Aos 81 anos, Sir. Mick Jagger vai a um show no Islington Assembly Hall, em Islington, norte de Londres. Curte, dança, fica do início ao fim. Decide, então, tietar a estrela da noite e parte rumo ao camarim, onde aguarda um pouco do lado de fora. Dá certo: Vanessa da Mata, cantora mato-grossense de 49 anos, lhe recebe com carinho e os dois trocam afagos.
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O encontro aconteceu em maio. Vanessa estava terminando a turnê do seu disco “Vem doce” (2023), indicado Grammy Latino na categoria melhor álbum de música popular brasileira. Agora, já está em outra. Ou em outras: acaba de lançar “Todas elas”, o mais biográfico dos seus nove álbuns de estúdio, repleto de canções autorais. O disco tem participações de João Gomes, Jota.pê e do americano Robert Glasper.
Como que foi aquele encontro com o Mick Jagger depois de um show seu em Londres. Ele ficou na fila do seu camarim pra falar com você, né? Vocês já se conheciam?
Paula Lavigne nos apresentou anos antes, uns 10 anos atrás, na casa dela. Fizeram uma festa pra ele e ele ficou do meu ladinho, conversando um tempão. Só que daí a gente nunca mais se falou. E quando eu fiz esse show em Londres, ele mesmo veio dizer que não poderia ficar sem ir. Disse: “Eu sou seu fã, não poderia faltar ao seu show na minha cidade”, acredite (risos). Ele viu o show inteiro lá de cima. Primeiro ficou embaixo dançando com as pessoas, mas como começou a ficar muito cheio, foi lá pra coxia, ficou ali no cantinho junto com a equipe e depois me esperou trocar de roupa e foi conversar comigo. Falou que era fã, que ouvia tudo, mostrei umas coisas do disco novo pra ele, ele curtiu muito. Foi muito divertido, muito impressionante. Pra mim, é o maior cara hoje da música no mundo. E ter essa disponibilidade, essa curiosidade pra ver uma nova pessoa… eu sou nova pra ele, né? Foi muito impressionante, fiquei muito orgulhosa.
Eu li que você ficou bastante cansada depois de finalizar o musical da Clara Nunes. Esse cansaço foi só físico ou teve algo espiritual também?
O trabalho de resgate sempre é pesado. Mas pra mim foi mais pesado no sentido de que eu tenho TDAH. Era muito texto, escadas enormes, ficava subindo e descendo o tempo todo. Eu precisava ficar dentro de um repertório que não era meu, mas extremamente prazeroso. Viver naquela época, anos 60, 70 da música brasileira, foi um sonho realizado. Tinha uma certa frustração que foi sanada. Mas fazer um trabalho que não era meu, que era de atriz, me levou a uma exaustão muito grande. Quando eu parei e falei “agora vou tirar uma semana de férias”, minha cabeça de compositora não parou. Eu fazia três músicas que eu considerava lindas por dia, sem querer. Era meu trabalho autoral querendo nascer imediatamente. Já estava na hora ou passando da hora. Fiz esse disco em quatro dias. E o mais impressionante é que a exaustão me deu músicas muito boas. Já tive disco em que gravei 50 músicas pra tirar 12. Nesse, tudo que saía, saía como um presente.
O que o espetáculo te trouxe de legado no oficício de cantora?
O Clara me deu outra perspectiva de trabalho. Me deu uma preparação vocal que eu nunca tive. O show do Todas Elas, por exemplo, não se compara aos anteriores. O disco tem vozes mais maduras, interpretações diferentes, nuances diferentes, dicção bem melhor, domínio da voz, dos agudos que eu sempre tive, mas não usava. Estou cantando ópera no Todas Elas, no tom da Maria Callas. São coisas que eu não fazia antes.
O disco novo é bastante político, mas também muito pessoal. Dá pra dizer que é seu trabalho mais biográfico?
Acho que todos são, antes eu não tinha coragem pra dizer, mas esse tem mais clareza. A música “Esperança” fala disso. É um amor em viver, mais do que amor próprio. É respirar e ver o dia a dia. Ter prazer em existir. Diante de tantas redes que te tiram atenção, é simplesmente parar e respirar, estou viva, estou saudável e tenho prazer em existir. É uma coisa que a gente tá se esquecendo. Estamos falando muito de autoestima e pouco de existência. Sempre fui muito severa comigo mesma, mais do que gravadora, público… sempre fui a severa da relação comigo mesma, sempre fui a mais crítica. “Ciranda” fala de uma mãe solo, como eu. O pai dos meus filhos mora na Suíça há anos. Vejo tantas mães solo no Brasil com cobranças absurdas e homens que abortam o tempo todo e não cuidam dos filhos. A música Te Apoio em Sua Fé veio de um episódio que me marcou: vi uma reportagem de um babalorixá com uma camiseta de Jesus Cristo sendo atacado por uma facção. Quebraram tudo. Eles não perceberam a camiseta, o que pra mim era um sinal espiritual enorme. Isso me entristeceu profundamente. É uma música que as pessoas estão prestando pouca atenção e merece uma atenção maior.
‘Te apoio em sua fé’ é uma música que abraça, mas também tem um tom de denúncia sobre intolerância. Você se preocupou em abordar isso de forma espinhosa?
Sim, tive uma certa preocupação porque é uma facção. Mas ao mesmo tempo estão falando de Jesus. É preciso entender quem é Jesus. Ele pregava em montanhas, na natureza, não estava em templos misturando dinheiro. Ele falava de perdão e amor. O resto é manipulação humana. A música fala sobre apoiar a fé das pessoas, mas também expõe as contradições que existem em nome da religião, especialmente quando há manipulação e violência travestidas de fé. É importante lembrar quem foi Jesus, que pregava o amor e o perdão, e que as coisas contrárias a isso são apenas manipulações humanas.
O disco passeia por muitos gêneros: samba, reggae, jazz, pop. Isso foi intencional ou algo que aconteceu naturalmente?
Queria um disco plural, mas sempre fui plural. Desde pequena, no Mato Grosso, meus tios caminhoneiros traziam músicas de tudo quanto é canto, desde sambistas incríveis ao sertanejo. A música, pra mim, sempre foi feminina. Todas Elas também fala disso: da música como corpo feminino, com curvas, nuances, rios sensoriais, sentimentais. Ideia de ter muitos ritmos. O show vai além. Canto de sertanejo a Maria Callas.
Você completou mais de 20 anos de carreira. Olhando pra trás, teria feito algo diferente?
Se eu soubesse antes tudo o que ia acontecer, talvez fizesse muita coisa diferente. Mas se eu visse onde eu estaria hoje, lá no começo, acho que teria feito tudo igual. Todas as carreiras têm idas e vindas. Eu gosto do todo, sabe? Mesmo os discos que não foram tão bem, faz parte. “Segue o som”, por exemplo, foi um pouco abaixo. Os que vieram depois, com produção minha, foram muito mais fáceis e gostosos de fazer. Hoje eu tenho total controle. Faço no meu tempo, do meu jeito, e é muito mais prazeroso.
Você tem nove canções só suas nesse disco. Isso é raro.
Sim, menos de 10% das composições no mercado são de mulheres. A criação feminina ainda tem muitas barreiras. Muita mulher precisa compor com homens, com grupos grandes, por insegurança, falta de espaço. Esse disco foi feito de forma muito independente, e isso foi uma delícia. A parceria com o Jota.pê (“Troco tudo”) foi rápida, em dois dias. Com o Robert Glasper, ele me mandou as harmonias, eu fiz melodia e letra, ele gravou o piano e ficou lindo. Essa canção me lembra uma época em que se falava mais do Brasil de forma positiva. Hoje vemos muitas coisas negativas e falamos pouco das boas. Uma coisa da gente se elogiar, construir uma autoestima bacana. Mas lembra essa época em que se falava muito do Brasil.
Como você conheceu o Robert Glasper?
Conheci num café em Nova York, há uns 10 anos. Estava tocando um som incrível, e era ele. Comecei a seguir, ouvir. Ano passado, fui ao show dele no Ibirapuera. Depois um amigo nos apresentou e começamos a conversar, trocar ideias. Quis compor com ele, e ele também se interessou. Foi tudo muito orgânico.