Apontado como chefe do tráfico de drogas em diversas cidades da região Norte do Ceará, Anastácio Paiva Pereira, conhecido como Doze ou Paizão, é investigado por chefiar à distância, a partir do Rio, uma célula do Comando Vermelho (CV). Da Rocinha, na Zona Sul do Rio, o grupo atuava de forma estruturada, com divisão de tarefas e presença em vários municípios cearenses. Segundo peças de um inquérito do Tribunal de Justiça do Ceará, que o acusa por tráfico de drogas, associação para o tráfico e participação em organização criminosa armada, Doze contava com um “diretor”, uma “gerente” e utilizava um smartwatch para se comunicar com a facção.
Segundo um promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ceará, Doze é uma das principais lideranças do CV na região norte do Ceará e está ligado a diversos homicídios diretamente da Rocinha, no Rio:
— Ele é responsável por ordenar vários homicídios, essas determinações partem todas do Rio de Janeiro, onde ele está foragido. Essa parceria deles é justamente para poder proteger os fascinados cearenses de serem alcançados pelas investigações, uma vez que eles sabem da dificuldade que é subir até essas comunidades do Rio de Janeiro, para isso eles pagam um tipo de pedágio aos faccionados do CV do Rio — revelou o promotor.
O nome de Doze surgiu após uma operação para o cumprimento de mandados de prisão contra 29 chefes do tráfico do Ceará, que mobilizou os ministérios públicos e as secretarias de Segurança Pública do Rio de Janeiro e do Ceará, na Rocinha, na Zona Sul do Rio, no último sábado. Segundo o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, o crime organizado não é mais local, mas interestadual, o que justifica o trabalho conjunto.
No Rio, Doze vivia em uma mansão de luxo na localidade da Dionéia, no alto da Rocinha, na Zona Sul da cidade. O imóvel contava com duas piscinas aquecidas, cascata, área gourmet, academia com equipamentos novos e servia de esconderijo para membros da facção vindos do Ceará. Ali, o grupo teria continuado a comandar, à distância, ações criminosas no Nordeste, incluindo mais de mil homicídios em dois anos.
Conforme o promotor do Gaeco do Ceará, o grupo movimentava grandes quantias de dinheiro com a venda de armas e drogas, e utilizava smartwatches (relógios inteligentes) para se comunicar entre si, evitando o uso convencional do WhatsApp.
Apesar de ter cinco mandados de prisão em aberto por crimes de homicídio, organização criminosa e tráfico de drogas, ele segue foragido.
Segundo investigações que constam num inquérito do Tribunal de Justiça do Ceará, Doze já atuava como líder máximo da facção na cidade de Ipu, no Ceará, e em localidades vizinhas. Com apoio de nomes como Luiz Antônio da Costa Sampaio, o “XT”, e Maria Lucinda Oliveira Pinho, citados como “diretor” e “gerente” de Anastácio na estrutura do tráfico, ele montou uma estrutura que se estendia por municípios como Santa Quitéria, Hidrolândia, Varjota, Tamboril e Nova Russas.
— Mais de mil homicídios foram ordenados do Rio por criminosos do Ceará escondidos na Rocinha, nestes últimos dois anos. Se não houver uma parceria entre as instituições, não há como atuar contra as organizações criminosas com eficácia. Os criminosos do Comando Vermelho do Rio alugam moradias para os bandidos do CV do Ceará e ainda oferecem proteção, como se fosse um pacote de viagens — disse Campos Moreira, ressaltando que a operação foi monitorada em tempo real.
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A Secretaria de Estado de Polícia Militar empregou 400 policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e de outras unidades para garantir a ação, monitorada por drones e helicópteros que enviavam imagens para o Quartel-General da PM, no Centro. De lá, além dos promotores de Justiça e chefes das secretarias de segurança dos dois estados, o governador Cláudio Castro monitorava o trabalho policial, até o momento em que os criminosos fugiram para a mata, onde houve troca de tiros.
A investigação é resultado de um trabalho conjunto dos Grupos de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) dos dois estados. A ação foi deflagrada nas primeiras horas da manhã do sábado pela Coordenadoria de Segurança e Inteligência do Ministério Público do Rio (CSI/MPRJ), que mobilizou cerca de 80 agentes das tropas especializadas, com objetivo de cumprir 29 mandados de prisão e 14 de busca e apreensão.
— Os criminosos do Ceará são muito sanguinários. Os assassinatos são cometidos com requintes de crueldade. Essa prática está se alastrando para outros estados do Nordeste. As imagens, porque eles fazem questão de mostrar em redes sociais, são muito impactantes — disse o procurador-geral.
Após a movimentação dos policiais na comunidade, cerca de 400 criminosos fugiram para a mata da Rocinha, segundo informações obtidas pelo GLOBO. O BOPE disse estar monitorando a região. No início da operação, um policial militar foi baleado no pescoço. Ele foi levado para o Hospital Miguel Couto e está fora de perigo.
Durante a operação, foram apreendidos quatro fuzis, duas pistolas, um revólver, um fuzil de airsoft, munição e drogas ainda em fase de contabilização, segundo um boletim oficial divulgado no início da tarde. Um homem com mandado de prisão em aberto foi preso.

