Após as recentes postagens do presidente americano Donald Trump em sua rede social engrossando a voz, de forma inédita, contra seu homólogo russo (“Vladimir, pare!”, “(você) está completamente louco”), o historiador Phillips O’Brien, observador atento da guerra iniciada há pouco mais de três anos após a invasão da Ucrânia por Moscou, cunhou neologismo para traduzir a estratégia da atual Casa Branca no conflito, desde a melancólica saída de cena de Joe Biden: gaslighting geopolítico.
O especialista em conflitos bélicos recorreu, para o batismo inusitado, ao termo psicológico de anulação do outro através de manipulação, com o objetivo de que a vítima duvide do que vê afim de se tirar alguma vantagem dela. “E os europeus estão sendo manipulados por Trump a questionar sua própria percepção da realidade. Ainda vivem em estado de terror catatônico frente a um tabuleiro geopolítico que não conta mais com o Grande Irmão americano para protegê-los”, afirmou O’Brien ao GLOBO.
Para o professor de estudos estratégicos da Universidade de St.Andrews, na Escócia, assiste-se “à maior manipulação geopolítica da era contemporânea”, que começou logo após a posse de Trump, quando ele mencionou pela primeira vez a possibilidade de penalização da Rússia caso não se engajasse de fato em negociações sobre um cessar-fogo, sem resultado prático algum além de paralisar União Europeia, Reino Unido e Ucrânia. E que terá novo capítulo mês que vem, na Cúpula da Otan, nos próximos dias 25 e 26 de junho, em Haia, na Holanda, “quando os EUA devem afirmar que a aliança segue firme e forte, mas sem ir além do blá-blá-blá e renovar de forma clara o compromisso com a segurança dos aliados na Europa em guerra”.
Radicado no Reino Unido, o historiador americano publicou no ano passado “Os estrategistas” (em tradução livre), em que explora o impacto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) nas táticas abraçadas pelos mais consequentes líderes do conflito global que a seguiu (1939-1945). Seu mais novo livro, “Guerra e poder: quem vence os conflitos armados, e de que maneira”, será lançado em agosto nos dois lados do Atlântico Norte. Trata-se de análise meticulosa sobre o que torna uma potência de fato temida, da França napoleônica aos dias de hoje. Para além da pujança numérica de suas forças armadas, como as de EUA, China e Rússia, argumenta, é cada vez mais crucial o desenvolvimento de logísticas pensadas para manter de forma mais eficaz forças cada vez menos convencionais nos teatros de guerra contemporâneos.
Os principais trechos da conversa de O’Brien com o blog Trump 2.0 seguem abaixo:
De que forma o gaslighting geopolítico da Europa, que inclui a ameaça de sanções mais pesadas à Rússia jamais aplicadas, beneficia Trump?
Garante a manutenção da influência política dos EUA sobre a Europa, ao parecer que Washington está de fato comprometida com o fim da guerra. Trump dá esperanças aos europeus de que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ainda é viável, de que Washington ainda é um parceiro total na defesa do continente, enquanto atrasa reação mais substancial da União Europeia e do Reino Unido contra Putin.
O senhor destacou como símbolo da manipulação a foto, feita há duas semanas, que mostra os principais líderes do Velho Continente ao lado do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ladeados em um sofá, ouvindo atentos Trump falar sobre a aplicação de mais sanções a Moscou se Putin não concordasse com um cessar-fogo em até dois dias. Os bombardeios seguem, a Rússia não foi penalizada e, em suas palavras, a conversa com Trump foi “humilhante e contraproducente” para a Europa…
Sim. Aquela foto alimenta o ego de Trump da pior maneira possível. A Europa ainda está em estado de terror catatônico frente à nova realidade que não conta com o Grande Irmão americano para protegê-la. Todos os líderes no poder hoje no Velho Continente, sem exceção, formaram-se politicamente certos do garantismo de Washington, que, na prática, oferecia uma força de defesa extra. Jamais imaginaram ser possível a realidade sob Trump. Preferem seguir como na campanha eleitoral americana no ano passado, quando o republicano foi claro sobre sua política externa: se apegar à esperança, o combustível do gaslighting geopolítico de Trump, em vez de encarar a realidade.
Mas, nesta mesma quarta-feira em que conversamos, o recém-empossado chanceler alemão, o conservador Friedrich Merz, anunciou, em visita a Kiev, que ajudará o país a desenvolver novas armas de longo alcance capazes de atingir alvos em território russo, no que qualificou como o início de uma “nova forma, com enorme potencial, de cooperação militar-industrial”. Até que ponto Berlim pode funcionar para a Ucrânia como um substituto de Washington contra o avanço russo?
Pode ser que estamos começando a ver os europeus acordando do gaslighting de Trump, embora muito mais lentamente do que eu gostaria. Ainda é muito cedo para cravar mudança tão radical no tabuleiro geopolítico, precisamos ser cuidadosos, mas Merz se posiciona sensivelmente de forma mais contundente do que seu antecessor (o social-democrata Olaf Scholz, que comandou a Alemanha nos últimos quatro anos). Neste momento, ele tenta trabalhar com Trump ao mesmo tempo em que se mostra mais cético sobre o comprometimento americano. Mas a resposta à sua pergunta só virá, na prática, de mais números oferecidos por Berlim: até que ponto Merz está disposto a mobilizar forças e recursos financeiros alemães para ajudar Kiev? O discurso é bom, mas é preciso aguardar a dimensão de ações concretas do chanceler.
Mas mesmo que Merz supere a oposição interna, inclusive dentro de sua própria coalizão, e aumente exponencialmente o apoio alemão ao esforço de guerra ucraniano, será suficiente para Kiev?
A Alemanha, sozinha, dificilmente conseguirá fazer frente aos russos, mas se Berlim liderar um esforço continental, sim. A Europa faz hoje, de fato, como critica a Casa Branca, muito menos do que poderia no caso da Ucrânia. Juntos, os europeus são muito mais ricos, muito mais avançados tecnologicamente e muito mais capazes militarmente do que a Rússia. Faria sim uma diferença brutal para a Ucrânia neste momento. Mas, até o momento, isso não aconteceu, e muito pelos europeus acreditarem que cabe aos EUA esse papel. Outro aspecto, aliás, pelo qual o gaslighting de Trump funciona tão bem. Enquanto isso, a Ucrânia só pode esperar e tentar, em meio a um dos piores exemplos de guerra, como esta, que já dura mais de três anos sem sinal de término, causar o máximo de perdas possíveis aos russos.
O quão consequente para a guerra pode ser a próxima Cúpula da Otan, que acontece em Haia, na Holanda, nos próximos dias 24 e 25 de junho?
A discussão, do ponto de vista dos europeus, será, mais ou menos abertamente, em torno de se as garantias históricas de proteção militar dos EUA ainda são confiáveis. A resposta realista, no Trump 2.0, é um óbvio não. Mas o gaslighting continuará. O discurso oficial será o de que a aliança segue unida e forte, mas, para além do blá-blá-blá, duvido que um compromisso real seja renovado.
Logo após as postagens irritadas de Trump endereçadas a Putin, a Rússia reagiu afirmando que o presidente americano sofre de “comprometimento emocional” e seguiu bombardeando a Ucrânia. Como o Kremlin enxerga o Trump 2.0?
A reação do Kremlin é, no mínimo, curiosa. Não retribui com algum aceno às posições pró-Putin de Trump. Ao contrário, dificulta sua estratégia, com mais e imediatos bombardeios e a recusa de se tratar de um cessar-fogo em termos razoáveis Uma leitura possível, ainda que arriscada, dos russos, é a de que Trump age por interesse quase exclusivamente financeiro e que evitará ao máximo uma maior mobilização europeia, de olho em negócios futuros, com uma Rússia livre de sanções e aberta aos EUA.
Trump repete ter uma “relação próxima” com Putin. Vê algum cenário em que os EUA voltem a agir decisivamente no conflito sem favorecer Moscou?
Trump prefere tratar com autocratas, como Putin. Os vê como homens fortes e não tem o mesmo apreço, com raras exceções, por líderes que professam crença na democracia. Ele também não parece mais se importar muito com cálculos eleitorais futuros. Não poderá ser reeleito, então faz o que quer e como quer. A única saída seria mais pressão política da própria coalizão governista, que, ainda que timidamente, o fez disparar as postagens irritadas contra Putin. Mas, ainda assim, ele demorou o quanto pôde para fazer críticas. Se for forçado a impor mais sanções contra a Rússia, será por conta de algo ainda mais duro do que o cenário hoje. E ele só o fará após encontrar narrativa que.o beneficie, negando qualquer cavalo de pau.
Há algum espaço para a diplomacia brasileira ajudar no esforço de cessar-fogo na Ucrânia?
Não. Nenhum ator, além de EUA, Europa e China, tem essa capacidade hoje. A discussão política sobre se o presidente Lula deveria ter ido a Moscou no começo de maio (e presenciado o desfile militar em celebração à vitória na Segunda Guerra Mundial) é mais interna, do Brasil. Ucranianos e russos levam muito a sério esse tipo de simbolismo, mas a presença de líderes mundiais na parada não ultrapassa a sinalização de que Putin pode contar com interlocutores globais, mesmo após toda a destruição por ele causada na Ucrânia.
