No final da primeira semana de negociações da COP30 em Bonn, Alemanha, um dos pesadelos da presidência brasileira se realizou: o tema do financiamento climático, que teve um desfecho trágico na COP29, em Baku, Azerbaijão, voltou com tudo para assombrar as discussões. Os países em desenvolvimento estão deixando claro que querem resolver a parada em novembro em Belém. (Claudio Angelo).
A conferência de Bonn começou dois dias atrasada porque a Bolívia, falando em nome da Índia e de outros países em desenvolvimento, exigiu discutir a obrigação dos países ricos em prover recursos para os países pobres cortarem emissões e se adaptarem à mudança do clima. O Brasil preferia diluir essa conversa num debate mais amplo sobre dinheiro porque sabe que o assunto tem potencial de transformar a COP30 num impasse. Não deu.
Vive um drama: a cara estadia em Belém
Divididos em relação ao financiamento climático, países ricos e pobres se uniram em Bonn para reclamar com o Brasil sobre os preços da hospedagem em Belém. “Somos funcionários públicos, viajamos com dinheiro do contribuinte”, disse uma delegada europeia, possessa com a diária de US$ 1.000 ou mais. A presidência da COP prometeu — mais uma vez — botar no ar em junho a plataforma de hospedagem.
A presidência da COP comunica suas intenções para a conferência por meio de cartas. A quarta carta, publicada ontem pelo embaixador André Corrêa do Lago, trata da Agenda de Ação, o conjunto de compromissos voluntários que a presidência propõe aos países e ao setor privado. A estratégia, em Belém, é jogar temas espinhosos, como a saída dos combustíveis fósseis, para a Agenda de Ação.
…o inferno está pavimentado
Nos 11 anos desde que a Agenda de Ação foi estabelecida, na COP20, mais de 400 compromissos desse tipo já foram apresentados. A maioria deles foi esquecida tão voluntariosamente quanto foi criada. Mas às vezes alguma coisa cola: na COP26, em Glasgow, a Agenda de Ação apresentou um plano de zerar o desmatamento em 2030, que depois foi incorporado ao Acordo de Paris.
Cinquenta e cinco mil reais — nem sequer o preço de um carro popular. Pois esse foi o valor pago pela Dillianz pelo direito de perfurar um poço de petróleo na Bacia de Parecis, no sudoeste da Amazônia. A venda ocorreu na última terça-feira, durante o leilão organizado pela ANP, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. O bloco fica a meros 11 quilômetros da Terra Indígena Santana, do povo Bakairi, no Mato Grosso.
Time perdido: o morde e assopra do governo federal
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No total, a União amealhou quase R$ 1 bilhão com a venda de 34 blocos de petróleo, sendo 19 na Foz do Amazonas. Só que no mesmo dia, o governo lançou o Balanço Ético Global, uma iniciativa no âmbito da COP30 que faz um chamado mundial à ação climática. “Nenhuma solução técnica pode ser verdadeiramente eficaz sem uma mudança de comportamentos”, diz um texto publicado no site do próprio governo. Só faltou combinar com os russos. Quer dizer, com os brasileiros.
E a Geral? Obra da COP exclui comunidade
Belém segue com obras a toque de caixa para receber a COP. Só que uma dessas obras, uma estação de esgoto na Vila da Barca, a maior comunidade de palafitas da cidade, com mais de 7 mil moradores, irá beneficiar bairros nobres da capital, mas não a própria comunidade, que tem protestado. Se a COP pretende deixar um legado ao mundo, deveria começar fazendo o dever de casa.