O candidato de centro-esquerda Lee Jae-myung, do Partido Democrático da Coreia do Sul, caminha para vencer as eleições presidenciais realizadas nesta terça-feira — um processo que visa encerrar a crise aberta pelo ex-presidente Yoon Suk-yeol, que decretou lei marcial e tentou fechar o Congresso no ano passado. Uma pesquisa boca de urna divulgada pelas três principais emissoras do país mostram Lee com 51,7% dos votos, em um pleito marcado pela maior participação em quase duas décadas, com cerca de 77,8% de comparecimento.
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A pesquisa divulgada pelos canais KBS, MBC e SBS após o fechamento das urnas às 20h (08h em Brasília), mostra Lee muito a frente do segundo colocado, o candidato conservador, Kim Moon-soo, com 39,3%. Após meses de turbulência e uma sucessão de líderes interinos sem força política, muitos sul-coreanos estavam ansiosos para que o país avançasse, com pesquisas nas semanas anteriores apontando uma vantagem ampla para Lee.
Na Assembleia Nacional, integrantes do Partido Democrático se reuniram em uma sala de situação, com fileiras de televisores acompanhando as pesquisas de boca de urna e a apuração dos votos. Gritos e aplausos foram ouvidos no local quando as pesquisas foram divulgadas, colocando Lee na primeira posição, com gritos de “Lee Jae-myung” ecoando imediatamente pela sala.
O próximo líder da Coreia do Sul assumirá o cargo quase imediatamente, assim que a Comissão Nacional de Eleições concluir a contagem dos votos e validar o resultado, o que deve ocorrer na madrugada de quarta-feira. O mandato presidencial no país é único, e tem duração de cinco anos.
Independente do ganhador, ele enfrentará uma série de desafios, incluindo oscilações do comércio global que afetam a economia orientada à exportação, uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo e uma Coreia do Norte fortalecida, expandindo rapidamente seu arsenal militar.
A eleição presidencial foi diretamente condicionada pela tentativa de declaração de lei marcial pelo ex-presidente no ano passado, segundo especialistas na política local. A tentativa de Yoon de concentrar poder e fechar o Congresso deixou o país praticamente sem liderança nos primeiros meses do conturbado segundo mandato do presidente dos EUA, Donald Trump.
— [A eleição foi] amplamente vista como um referendo sobre o governo anterior — disse Kang Joo-hyun, professora de ciência política da Universidade Feminina Sookmyung. — A crise da lei marcial e do impeachment não apenas influenciou os moderados, mas também fragmentou a base conservadora.
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A tentativa de impor a lei marcial, que envolveu o envio de soldados armados ao Parlamento, levou ao impeachment de Yoon, fazendo dele o segundo presidente conservador consecutivo a ser destituído, após Park Geun-hye, em 2017. Muitos eleitores disseram que ficaram chocados com a tentativa de suspender o governo civil.
— Foi algo que acontecia nos tempos antigos da ditadura em nosso país — disse Park Dong-shin, de 79 anos, acrescentando ter votado nesta terça no candidato que garantiria que os responsáveis fossem “devidamente responsabilizados”.
O candidato conservador Kim, ex-ministro do Trabalho de Yoon, não conseguiu convencer o candidato Lee Jun-seok, do Partido da Reforma, a unir forças para evitar a divisão dos votos de direita — embora, pelos números do boca de urna, nem a união tivesse sido suficiente para chegar ao resultado.
No dia da eleição, as ruas de Seul estavam tranquilas, com as pessoas aproveitando o bom tempo e o feriado nacional, mas a polícia emitiu o mais alto nível de alerta e mobilizou milhares de agentes para garantir que a eleição e a posse, marcada para quarta-feira, ocorram sem incidentes.
Lee, do Partido Democrático — que sobreviveu a uma tentativa de assassinato no ano passado — tem feito campanha usando colete à prova de balas e discursando atrás de uma barreira de vidro protetora.
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— Espero que o próximo presidente crie um ambiente de paz e união, em vez de guerra ideológica — disse o taxista Choi Sung-wook, de 68 anos, à AFP enquanto votava.
As estações de apuração começaram a funcionar assim que as urnas fecharam às 20h (horário local), com caixas de votos chegando ao Ginásio da Universidade Nacional de Seul, no distrito de Gwanak-gu. (Com AFP)

