciadores americanos adotaram os vídeos, promovendo as fábricas e impulsionando os downloads de aplicativos de compras chineses, como o DHGate e o Taobao, como uma forma de economizar dinheiro se o preço dos produtos disparar com as tarifas do presidente Donald Trump sobre as importações chinesas.
O DHGate estava entre os 10 aplicativos mais baixados nas lojas de aplicativos da Apple e do Google na semana passada.
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Os vídeos estão crescendo em popularidade no TikTok e Instagram, acumulando milhões de visualizações e milhares de curtidas. Muitas postagens também parecem ter gerado simpatia dos americanos pela China, com comentários como “Trump atacou o país errado” e “A China venceu essa guerra”.
Os vídeos oferecem uma rara oportunidade para donos de fábricas e trabalhadores chineses falarem diretamente com consumidores dos EUA por meio de redes sociais, que são tecnicamente proibidas na China.
E sua popularidade nos EUA destaca um apoio cada vez mais expressivo à China nas redes sociais, semelhante ao clamor em torno da possível proibição do TikTok pelo governo federal.
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“Está politizando as pessoas de uma forma parecida com o que vimos quando iam cancelar o TikTok, mas agora no contexto de tarifas e da relação entre os dois países,” disse Matt Pearl, diretor especializado em tecnologia no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. “Isso demonstra a capacidade deles de se comunicar com os consumidores americanos para transmitir uma mensagem sobre nossa dependência de produtos chineses.”
Pearl sugeriu que o governo chinês pode estar permitindo a proliferação desses vídeos, já que geralmente desestimula seus cidadãos a publicarem conteúdos que infrinjam marcas registradas de países ocidentais.
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A Embaixada da China em Washington e o Consulado Chinês em Nova York não responderam aos pedidos de comentário.
O volume de vídeos no TikTok incentivando usuários a comprar produtos diretamente das fábricas chinesas aumentou quase 250% durante a semana de 13 de abril, segundo Margot Hardy, analista da Graphika, uma empresa de análise de redes sociais. No TikTok, a hashtag #ChineseFactory tinha 29.500 postagens em 23 de abril; no Instagram, 27.300.
Especialistas do varejo — e vendedores na China — dizem ser improvável que os vídeos mais virais, que alegam fabricar para marcas como Lululemon e Hermès, estejam vendendo produtos autênticos.
Essas fábricas geralmente assinam acordos de confidencialidade rigorosos e é improvável que arrisquem seus relacionamentos de longo prazo com grandes marcas em troca da venda direta de alguns produtos, disse Sucharita Kodali, analista de varejo da Forrester.
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Segundo ela, o governo chinês aparentemente está permitindo a difusão desses vídeos.
“Os interesses da Lululemon ou da Chanel na China provavelmente estão em 100º lugar na lista de prioridades do ministro do Comércio chinês neste momento,” disse Kodali. Os fabricantes também podem estar correndo para fechar vendas antes que novas tarifas, em 2 de maio, aumentem os custos de envio de encomendas da China, afirmou.
Ainda assim, as dúvidas sobre a autenticidade dos produtos não estão impedindo a demanda.
Elizabeth Henzie, de 23 anos, de Mooresville, Carolina do Norte, disse ter achado reveladores os custos de fabricação e preços de varejo descritos nos vídeos. Ela criou uma planilha com fábricas que dizem vender réplicas de tênis, bolsas de luxo e mais, e a vinculou em seu perfil no TikTok. Essa postagem já atraiu mais de 1 milhão de visualizações.
Henzie agora atua como parceira afiliada da DHGate, recebendo produtos gratuitos da empresa para vídeos de análise e comissão por vendas feitas por meio de seus links. Ela disse acreditar que as pessoas na China estão, em última instância, tentando ajudar os americanos.
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“Ver como outros países estão se unindo para tentar ajudar os consumidores americanos elevou meu ânimo,” disse Henzie. “Mesmo sendo algo negativo que está acontecendo na América, acho que também está nos incentivando a nos unir.”
O TikTok, que pertence à empresa chinesa ByteDance, tem removido alguns dos vídeos, citando uma política que proíbe a promoção de produtos falsificados. Mas muitos continuam circulando por meio de repostagens.
Até vídeos antigos sobre fabricação chinesa estão se espalhando pelos feeds personalizados, impulsionados pelo grande interesse nas tarifas. O TikTok se recusou a comentar mais sobre o assunto, e o Instagram, que pertence à Meta, também não quis comentar.
Vendedores na China dizem que começaram a postar os vídeos quando as vendas caíram. Yu Qiule, de 36 anos, coproprietário de uma fábrica na província de Shandong, no leste da China, que fabrica equipamentos de ginástica, disse que começou a postar no TikTok em meados de março para encontrar mais clientes após os cancelamentos de pedidos causados pelas tarifas.
Louis Lv, gerente geral de exportação da Hongye Jewelry Factory em Yiwu, na província de Zhejiang, disse que sua empresa começou a postar no TikTok no final de 2024, motivada pela queda nas vendas internas.
Mas ele viu as visualizações de seus vídeos dispararem desde que o governo Trump anunciou as tarifas. “A filosofia dos empresários chineses é: vamos onde está o negócio,” disse ele em entrevista.
Vale tudo na hora de tentar driblar as tarifas de Trump. Até propostas não muito lícitas. Comerciantes on-line estão sendo inundados com ofertas suspeitas para ajudá-los a evitar o pagamento de taxas sobre produtos fabricados na China.
Empresas que vendem de tudo — desde roupas esportivas e móveis até itens de cuidados com a saúde domiciliar — foram abordadas por empresas estrangeiras de logística que oferecem falsificar o valor das remessas para reduzir as tarifas ou desviá-las por um país com tributos mais baixos que os da China, segundo pessoas entrevistadas pela Bloomberg.
As ofertas geralmente chegam pelas redes sociais. “Oferecemos a solução para você economizar dinheiro”, disse uma empresa, que então se ofereceu para ser a importadora de uma próxima remessa e declarar um valor inferior.
Empresas de logística sem escrúpulos há muito oferecem serviços para evasão de tarifas, mas comerciantes on-line afirmam que as propostas descaradas e não solicitadas aumentaram depois que o presidente Donald Trump impôs tarifas. Essas propostas persistiram mesmo com as frequentes mudanças de postura do presidente.
Os vendedores on-line entrevistados disseram ter recusado a participação, mas estão preocupados que o choque e o desespero provocados pela guerra comercial de Trump levem concorrentes a tentar burlar o sistema.
Aaron Rubin, que vende artigos de artes marciais pela internet, disse que recebeu uma proposta de uma empresa de transporte para importar uma de suas remessas da China. A empresa ofereceu-se para apresentar documentos à alfândega indicando que a remessa valia US$ 10.000, embora a mercadoria estivesse avaliada em cerca de US$ 30.000, segundo Rubin, que compartilhou capturas de tela das mensagens com a Bloomberg. A subvalorização reduziria os encargos em cerca de US$ 29.000.
Rubin disse que recusou a oferta e denunciou a empresa às autoridades alfandegárias. Ele está preocupado que empresas sediadas em outros países, com operações fictícias nos EUA, ofereçam serviços para burlar tarifas e fiquem fora do alcance da aplicação da lei americana.
“Se as pessoas começarem a economizar US$ 10.000 em tarifas por contêiner, isso rapidamente soma bilhões”, disse Rubin, que também é fundador da empresa de software logístico ShipHero. “Há empresas oferecendo esse serviço.”
Um agente de transporte sediado na China que oferece esses serviços afirmou que a maioria de seus clientes opta por enviar as mercadorias chinesas por meio da Malásia, alegando que foram fabricadas lá, onde as tarifas são de apenas 24%, em comparação com 145% para a China.
No entanto, outros simplesmente adiam os envios na esperança de que Trump reduza as tarifas, afirmou a fonte, que falou sob condição de anonimato para evitar atrair atenção para sua empresa.
O Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA cobra tarifas com base na documentação apresentada por importadores e empresas de transporte. Os formulários descrevem o conteúdo da remessa, o local de fabricação dos itens, seu valor e os encargos estimados.
Deliberadamente subvalorizar remessas ou mentir sobre sua origem para reduzir tarifas é ilegal, e os infratores podem estar sujeitos a sanções criminais e civis.

