A Polícia Militar de São Paulo acumula, desde 2020, quase 3.500 pedidos de afastamento motivados por questões de saúde mental. Foram 653 licenças por causas psiquiátricas só no ano passado, numa média que se aproxima de dois casos diários — em 2020, houve 476 solicitações do gênero, em um índice que subiu de patamar desde então. Em paralelo, como também atestam os dados obtidos pelo GLOBO via Lei de Acesso à Informação (LAI), os agentes que pediram exoneração (ou seja, deixaram voluntariamente a corporação) bateram recorde em 2024, quando levadas em conta as duas gestões estaduais mais recentes (João Doria/Rodrigo Garcia, entre 2019 e 2022, e a atual, do governador Tarcísio de Freitas).
- Proibição: STF acumula 5 votos para barrar lei que proíbe Marcha da Maconha em Sorocaba, mas julgamento é suspenso
- Em tratamento contra pneumonia: Bolsonaro cumpre agendas e recebe vereador ex-BBB em Brasília
O número de afastamentos psiquiátricos nos três primeiros meses de 2025 indica uma intensificação do fenômeno. Se mantido o ritmo dos 206 casos registrados até 31 de março, será batida a marca de 800 pedidos, atingindo o ápice do recorte recente.
Para fins de comparação, embora um mesmo agente possa entrar de licença várias vezes, a marca anual superaria o efetivo de um batalhão de médio porte no estado, que costuma girar entre 600 e 700 homens. Mais da metade (57%) dos policiais afastados no período analisado foi diagnosticada com algum nível de depressão ou ansiedade.
Enquanto isso, os pedidos de exoneração também aceleram. Em 2024, em meio a diversos casos ruidosos de violência policial no estado, 788 PMs solicitaram baixa da tropa paulista, o maior patamar desde 2018. É um aumento de 19,5% em relação ao ano anterior, quando 659 agentes escolheram abandonar as fileiras da Polícia Militar. As desistências foram mais acentuadas entre os soldados de primeira classe, posto de baixa patente, apontando para uma insatisfação mais aguda na base da corporação.
— Não consigo dormir, tenho crises de ansiedade e tomo medicamentos fortes — narra o soldado Lucas Cardoso dos Santos Neto, de 38 anos, 11 deles na PM.
O soldado Santos Neto se enquadra nos dois grupos retratados nos dados obtidos via LAI. Além de acumular afastamentos por saúde mental, ele aguarda a aprovação de um pedido de exoneração. Casado e pai de uma menina, o praça chegou a ser preso na semana passada ao procurar atendimento no Hospital da Polícia Militar, no bairro do Tucuruvi, Zona Norte da capital paulista, sob a acusação de desrespeitar o médico — que também era militar. Segundo o boletim de ocorrência, o agente foi enquadrado por se referir ao capitão como “você”, e não “senhor”. A entrevista ao GLOBO é a primeira após o incidente.
— Houve época em que eu não podia colocar o uniforme que começava a tremer. Em 2023, quando fiz o primeiro pedido de afastamento, o médico particular pediu 60 dias, mas a junta médica do hospital da PM me deu apenas 20. É sempre menos tempo do que precisamos para o tratamento. Estou tentando me recuperar, mas, na PM, impera a cultura da “síndrome do super-herói”: quem tem problema físico ou mental é um fraco, um chorão — diz.
A advogada Fernanda Borges de Aquino, que defende o policial, contesta a razão para a prisão no hospital.
— Ele não desrespeitou o capitão, foi tudo gravado por ele. É mais uma demonstração da perseguição que promovem contra o Lucas há anos. Tanto que ele pediu exoneração da PM há duas semanas e até agora não houve a publicação no Diário Oficial — afirma.
Procurada, a Polícia Militar informou, por nota, “que a exoneração do servidor será publicada nos próximos dias, conforme determina a legislação vigente, com pleno respeito aos direitos do policial”.
Sobre os números de afastamentos e exonerações, a Secretaria da Segurança Pública sustenta que “a instituição oferece atendimento e suporte psicológico aos seus integrantes em todas as regiões do estado, por meio do Sistema de Saúde Mental da PM-SP”. “Além disso”, prossegue o texto, “são desenvolvidas ações preventivas e campanhas permanentes de valorização da vida, entre outras iniciativas voltadas ao bem-estar dos profissionais”.
“A PM esclarece que os pedidos de exoneração não estão necessariamente ligados a questões de saúde mental. Muitos desligamentos são voluntários e motivados por razões pessoais, familiares ou por interesse em seguir outras carreiras”, arremata a nota.
O agravamento no cenário psicológico da tropa, contudo, também é atestado por quem acolhe os policiais afastados:
— Atendo 15 policiais em meu consultório, a maioria com transtorno de estresse pós-traumático. São vários os pacientes que desenvolvem obesidade, colesterol alto, problemas cardíacos, alcoolismo, muito por influência do trabalho que praticam. Não é uma situação nova, mas vem piorando ano após ano — explica a psiquiatra Alexandrina Meleiro, que atuou por 32 anos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Em média, cada policial que pede afastamento por questões de saúde mental passa cerca de 38 dias em recuperação, mas em alguns casos a reabilitação chega a oito meses. Mesmo quando a baixa definitiva ocorre, a solução não é sinônimo de uma “vida normal”.
— O policial que deixa a corporação fica banido da sociedade. Ninguém acredita que ele saiu por questões pessoais, todos acham que fez algo de errado — pontua o advogado e ex-policial militar Thiago Lacerda, de 45 anos.
Com a experiência de quem vivenciou a rotina da corporação, o hoje advogado alerta que muitos agentes vão até o limite da saúde mental devido à queda nos vencimentos em caso de licença médica:
— Os policiais afastados precisam entregar a arma e não podem nem fazer os “bicos oficiais” (como atuar para prefeituras, por meio de convênios). Com isso, um salário de R$ 4.500 pode cair para menos de R$ 2.600. Ele não consegue segurar e continua na ativa mesmo doente.
Enquanto a saúde mental dos agentes sucumbe, a letalidade policial também segue em alta neste ano em São Paulo, com 352 mortes decorrentes de intervenções até o dia 17 deste mês, segundo dados do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial, do Ministério Público paulista. Na média, é como se uma pessoa fosse morta pela PM-SP a cada 12 horas.