Além de Herus Guimarães, de 23 anos, morto na madrugada de sábado durante uma festa junina no Morro do Santo Amaro, outras cinco pessoas foram feridas por disparos de arma de fogo, segundo a direção do Hospital Municipal Souza Aguiar. Os disparos ocorreram durante uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) na comunidade. Entre os feridos estão o cozinheiro Leurimar Rodrigues de Souza, de 38 anos, que permanece internado em estado estável, e um dançarino de 16 anos, morador de São Gonçalo, na Baixada Fluminense. Segundo a mãe do jovem, ele estava empolgado para dançar na quadrilha da comunidade, mas ficou “traumatizado” após ser atingido e continuar com uma bala alojada no tórax.
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— Ele vai precisar de um psicólogo, está traumatizado. Um menino estudioso, que queria muito dançar nesta quadrilha. Eu assinei a autorização para ele dançar porque já conhecia a quadrilha mesmo não sendo desta comunidade — disse Maria Aparecida da Silva Felix, mãe de Emanuel da Silva Félix, de 16 anos, que há dois anos dança na comunidade do Santo Amaro.
De acordo com a mãe de Emanuel, que mora na comunidade Chumbada, no município de São Gonçalo, o filho ainda se preparava para a primeira dança da quadrilha quando foi atingido. Ele foi socorrido por moradores até a parte baixa da comunidade e de lá levado por um PM, inicialmente, para a UPA de Botafogo. Logo após, foi encaminhado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, com a bala alojada no tórax.
Ela revelou que, de acordo com informações do hospital, o projétil que feriu seu filho seria de pistola. Emanuel já recebeu alta da unidade e, segundo a mãe, deve iniciar acompanhamento psicológico por conta do trauma.
Ainda internado com uma bala alojada na clavícula, Leurimar Rodrigues de Souza, de 38 anos, trabalha há dois anos como cozinheiro em um restaurante em Botafogo, na Zona Sul do Rio. Ele foi um dos feridos durante a operação do Bope que interrompeu a festa junina no Morro do Santo Amaro, na madrugada de sábado.
— Estou aqui com meu marido agora, e penso nessa mãe que perdeu o filho nesse absurdo… como que fica? O médico disse a ele que, se a bala tivesse atingido o pescoço ou um pouco mais abaixo, ele talvez não estivesse mais aqui — contou Leidiane Ferreira, esposa de Leurimar.
Moradores da comunidade, Leidiane e o marido participavam da festa, que, segundo ela, “sempre acontece” no morro. Para a esposa do cozinheiro, o episódio foi como “uma cena de filme”, tamanha a tensão.
— Quando os tiros começaram, eu e meu marido corremos, e só vi ele caído. Um absurdo! Pessoas inocentes se divertindo, a festa super familiar, e eles entram desse jeito. Graças a Deus meu marido está vivo — disse. Segundo Leidiane, Leurimar já consegue andar e se alimentar sozinho, e a expectativa é de que receba alta até terça-feira.
Outras três vítimas já foram liberadas, de acordo com a direção do Hospital Municipal Souza Aguiar.
Na última sexta-feira, o Morro Santo Amaro, no Catete, Zona Sul do Rio, se preparava para uma noite de festa junina. Crianças e adolescentes vestidos de caipira se reuniam na quadra da comunidade, enquanto uma quadrilha junina fazia uma oração pedindo paz antes da apresentação. Mas a celebração foi interrompida por uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que gerou pânico entre os moradores e terminou com um homem morto.
Herus Guimarães Mendes, de 23 anos, foi baleado no abdômen, chegou a ser levado ao Hospital Glória D’Or, mas não resistiu aos ferimentos. Outras cinco pessoas também foram feridas — uma delas segue internada no Hospital Municipal Souza Aguiar.
“A quadrilha tinha acabado de fazer uma oração pedindo paz na entrada da comunidade. Quando desceram e se prepararam para entrar, já estavam todos no campo, vestidos para dançar. Vai me dizer que a polícia não viu as fantasias brilhando?”, questiona Monica Guimarães Mendes, mãe de Herus, morto com um tiro no abdômen na madrugada de sábado.
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Em vídeos que circulam nas redes sociais, crianças e adolescentes aparecem vestidos a caráter, dançando ao som de músicas típicas de São João, durante a festa na comunidade, que tinha as ruas enfeitadas com bandeirinhas coloridas.
A cena de celebração foi rapidamente substituída por vídeos que registram a correria e o barulho dos tiros durante uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Comando de Operações Especiais (COE).
Em um vídeo que circula nas redes sociais, é possível ver o momento em que o corpo de Herus Guimarães, de 23 anos, é carregado por moradores e policiais até um dos carros do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), no Morro Santo Amaro. Durante a ação, em meio ao choque da comunidade, um dos agentes tenta justificar: “Foi a bala do vagabundo, foi a bala do bandido”.

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A cena, assistida com espanto por moradores e crianças, é marcada por gritos de que Herus era trabalhador e apenas se “divertia” na festa. Ele estava sem camisa e vestia uma bermuda quando foi levado. Adolescentes vestidas com trajes típicos de quadrilha junina aparecem chorando ao presenciar o momento.
Uma mulher que acompanhou a retirada do corpo do jovem argumenta:
“Da última vez que eles (Bope) entraram, as crianças estavam vindo da escola. E agora de novo, mais uma vez, mais uma vez”, diz a mulher.
A família de Herus relata, ainda, que os policiais agiram de forma truculenta, arrastando o rapaz ferido numa escada.
“O policial arrastou o meu filho. Ele estava com a lateral do rosto toda machucada, o nariz ferido. Simplesmente colocaram uma grade sobre ele para impedir que fosse socorrido e o arrastaram escada abaixo. O policial ainda gritou que meu filho era vigia”, relatou Monica Guimarães Mendes, mãe de Herus Guimarães, que trabalhava como office boy em uma imobiliária e deixa um filho de dois anos.
A Polícia Militar informou que os agentes que aparecem no vídeo são policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). O governador do Rio, Cláudio Castro, determinou no domingo o afastamento imediato do coronel André Luiz de Souza Batista, comandante do Comando de Operações Especiais (COE), o coronel Aristheu Lopes, comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e 12 policiais do Bope que participaram da ação.
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Segundo o secretário da Polícia Militar do Rio, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, houve uma falha no planejamento da ação.
O oficial listou, nesta segunda-feira, os requisitos para uma ação emergencial, que, segundo as autoridades, foi a deflagrada no Santo Amaro após o recebimento de denúncia de que homens armados se reuniriam no local para fazer ataques contra bandidos rivais, e disse que “restou provado que não foram observados protocolos e procedimentos da corporação”.
— Eu vou citar aqui alguns requisitos. Primeiro requisito: avaliação de risco. Que tipo de impacto a nossa operação vai causar naquela comunidade? Segundo requisito: princípio da oportunidade. O dia em que aquela operação vai ser realizada, o horário em que aquela operação vai ser realizada, se está havendo algum evento na comunidade. E o principal requisito: que é a preservação das vidas. O bem maior a ser protegido é a vida das pessoas. E a gente pode observar que esses requisitos não foram contemplados nessa operação emergencial — afirmou, em entrevista ao Bom Dia Rio, da TV Globo.

