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Mais do que uma vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE), a articulação que tirou o vice-governador do Rio, Thiago Pampolha (MDB), do caminho da candidatura do deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil) a governador, também envolveu a entrega de “porteira fechada” da Companhia de Água e Esgoto do Rio de Janeiro (Cedae) e a promessa de financiamento de campanhas de outros familiares do jovem emedebista na eleição do ano que vem.
Foi prometido a Philipe Campello, atual superintendente da Vice-governadoria, a presidência da estatal. Outro nome colado a Pampolha, o coronel do Corpo de Bombeiros Leandro Monteiro também vai ganhar uma diretoria na Cedae. Mas afinal, o que significa comandar a Cedae hoje, mesmo depois da concessão do saneamento feita pelo governador Cláudio Castro em 2021?
A empresa, que segue responsável pela captação e tratamento da água no estado, está no azul depois de anos no vermelho. As concessionárias ainda têm que comprar água do estado para distribuir à população e, no primeiro semestre do ano passado, a Cedae teve lucro de R$ 443 milhões, 332% acima do mesmo período do ano anterior. Em breve, a empresa divulgará o balanço completo do ano de 2024 com superávit acima de R$ 1 bilhão.
No comando da estatal, o grupo político de Pampolha poderá nomear dezenas de cargos por fora do Diário Oficial. Além disso, também vai cuidar do setor jurídico da estatal, responsável por contratos milionários com escritórios de advocacia. Durante o governo Wilson Witzel, uma nota do colunista Ancelmo Gois deu a dimensão do tamanho do setor. “A Cedae oficializou a renovação dos contratos com quatro escritórios de advocacia. Vai gastar, veja só, R$ 12,6 milhões de reais pelos próximos 12 meses. Dá a média de R$ 1,052 milhão, por mês, somente com advogados para defendê-la”, escreveu.
Em entrevista para a newsletter no fim de março, o vice-governador havia negado aceitar qualquer negociação e deixou claro que não arredaria o pé da condição de candidato à sucessão de Cláudio Castro: “Achavam que eu seria um vice decorativo”, disse.
Nas semanas seguintes, contudo, Pampolha sucumbiu ao protagonismo do pai, o empresário Domingos Gonçalves dos Santos, que passou ele próprio a articular a saída do filho do jogo eleitoral.
Domingos, de 63 anos, é um personagem muito maior na cena política e empresarial do Rio que o herdeiro, de 38. Em 2023, o patriarca declarou ser sócio de 21 postos de gasolina e patrimônio de R$ 18.425.519,73. Os dados estão públicos em processos administrativos de recadastramento ou abertura de novos postos no Sistema Eletrônico de Informações (SEI) do governo do estado. Já Pampolha, na declaração de bens entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2022, informou ter apenas três postos de gasolina e patrimônio de R$ 416.455,10.
Domingos passou a aderir à agenda Bacellar em meio a um fato que chamou a atenção da classe política do Rio: uma operação de fiscalização de postos de gasolina feita pelo governo do estado logo depois da entrevista de Pampolha para a newsletter. Embora não tenha sido alvo dessa ação, a família já foi investigada pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA) em 2020. Na ocasião, nove estabelecimentos dos Pampolha foram autuados por irregularidades como falta de licenças ambientais ou desrespeito a normas de lançamento de efluentes líquidos com água e óleos.
Na negociação com Bacellar, que também teve a participação do ex-governador Sérgio Cabral, atualmente consultor do parlamentar, Domingos também arrancou o compromisso de ajuda financeira para dois outros membros da família que poderão se candidatar em 2026. Tanto a irmã (dona de postos de gasolina) quanto o marido de uma prima (proprietário de uma hamburgueria) de Pampolha manifestaram interesse de concorrer a deputado federal ou estadual no ano que vem, com a saída do emedebista da vida partidária.
Procurado para falar sobre as negociações que envolveram a sua desistência de concorrer ao governo do Rio, Pampolha escreveu uma nota: “Não integro mais o governo do estado. Nomeações e indicações são de competência exclusiva do governador, não tenho qualquer participação ou influência nesse processo.”
O ex-vice governador participa nesta quinta-feira, às 17h, da cerimônia de posse como conselheiro do TCE.
- Saiba mais: Rodrigo Bacellar ganha mais poder e abre caminho para eleição a governador
No início do ano, o pastor Silas Malafaia defendia a candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para o Palácio do Planalto em 2026, mas o vento virou e nas últimas semanas ele passou a falar no nome de Michelle Bolsonaro para o cargo. “Todo mundo sabe da força que essa mulher tem. O Bolsonaro vai dar um xeque-mate de mestre: ‘Vocês não me querem? Então engulam a minha mulher’. Aí eu quero ver quem vai se candidatar pela direita”, escreveu no X, há duas semanas, ao reagir às movimentações do ex-presidente Michel Temer para construir uma candidatura de oposição a Lula entre os governadores de direita.
Malafaia também implica com uma possível candidatura de Eduardo Bolsonaro para o Planalto, outra hipótese cogitada para o próximo ano. E já disse isso para o ex-presidente naquela viagem que ambos fizeram para Angra dos Reis, em março, com direito a foto de passeio de jet ski. Para o pastor, Eduardo teria dificuldades de ser competitivo eleitoralmente contra Lula, mesmo no caso do petista seguir com rejeição alta.
• Podcast ‘Império Malafaia’
Por falar em Malafaia, vale a dica: ouçam o podcast produzido pelo ICL. Destaque para a narração bem humorada do jornalista Igor Mello bebendo do estilo “Medo e delírio”, a pesquisa sobre o passado do pastor (divertido saber que ele trabalhou na Elma Chips) e o principal: a apuração sobre os rendimentos do líder religioso. Ao acessar os documentos do regime de recuperação judicial da Central Gospel, empresa de Malafaia, a equipe de reportagem conseguiu dados do Imposto de Renda e descobriu que ele recebeu quase R$ 1 milhão da sua própria igreja.
No episódio dois, mais revelações sobre o uso do patrimônio da igreja em benefício próprio. No caso, o jatinho e carros do líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. No capítulo, mais números inéditos da associação responsável pela denominação: R$ 96 milhões de doações em apenas um ano. Esses valores estão citados em investigações da Receita Federal iniciadas no governo Dilma Rousseff. Malafaia chama as apurações de “perseguição política do PT”.
• Livro ‘A bancada da Bíblia’
Um belo livro-reportagem sobre a trajetória da bancada evangélica no Brasil com pesquisa refinada, apuração de fôlego e boas entrevistas. Escrito pelo colega André Ítalo Rocha, traz curiosidades sobre os mais importantes nomes do Legislativo. Lendo, você descobre que Marco Feliciano, hoje no PL, foi viciado em cocaína. Que a petista Benedita da Silva já abortou. E que Marcos Pereira, presidente do Republicanos e homem forte do bispo Edir Macedo, tentou o suicídio quando jovem.
A obra elenca momentos históricos para o crescimento da relevância dos evangélicos na política. 1) As candidaturas avulsas de evangélicos nos anos 60, como a do pastor Levy Tavares, ligado à igreja Brasil para Cristo. 2) A formação da bancada na Constituinte, a presença nos debates sobre costumes e a distribuição de concessões de rádio e TV para aprovar o mandato maior para o então presidente José Sarney. 3) A entrada da Universal na política e o protagonismo do bispo Carlos Rodrigues nos anos 90, que tornou-se um operador político capaz de transcender as agendas das igrejas. 4) O apoio ao governo Lula e o posterior rompimento paulatino com Dilma Rousseff nos anos 2000, que veio a culminar com o apoio a Jair Bolsonaro para presidente em 2018.

