Centenas de moradores em prantos lotaram as ruas estreitas da cidade árabe-israelense de Tamra, no norte de Israel, na terça-feira para ver caixões de madeira adornados com coroas de flores coloridas sendo levados para o cemitério local. Tudo aconteceu após um míssil iraniano atingir um prédio residencial na cidade no sábado, matando quatro civis, segundo o serviço de emergência Magen David Adom. Para alguns, o ataque iraniano destacou as desigualdades nas proteções oferecidas à minoria árabe de Israel, enquanto para outros, apenas ressaltou a cruel indiferença da guerra.
Raja Khatib teve que reconstruir o que restou de um ataque que matou sua esposa, duas de suas filhas e uma cunhada.
— Gostaria que o míssil tivesse me atingido também. E eu estaria com eles, e não estaria mais sofrendo — disse Khatib à AFP.
Após cinco dias de combates, ao menos 24 pessoas morreram em Israel e centenas ficaram feridas sob intensos bombardeios lançados pelo Irã. Embora os avançados sistemas de defesa aérea israelenses tenham interceptado a maioria dos mísseis e drones, alguns conseguiram atingir seus alvos.
Com dimensões comparáveis às de um vagão de trem e cargas explosivas de centenas de quilos, os mísseis balísticos iranianos têm alto poder destrutivo. Um único impacto pode devastar quarteirões inteiros, abrir crateras em edifícios residenciais e espalhar danos pela onda de choque.
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Além de Tamra, mísseis atingiram áreas civis em Tel Aviv, Bnei Brak, Petah Tikva e Haifa. No Irã, ataques aéreos israelenses de longo alcance mataram pelo menos 224 pessoas, incluindo comandantes militares, cientistas nucleares e civis.
Apesar dos crescentes apelos para diminuir a tensão, nenhum dos lados recuou dos combates até o momento.
Enquanto os caixões passavam por Tamra na terça-feira, um grupo de mulheres cuidou de uma parente das vítimas que estava desmaiada de tristeza, enxugando suas bochechas e testa com água fria. No cemitério, homens se abraçavam e meninas choravam aos pés das covas recém-cavadas.
O Irã continua disparando salvas diárias desde que Israel lançou uma campanha aérea surpresa que, justifica, tem como objetivo impedir que a República islâmica adquira armas nucleares — uma ambição que Teerã nega.
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Em Israel, alertas frequentes de ataques aéreos mantiveram os moradores perto de abrigos antiaéreos, enquanto ruas por todo o país ficaram praticamente vazias e lojas fechadas. Mas alguns membros da minoria árabe do país disseram que o governo fez muito pouco para protegê-los, apontando para o acesso desigual aos abrigos públicos usados para resistir aos bombardeios.
“O Estado, infelizmente, ainda distingue entre sangue e sangue”, escreveu Ayman Odeh, um parlamentar israelense de ascendência palestina, nas redes sociais após visitar Tamra no início desta semana. “Tamra não é uma vila. É uma cidade sem abrigos públicos”, acrescentou, dizendo que esse era o caso de 60% das “autoridades locais” — o termo israelense para comunidades não registradas oficialmente como cidades, muitas das quais são majoritariamente árabes.
Mas para moradores como Khatib, o dano já foi feito.
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— Para que servem essas guerras? Vamos fazer a paz, pelo bem dos dois povos — disse ele. — Sou muçulmano. Este míssil matou muçulmanos. Ele diferenciava judeus de muçulmanos? Não, quando atinge, não distingue pessoas.
Segundo o prefeito da cidade, Musa Abu Rumi, apenas 40% dos moradores de Tamra têm acesso a abrigos seguros. Não há bunkers públicos, ao contrário do que ocorre em cidades israelenses, destacou à CNN. O prefeito afirmou ainda que “o governo nunca financiou abrigos na cidade porque eles têm outras prioridades”.
Segundo a lei israelense, a proteção antiaérea é exigida em construções desde os anos 1990, mas essa infraestrutura não foi aplicada em muitas cidades árabes. “A urgência em fornecer tal resposta ganha validade secundária à luz do fato de que a principal disparidade no campo da defesa no distrito norte está dentro das cidades árabes”, disse em nota a Associação pelos Direitos Civis em Israel.
A maior parte da minoria árabe de Israel se identifica como palestinos que permaneceram no que hoje é Israel após sua criação em 1948. Eles representam cerca de 20% da população do país. A comunidade frequentemente afirma enfrentar discriminação da maioria judaica de Israel.
