Os dois atentados contra judeus nos EUA nas últimas duas semanas, com duas mortes e 15 feridos, assustaram a comunidade judaica no país, estimada em 7,2 milhões de pessoas, em estado de alerta desde a onda de protestos pacíficos nas ruas e nas universidades contra as ações militares de Israel na Faixa de Gaza, iniciada após os ataques do grupo terrorista Hamas, em outubro de 2023. E também lapidaram a crítica de acadêmicos e organizações de defesa dos direitos humanos sobre o que denunciam ser a manipulação, pela Casa Branca, do antissemitismo, com o objetivo de avançar políticas antiliberais.
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— Neste momento, mais do que nunca, é importante ter a clareza de que a extrema direita instrumentaliza o antissemitismo com objetivo político claro. E o faz de má-fé, posto que é historicamente antissemita. As universidades são seu alvo prioritário e travestem o assalto à difusão de conhecimento livre como combate aos ataques que de fato sofremos. Para nós, judeus, é um insulto sermos usados desta maneira — afirma ao GLOBO Lewis Gordon, diretor da Escola de Filosofia da Universidade de Connecticut.
Em 21 de maio, dois funcionários da Embaixada de Israel nos EUA foram mortos a tiros ao saírem do Museu Judaico, em Washington. A polícia informou que um americano do estado de Illinois afirmou ter cometido os crimes “por Gaza” e defendeu “trazer a guerra para os EUA, que fornece armas a Israel para o genocídio”. No domingo passado, de acordo com o FBI, um egípcio com visto vencido de turista atacou, com um lança-chamas improvisado, em Boulder, no Colorado, manifestantes que semanalmente pedem, no mesmo local, a libertação dos reféns israelenses detidos pelo Hamas.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, quase 55 mil palestinos, a maioria civis, foram mortos por ações israelenses desde outubro de 2023. Denúncias de limpeza étnica e proibição da entrada de alimentos no enclave se multiplicam. A ONU registra que 120 acadêmicos, 180 jornalistas e 224 profissionais de ajuda humanitária pereceram nos 21 meses de conflito no enclave. O governo de Benjamin Netanyahu, por sua vez, informa que 1.706 israelenses — quase 1.200, em sua maioria civis, no 7 de outubro — perderam suas vidas e que a vasta maioria dos palestinos morreu como escudo humano do Hamas.
Nos dois atentados nos EUA relacionados ao conflito, testemunhas contaram que os suspeitos gritaram “Palestina livre”. O governo americano classificou-os como atos de antissemitismo e de terrorismo.
Ted Deutch, CEO do American Jewish Comittee (AJC), enfatizou o desmoronamento da fronteira entre retórica e violência contra judeus nos EUA desde o início da guerra em Gaza. Em entrevista à CNN reproduzida nas redes sociais de diversos grupos de defesa de direitos humanos, o advogado e ex-deputado do Partido Democrata na Flórida afirma que “é legítimo e admirável defender os direitos dos palestinos, mas, quando os mesmos ativistas permanecem em silêncio diante da demonização dos judeus, tragicamente as comunidades judaicas ao redor do mundo pagam o preço”.
— Os horrores que Israel comete em Gaza, e que temos o dever moral de denunciar, de fato não oferecem carta-branca para atos violentos contra judeus. E os atentados recentes indicam sim perigosa escalada do antissemitismo anos EUA, e devemos criticar duramente quem tenta reduzi-los a ataques a Israel. Mas antissemitismo não tem lado e é igualmente perigoso para nós, judeus, fecharmos neste momento os olhos para a manipulação em curso pela direita — diz ao GLOBO o historiador israelense Arie Dubnov, diretor do Centro de Estudos de Israel da Universidade George Washington.
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O acadêmico lembra que o atentado mais letal contra judeus na História dos EUA se deu em 2018, quando um militante de extrema direita matou 11 pessoas e feriu outras seis. As vítimas frequentavam uma sinagoga na Pensilvânia engajada no auxílio humanitário a imigrantes recém-chegados da América Central.
Dubnov aponta como catalisadores da instrumentalização política do antissemitismo pela direita grupos conservadores, entre eles a Heritage Foundation, que ganhou notoriedade no ano passado pela elaboração do “Projeto 2025″, com indicações de governança ultraconservadoras, boa parte delas aplicadas pelo atual governo. O centro de estudos apresentou em outubro sua “estratégia nacional de combate ao antissemitismo”. A iniciativa propõe o “desmantelamento” de organizações “anti-israelenses”, da “rede de apoio ao Hamas”, “infiltrada” em universidades, “entre elas Columbia e Harvard”.
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Dentre as medidas defendidas estão a demissão de professores, bloqueio ao acesso de estudantes estrangeiros às universidades e de instituições aos recursos públicos. Todas presentes na cartilha que o presidente dos EUA busca impor desde janeiro.
Donald Trump sublinhou os dois atentados recentes ao anunciar decreto, em vigor a partir de amanhã, que restringe a entrada nos EUA de cidadãos de 19 países, em sua maioria com população majoritariamente muçulmana. Também voltou a afirmar que as universidades do país têm falhado em proteger os direitos civis de estudantes judeus.
Em fevereiro, uma das alegações de Washington para interromper parcerias de US$ 400 milhões com Columbia foi “prática de antissemitismo sem punição”. Além da proibição de acampamentos e da detenção e expulsão de estudantes, uma das medidas exigidas por Washington e acatadas pela instituição foi a remodelação de seu Instituto de Estudos do Oriente Médio.
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Harvard anunciou medidas para assegurar a segurança dos estudantes judeus e entrou em disputa legal contra a Presidência. O Executivo, como retaliação, busca proibir a matrícula de estrangeiros em um dos mais conceituados centros de estudos superiores do planeta.
Organizações judaicas, com representatividade na comunidade americana, reagiram à movimentação do governo. Stefanie Fox, diretora da Jewish Voice for Peace (JVP), diz não ter dúvidas do uso político do antissemismo para o avanço do movimento “Faça os EUA Grandes Novamente” (Maga, na sigla em inglês). A JVP é citada pela Heritage como integrante da “rede de apoio” do Hamas. “O que é infundado, paranoico e ridículo”, afirmou Fox à agência AFP.
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— Infelizmente, existe, como em toda sociedade, antissemitismo nos campi, mas as universidades americanas o têm combatido dentro e fora das salas de aula. A hipérbole trumpista é apenas uma ferramenta para eliminar quem pensa diferente do governo e um tiro no nosso próprio pé, pois afeta professores e estudantes judeus ao cortar verbas para o ensino e dirigi-las a outros fins — afirma Gordon.
Pesquisa realizada este ano pelo Jewish Voters Resource Center, especializado no eleitorado judaico nos EUA, mostra que 89% dos entrevistados se dizem preocupados com o aumento do antissemitismo no país, mas 64% desaprovam os esforços do presidente para combatê-lo.
