“Encontrem o seu lado risível, tudo o que é nosso é bom”. A frase é um lema de quem entende de gargalhar: a palhaça profissional Karla Concá. Ela é integrante do grupo As Marias da Graça, formado só por mulheres que expõem no palco o melhor e o pior de sua personalidade e de cada fase da vida com o objetivo de normalizar o que pode ser visto como incômodo ou doloroso. “Não é rir do outro, é rir com o outro”, frisa Karla.
- Imposto de renda: Universidades da Barra oferecem atendimento gratuito a quem tem dúvidas
- O samba abre alas para o circo: Após perder a lona em tempestade, projeto Crescer e Viver reabre na quadra da Estácio
Para comemorar o aniversário de 34 anos do grupo, completados em 2025, uma remontagem do espetáculo “Um musical de palhaças — Cada um no seu quadril” está em cartaz na Cidade das Artes, em curta temporada, até 4 de maio, o próximo domingo. Na peça, que tem direção da coreógrafa e bailarina Sueli Guerra, Karla e as também palhaças Samantha Anciães e Geni Viegas mesclam dança, canto e a linguagem da palhaçaria com a intenção de, ao fazerem rir, também conseguirem libertar.
Misturando comicidade e singeleza, as palhaças encenam o que acontece nos bastidores de uma audição para um musical. Esquecer o texto, entrar no palco na hora errada, sentir dor de barriga, lidar com a impaciência do auditor e decorar a cena na coxia em voz alta estão entre as situações apresentadas pelo trio, com o recorte de gênero característico das Marias da Graça, trazendo à luz questões de identidade, representação e visibilidade:
— Eu espero que as pessoas se divirtam muito. O elenco está com mais de 50 anos e, ainda assim, dança durante a apresentação, mostrando que são corpos que sim, envelhecem, e não têm tanta agilidade como os mais novos, mas se divertem, pulsam e estão vivos. É legal ter mulheres na plateia que se enxerguem na gente — afirma Karla.
O que não nos contam sobre a palhaçaria, garante ela, é que nesta arte não existem personagens. A prática cômica consiste em colocar em cena a essência dos artistas e suas vulnerabilidades de forma exagerada.
Assim, “Um musical de palhaças — Cada um no seu quadril” revela um pouco das personalidades das três atrizes. Samantha descortina o seu medo de errar e o desejo constante de ser vista e aceita, Karla revela no palco o seu mau humor, a falta de paciência e o fácil apavoramento com pessoas e notícias e Geni expõe de forma cômica a sua compulsividade oral.
— A palhaçaria é um tremendo alívio, liberdade e ato de coragem, pois nos expomos o tempo todo. Quem está ali leva tudo o que tem, dores e essência — diz Samantha.
— No palco, amplio a minha própria verdade, levando para um lado mais caricatural e exagerado, e forço a plateia a rir disso — conta Geni. — Uso minha experiência real.
— Sempre falo que quando alguém ri da gente está se aceitando. É nosso papel mostrar que está tudo bem em ser como se é; a sua graça está na sua desgraça. A mulher que gargalha libera a garganta de muita gente.
“Um musical de palhaças — Cada um no seu quadril” não é um espetáculo para crianças, avisam as Marias da Graça. É para o público adulto, principalmente as mulheres.
—Esse espetáculo não é infantil, até porque tem textos muito fortes: a gente faz um trecho do ( filme musical) “Chicago”, e as palhaças matam os maridos — diz Karla. — Como as mulheres têm mais atenção na nossa dramaturgia, claro que se identificam muito com as coisas que são faladas. Mas os homens se divertem também. E os gays amam!
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/M/M/WlrXx5TgWjcv5Ks3dL9w/whatsapp-image-2025-04-24-at-14.48.55.jpeg)
A opção por um trabalho focado no feminino, num território predominantemente masculino, como os dos palhaços, dizem as atrizes, veio naturalmente. Quando o grupo foi formado, nos anos 1990, contam, palhaça era coisa rara no Brasil, e, mesmo assim, só no picadeiro dos circos.
— Lá nos anos 1980, esse tipo de palhaçaria contemporânea, feita por mulheres, veio da suíça Gardi Hutter, que sentiu necessidade de usar uma dramaturgia autobiográfica, e não a tradicional, de circo. Assim, nasce a palhaça do teatro. No Brasil, começou nos anos 1990, com As Marias da Graça, quando também fugimos do padrão de dramaturgia de palhaçaria de circo, de esquetes. Começamos com o espetáculo “Tem areia no maiô”. E tínhamos duas grávidas, enquanto muitos diziam que mulher não podia ser palhaça.
- De roda-gigante a ‘escape rooms’: Bienal do Livro Rio 2025 quer ser um parque de diversões literário; veja as novidades
Décadas depois, elas dizem ainda conviver com preconceito e precisar lutar por seu espaço entre os profissionais que provocam o riso. Karla conta que até o fato de usarem o clássico nariz de palhaço incomoda:
—“Vocês não precisam desses narizes”, os homens falam para a gente. Mas hoje o nariz é para incomodar mesmo, ainda mais nesta época em que tudo é harmonização facial. Colocamos o nariz para a desarmonização.
Tomando para si a função social de dar espaço e estimular palhaças no Brasil e no mundo afora, As Marias da Graça promovem, desde 2005, o festival internacional de comicidade feminina “Esse Monte de Mulher Palhaça”, que em setembro terá sua décima edição. Para Karla, o riso da mulher, palhaça ou não, é também um ato político:
— Quem gargalha mesmo são as bruxas dos desenhos animados ou as mulheres de cabaré, a serviço de um homem. Nosso riso está colocado nestes dois lugares. A princesa, por exemplo, não gargalha, apenas ri baixinho, colocando a mão na boca. Com o festival somente para mulheres, fizemos com os homens o que eles fizeram conosco a vida inteira: nós os excluímos.
Na Cidade das Artes, “Um musical de palhaças — Cada um no seu quadril” tem apresentações aos sábados, às 19h, e aos domingos, às 18h, com ingresso a R$ 30. O próximo projeto das Marias da Graça será um espetáculo sobre a menopausa, temática que tem atravessado o grupo.
— Minha missão em cima do palco tem que ter o que dizer do meu universo — sentencia Samantha.

