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idosos enfrentam horas de espera, sol, frio e até desmaios em busca do cartão de gratuidade

BRCOM by BRCOM
junho 18, 2025
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Filas nos postos de atendimento para pedir o cartão. Fila imensa no posto do Jaé no Estácio. Na foto Juracy Cabral da Silva, 74 anos, mora no Centro. Sofre de pressão alta, HIV. Passou mal na fila. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Uma idosa de 74 anos desmaiou na manhã desta quarta-feira enquanto aguardava por atendimento na fila para retirada do cartão Jaé, na Cidade Nova. Soropositiva e hipertensa, Juracy Cabral da Silva esperava desde as 7h, em pé, sob o frio e o sol forte, sem acesso à sombra, cadeiras ou assistência médica. A idosa, ao passar mal na fila esperando atendimento, foi amparada por quem também esperava. Às 10h30, sua senha — de número 64 — ainda não havia sido chamada. Juracy que é soropositiva e hipertensa, contou que toma medicação controlada todos os dias. Sentada em um banco emprestado de uma barraca de ambulante, começou a sentir falta de ar, o corpo desfalecer, mas recusou a ambulância para perder a vez.

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A fila, formada majoritariamente por idosos, dobrava o quarteirão — começava na Rua Ulisses Guimarães e virava a Dom Marcos — e escancarava o colapso no sistema de distribuição do novo bilhete digital, que será obrigatório nos transportes municipais a partir de julho.

Filas nos postos de atendimento para pedir o cartão. Fila imensa no posto do Jaé no Estácio. Na foto Juracy Cabral da Silva, 74 anos, mora no Centro. Sofre de pressão alta, HIV. Passou mal na fila. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Apesar da prefeitura dizer que vem reforçando a orientação para que os usuários façam cadastro por meio do aplicativo e solicitem a entrega do cartão do Jaé em casa, o que se vê nas lojas é o contrário. As pessoas, a maioria idosos, reclamam que mesmo solicitando a entrega em domicílio, em alguns casos há mais de três, o cartão não chega.

— Não quis chamar socorro. Se eu fosse para o hospital, iria me sentir melhor depois, mas ainda teria que voltar aqui para tentar o cartão. Ou seja, é uma luta sem fim porque o cartão não vai chegar na minha casa. Eu já pedi três vezes e não recebi — desabafou a idosa ao completar: — E o socorro a quem passa mal? Somente um copo d’água e mais um bocado de hora de espera.

Além disso, mesmo após notificações por mensagem informando que o Jaé estava pronto para retirada, os beneficiários enfrentaram longas viagens e horas de espera sem conseguir atendimento. O cenário, marcado por desmaios, frustração e dor, segundo os usuários, evidencia a falta de estrutura nos postos da prefeitura para atender a população idosa e com mobilidade reduzida.

A cena não é exceção. Marli Peçanha, de 71 anos, moradora de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, já enfrentou o mesmo drama pelo menos seis vezes. Ela conta que solicitou o cartão Jaé ainda em fevereiro, mas que, desde então, nunca conseguiu retirá-lo.

Cartão Jaé. Filas nos postos de atendimento para pedir o cartão. Na foto Marli Peçanha , 72 anos, mora em Campo Grande. Já veio umas cinco vezes tentar pegar e não conseguiu. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Cartão Jaé. Filas nos postos de atendimento para pedir o cartão. Na foto Marli Peçanha , 72 anos, mora em Campo Grande. Já veio umas cinco vezes tentar pegar e não conseguiu. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Foram várias tentativas sem sucesso. O desapontamento tomou ainda mais força quando a idosa recebeu uma mensagem de WhatsApp no celular na segunda-feira informando que o seu cartão estava pronto para retirada na unidade da Cidade Nova. Marli, então, acordou ainda de madrugada, pegou trem e ônibus, mas voltou para casa de mãos vazias com a promessa de que o Jaé ficaria pronto a tempo depois.

— Fiquei horas esperando na fila para ir embora mais uma vez sem o cartão. Eles não sabem explicar o motivo de tanta demora e dificuldade. Sempre falam que o cartão está pronto e mandam mensagem. Mas, quando chego aqui, nada feito. Me prometeram que sairia, mas mandaram que eu voltasse outro dia. A gente fica na fila, no tempo frio, no sol, sem comer, sem lugar para sentar por horas. Ninguém ajuda — lamentou a idosa ao complementar: — Se eu não conseguir esse cartão até o dia 5 de julho, vou ter muita dificuldade de sair de casa e ir aos médicos.

Na foto Maria das Dores, 70 anos, mora em Senador Camará. Fez o cartão em março e não conseguiu pegar em Bangu e não chegou em casa — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Na foto Maria das Dores, 70 anos, mora em Senador Camará. Fez o cartão em março e não conseguiu pegar em Bangu e não chegou em casa — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Na mesma fila, a indignação tomava conta:

— Essa fila aqui é especial? Pois é, não tem um banco, acessibilidade, não tem nada — disse Rosângela Reis, de 60 anos, que saiu do Vidigal para acompanhar a mãe Vera Lúcia Silva Souza, de 76, que sofre de debilidade senil.

Elas foram até o local após receberem uma mensagem informando que o cartão, pedido pela internet, não pôde ser entregue em casa e deveria ser retirado presencialmente. O posto mais próximo, segundo o aviso, era o do Centro do Rio.

— O mais perto ainda é longe. E ela nem sabe chegar sozinha. E aqui, com esse sol, esse frio, essa fila… como ela aguenta? É um descaso com os idosos que precisam do cartão e da gratuidade. Deveria haver uma forma mais rápida e menos burocrática de fazer isso. Ter que submeter a terceira idade a esse descaso é humilhante.

Filas nos postos de atendimento para pedir o cartão — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Filas nos postos de atendimento para pedir o cartão — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

A realidade escancarada nas filas que viram quarteirões contrasta com a promessa de modernização que a prefeitura anunciou com o Jaé, novo sistema de bilhetagem digital que substituirá o Riocard nos transportes municipais. A partir do dia 5 de julho, o uso do cartão será obrigatório para estudantes da rede pública, idosos, pessoas com deficiência e com problemas de saúde — todos beneficiários de gratuidade. Em 2 de agosto, o Riocard deixará de ser aceito para os demais passageiros. Mas, ao que tudo indica, a infraestrutura para essa transição está longe de atender quem mais precisa.

Aldir Ramos, de 66 anos, e Sandra Francisco, de 72, moradores de Senador Camará, chegaram às 6h da manhã no ponto de atendimento e às 10h30 ainda não haviam sido atendidos.

— A gente sai cedo, chega aqui e não tem nem previsão. Nem banco para sentar, nem água. Nada — reclamaram.

Casos de idosos que foram ao local após receberem a notificação de que o cartão estava pronto, mas deram viagem perdida, são comuns. Um senhor, de 81 anos, de Santa Cruz, por exemplo, foi informado que o cartão já estava disponível. Ao chegar ao posto, ouviu que não constava no sistema. Voltou para casa sem atendimento.

Maria das Dores, de 70 anos, também é moradora de Senador Camará e tenta desde março resgatar seu Jaé. Primeiro, tentou pegar em Bangu, sem sucesso. Depois, foi informada de que o cartão seria entregue em casa. Mas isso também não aconteceu. Ela usa muletas desde 2018, quando sofreu um acidente no metrô, precisou passar por cirurgia no pé e perdeu parte da mobilidade. Hoje, caminha com dificuldade e não pode ficar muito tempo em pé, por causa das dores fortes que sente.

— Disseram que foram três vezes na minha casa e não me acharam. Isso é mentira. Sou aposentada e fico em casa o dia todo. Desde fevereiro, estou tentando pegar esse cartão e não consigo — relatou. — O problema é que a prefeitura quer oferecer um serviço que não tem capacidade de administrar. O que estão fazendo com esse Jaé é um absurdo. Os problemas não estão acontecendo agora. Eles acontecem desde sempre, mas só estão prestando atenção agora porque o prazo está ficando curto.

Filas nos postos de atendimento para pedir o cartão — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Filas nos postos de atendimento para pedir o cartão — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Além das dificuldades físicas, o esgotamento psicológico também se impõe. Com a data limite de 5 de julho se aproximando, cresce o desespero entre quem depende da gratuidade para viver e se deslocar pela cidade. A fila para do cartão, segundo os idosos, se tornou o retrato do descaso.

— A transição de um sistema que prometia mais dignidade acabou impondo humilhação. Nenhum dos postos da cidade possui estrutura adequada para receber em massa um público idoso, com mobilidade reduzida e condições de saúde delicadas — lamentou Valdecy do Carmo, de 79 anos, morador de Bangu, na Zona Oeste do Rio.

Enquanto isso, os entraves que levaram a Prefeitura do Rio a adiar por quatro vezes o início do uso exclusivo do Jaé persistem. A principal crítica é à falta de integração com os transportes estaduais. Trens, metrô, barcas e ônibus intermunicipais continuarão aceitando o Riocard. Já BRT, VLT, ônibus municipais, vans e cabritinhos, de responsabilidade do município, passarão a aceitar apenas o novo cartão.

Serão duas fases de implementação. A primeira começa em 5 de julho, apenas para gratuidades. A segunda, em 2 de agosto, valerá para todos os usuários. Segundo a Secretaria Municipal de Transportes, os atendimentos presenciais seguem sendo realizados nos 15 postos espalhados pela cidade, mas moradores de bairros distantes, como Campo Grande, Santa Cruz, Vidigal e Olaria, enfrentam deslocamentos de até duas horas para tentar obter o benefício — sem qualquer garantia de atendimento.

— O cartão que deveria garantir o direito de ir e vir, hoje simboliza o contrário: longas filas, despreparo e sofrimento. À espera de um bilhete que lhes devolva a mobilidade, os idosos do Rio enfrentam o abandono, expostos ao tempo, sem sombra, sem água e, principalmente, sem respeito — completou Marli.

Procurada, a prefeitura ainda não se manifestou sobre a dificuldade dos idosos em adquirir o cartão.

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  • Lojas do Jaé terão funcionamento excepcional no feriado
      • idosos enfrentam horas de espera, sol, frio e até desmaios em busca do cartão de gratuidade

Lojas do Jaé terão funcionamento excepcional no feriado

As lojas do Jaé vão funcionar excepcionalmente nesta quinta-feira (19/06), feriado de Corpus Christi, das 9h às 13h.

As exceções são as unidades de Botafogo (sede da RioLuz), de Campo Grande (Rua Aurélio de Figueiredo, 41, loja D), Nave do Conhecimento do Engenhão (Engenho de Dentro) e o anexo do Centro Administrativo São Sebastião (CASS), na Cidade Nova, que não funcionarão nesta quinta-feira.

O atendimento normal será retomado na sexta-feira (20/06).

Endereços das lojas da Jaé que vão funcionar nesta quinta-feira, das 9h até 13h:

  • Terminal BRT Alvorada – Av. das Américas, s/nº – Barra da Tijuca.
  • Terminal BRT Jardim Oceânico – Av. Armando Lombardi, 705 – Barra da Tijuca.
  • Terminal BRT Paulo da Portela Madureira – Rua Padre Manso, s/nº, EF 203 – Madureira.
  • Terminal BRT Santa Cruz – Rua Felipe Cardoso, s/nº – Santa Cruz.
  • Terminal BRT Deodoro – Estr. do Camboatá, 46, Deodoro.
  • Terminal Pingo D’Água – Estrada da Pedra Guaratiba.
  • Taquara – Av. Nelson Cardoso, 905 – loja 107 Taquara.
  • Terminal Gentileza – Avenida Francisco Bicalho, São Cristóvão, Loja 32.
  • Estácio – Rua Ulysses Guimarães, 16, loja A (em frente ao metrô da Estácio) Cidade Nova (Serviço disponível: retirada dos cartões que foram agendados para a loja da sede da Prefeitura).
  • Posto temporário: Nave do Conhecimento Padre Miguel – Rua Bom Sossego, 380.

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