Não é preciso viajar longas horas de carro, ser montanhista ou ter um histórico de atleta para admirar as belas vistas que a geografia do Rio proporciona. Muito além das praias e dos cartões-postais clássicos como o Corcovado ou a Pedra da Gávea, destinos quase óbvios de todo visitante, a cidade está repleta de cantinhos escondidos aqui e ali que permitem aos moradores ou aos turistas observar suas paisagens naturais e construções históricas sem sair das áreas urbanas e sem gastar dinheiro. Basta ter curiosidade, um calçado confortável e disposição.
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Em algumas horas, em um trajeto de pouco mais de 20 quilômetros, organizado por um argentino que mora no Rio há 38 anos, é possível andar de Santa Teresa a Botafogo pelo asfalto, subindo e descendo ruas e ladeiras não tão íngremes, para se deparar com mirantes incríveis, que propiciam novas perspectivas para cenários já famosos, como o Pão de Açúcar e a Enseada de Botafogo, e outros que saem do lugar-comum, como o Centro e a Zona Norte. No meio do caminho, traços da natureza abundante e atrações culturais como painéis que reproduzem as pinturas do alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), os edifícios do Parque Guinle projetados pela arquiteto e urbanista Lucio Costa (1902-1998), o Museu do Holocausto e até um passeio de funicular na igreja do Outeiro da Glória.
— Que lugar do mundo oferece ao visitante esse conjunto arquitetônico que mistura praias únicas com Pão de Açúcar, Aterro do Flamengo e Enseada de Botafogo entre tantas outras belezas de que a gente pode desfrutar não apenas in loco, mas contemplar do alto em mirantes que, além disso, contam a história da cidade? Enfim, o Rio cura — empolga-se Daniela Maia, secretária municipal de Turismo do Rio.
O idealizador do passeio é o guia de turismo Horacio Ragutti, que, na época da pandemia, começou a sentir falta das idas às montanhas com seus grupos e resolveu “pipocar” sozinho pelas ruas da região onde mora, em Botafogo, a fim de explorar as possibilidades do entorno. A partir do que viu, começou a organizar excursões para interessados em explorar esse outro lado da cidade.
— O Rio é fantástico porque oferece muitas possibilidades, inclusive chegar a pontos altos andando por caminhos que não são trilhas e que podem ser feitos por qualquer pessoa. Fora que é um exercício físico espetacular — afirma ele, que costuma guiar os sócios do Centro Excursionista Brasileiro (CEB).
A largada é dada no Museu da República, no Catete — que por si só já merece uma visita — , e segue pelo Largo do Machado em direção à Rua Pedro Américo e, em seguida, à Rua Francisca de Andrade, de onde já se avistam o Centro e Santa Teresa. Dali, chega-se ao Mirante do Rato Molhado, na Praça Napoleão Muniz Freire. Do alto, é possível enxergar o Aeroporto Santos Dumont, a Central do Brasil e o estádio do Maracanã. A descida é pelas ruas Almirante Alexandrino e Cândido Mendes até a Glória, e logo se chega ao Outeiro.
Patrimônio da arquitetura colonial e religiosa da cidade e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938, a igreja dispõe de um pátio com uma vista abençoada para a Baía de Guanabara, o Aterro do Flamengo e a região central. Para o translado até o topo da colina, é possível pegar o plano inclinado na Rua do Russel.
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O caminho, a partir daí, muda de lado e segue em direção à Zona Sul pela Praia do Flamengo até chegar novamente ao Largo do Machado. A parada seguinte é o Parque Guinle, na Rua Gago Coutinho, em Laranjeiras. Erguido em 1920 e tombado em 1986, ele abriga um conjunto de prédios projetados por Lucio Costa e premiado na 1ª Bienal de Artes de São Paulo, em 1951. No parque, que atrai muitos moradores da região, localiza-se, ainda, o Palácio Laranjeiras, antiga residência da família Guinle, patrimônio desde 1983 e residência oficial do governador.
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A descida é feita pela Rua General Mariante até a Rua Pereira da Silva, para outra surpresa no estilo rococó: o Conjunto do Convento, a Capela de Nossa Senhora do Cenáculo e a Aleia de Palmeiras, outro bem tombado. Ao se alcançar a Rua das Laranjeiras, o trajeto segue pela Escadaria dos Apeninos, ao lado da sede do Fluminense, em direção à Rua Cardoso Junior, suas ladeiras e escadas, de onde se veem o bairro e a ponta do Mirante Dona Marta.
Ângulo especial da Baía de Guanabara
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A parada seguinte é a Rua Mundo Novo, ladeira que liga Laranjeiras a Botafogo e que abarca o badalado Mirante do Pedrão (porque a pedra é grande) e um ângulo fascinante da Baía de Guanabara. Para muitos, é a vista mais bonita de todo o passeio para qualquer lado que se olha, tanto para Niterói quanto para a Zona Sul. Em fevereiro, o espaço foi revitalizado, ganhou uma nova estrutura para receber melhor os visitantes e até um letreiro colorido e instagramável.
Ainda na Rua Mundo Novo, há uma outra joia carioca: o palacete no estilo neoclássico conhecido como Mansão Teixeira Boavista, que, reporta a História, serviu de casa para o Conde d’Eu (1842-1922), marido da Princesa Isabel (1846-1921). O imóvel foi construído no século XIX e tombado em 1990. Perto dele, já chegando a Botafogo painéis que se inspiram nas pinturas de Rugendas chamam a atenção dos passantes.
Seguindo por ali, o rumo são as ruas Assunção, da Passagem e General Severiano, até se chegar ao Mirante do Pasmado, cuja vista abrange o Pão de Açúcar, a Enseada de Botafogo e o Cristo Redentor. Ali, desde 2023, está aberto ao público o Memorial às Vítimas do Holocausto, com visitação grátis.
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A área, que fica no Parque Yitzhak Rabin, abriga um monumento de cerca de 20 metros de altura, construção que impressionou o servidor público Leandro Padoin.
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— Gosto bastante de explorar a cidade a pé e não conhecia nem o Rato Molhado e nem o Pedrão. O próprio Pasmado está muito diferente de como era quando estive nele pela última vez — opina Padoin, que pretende repetir a andança. — Vale a pena fazer o passeio mais de uma vez, para contemplar as mesmas vistas sob diferentes condições de luminosidade e nebulosidade.
A quantidade de paradas e pontos de interesse durante o trajeto abranda o cansaço até mesmo de quem não curte muito sair de casa, como a agente de viagens Bianca Vicenza, de 54 anos. Moradora do Estácio, ela conta que, apesar de ser caseira, vem descobrindo uma nova maneira de olhar o cenário.
— Acho sensacional morar em uma cidade com tantos lugares incríveis e que ficam do nosso lado. Estou descobrindo um Rio que fica muito próximo de mim; preciso apenas do metrô ou do ônibus — celebra.