As horas que antecederam a morte de um dos traficantes mais procurados do Rio foram regadas a uma mistura que incluiu doses de uísque, energético, e antidepressivos. Informações recebidas pela Polícia Civil revelam que Fhillip da Silva Gregório, o Professor, de 37 anos, chefe do comércio de drogas na Fazendinha, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, teria estado, entre a noite de sábado e a madrugada de domingo, em um baile realizado em um campo da comunidade. Lá, ingeriu bebida alcoólica, apesar de fazer uso de remédios controlados. Pela manhã, ele teria se deslocado para uma casa em uma área da favela, onde ainda sem dormir, já por volta das 21h, teria cometido suicídio.
- Vaidoso, recluso e controlador: quem era o traficante Professor, morto a tiro no Rio
- Pistolas croatas e fuzis turcos: como agia chefe do Alemão apontado pela PF como um dos principais compradores de armas do país
Professor era um dos integrantes do terceiro escalão da facção criminosa Comando Vermelho(CV). Com contatos em outros países da América do Sul, ele assumiu, nos últimos cinco anos, o fornecimento de armas para a tentativa de expansão do CV com a ocupação de territórios que eram da milícia, na Zona Oeste do Rio. Em troca da exclusividade no negócio das armas, recebeu da facção o posto de chefe da Fazendinha, área estratégica do Complexo do Alemão, onde instalou sua base operacional. Ultimamente, Fhillip lutava contra o sobrepeso, e segundo informações recebidas pela polícia, vinha tomando medicamentos para emagrecer. Vaidoso, ele já havia se submetido, anteriormente, à lipoaspiração, clareamento dentário e a um implante capilar. Durante uma investigação, agentes chegaram a encontrar fotos em que ele aparece deitado em uma maca fazendo o tratamento estético no couro cabeludo. Os procedimentos teriam ocorrido entre 2020 e 2022.
A morte de Fhillip da Silva Gregório, na noite de domingo, aconteceu na frente de uma testemunha, uma mulher com quem o traficante mantinha um relacionamento extraconjugal há quatro anos, e com quem tinha uma filha. Após ser ferido por um tiro de pistola que atingiu o lado direito do rosto, professor foi transportado por pessoas não identificadas em um carro branco para a Unidade de Ponto Atendimento de Del Castilho, na Zona Norte do Rio. Ele foi deixado em frente à unidade médica. Os médicos constataram que ele já estava morto.
- Do luxo na Rocinha ao comando de execuções no Ceará: quem é Doze, apontado como um dos chefes do CV cearense foragido no Rio
O traficante acumulava 65 anotações criminais. Da comunidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, segundo investigações da Polícia Federal (PF), ele coordenava a chegada de armamento vindo do Paraguai, Bolívia e Colômbia, com distribuição para outras favelas controladas pela facção. Em mensagens que integram um inquérito da PF, responsável por dar origem à Operação Dakovo, deflagrada em dezembro de 2023, que levou à denúncia de 28 pessoas por tráfico de 43 mil armas do Paraguai para facções brasileiras, Fhillip era apontado como o principal responsável pelas compras de armamento do CV.
Hábil em lidar com números, Fhillip teria começado no mundo do crime fazendo uma espécie de contabilidade do tráfico. Em 2012, acabou sendo preso carregando comprovantes de depósitos bancários com valores significativos feitos para traficantes da Favela Nova Brasília, uma das comunidades do Complexo do Alemão. Em sua casa, a polícia encontrou ainda anotações contábeis e nominais em cadernos.
- Investigação: professor, chefe do tráfico no Alemão, comandava rotas internacionais de armas e drogas, revela PF
Nos registros policiais, Fhillip passou a responder por lavagem de dinheiro e ocultação de bens. Após ser solto, voltou a ser preso, desta vez pela Polícia Federal, em 2015, por crime de tráfico internacional de drogas e armas. Na ocasião, ele foi encontrado em um sítio, no município de Seropédica, na Baixada Fluminense, com aproximadamente cem quilos de cocaína. Pouco depois, foi condenado a uma pena de 14 anos de prisão.
Em 2018, ele fugiu do sistema penitenciário, após ser beneficiado pela Justiça com o direito a uma saída temporária e não voltou mais. Desde então, estava foragido.
De acordo com dados do site do Conselho Nacional de Justiça(CNJ), Fhillip da Silva Gregório tinha em seu nome três mandados de prisão. Um deles era oriundo da Justiça Federal da Bahia após uma investigação o apontar como elo entre fornecedores sul-americanos e o CV. A apuração revelou movimentação de R$ 1,2 bilhão em três anos pela quadrilha da qual fazia parte.
