Na tarde de 20 de janeiro, Lorena Fraga, de 27 anos, adentrou a sala de ensaios do Teatro Riachuelo, no Rio, com altivez e aparente segurança. O objetivo era tentar uma vaga no elenco da nova montagem brasileira do musical “Hair”, sob direção de Charles Möeller e Claudio Botelho.
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À sua frente estava a banca examinadora, formada por alguns dos produtores de teatro mais conhecidos do país, como a diretora de elenco Marcela Altberg, o diretor musical Marcelo Castro e Aniela Jordan, diretora artística da Aventura (companhia produtora do espetáculo e que tem como um dos sócios o empresário Luiz Calainho).
— Pode deixar que eu mesma conto os compassos para a entrada da música… — disse a jovem ao pianista Alexandre Queiroz, dispensando a ajuda do músico.
Respirou fundo e soltou a voz, cantando os versos “My name is Regina George / and I am a massive deal…”
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Eram as primeiras palavras da canção “Meet the Plastics”, do musical “Garotas malvadas”, que apresenta a vilã Regina George, o tipo de personagem que “chega chegando”. Uma atitude que parecia refletir a postura da própria Lorena naquele teste, o primeiro de uma série de eliminatórias acompanhadas pelo GLOBO entre janeiro e fevereiro deste ano.
A estratégia deu certo. A mezzo-soprano foi aprovada em todas as fases e está entre os dez atores que entraram no elenco de 30 artistas da nova montagem do espetáculo, que estreia nesta sexta-feira (4) no Teatro Riachuelo, Centro do Rio, e em outubro no BTG Pactual Hall, em Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo.
Se a cena descrita acima lembra clássicos do cinema (e da Broadway) que retratam bastidores de musicais como “A chorus line” (1985), “All that jazz” (1979) ou “Fama” (1980) não é por acaso. É que a construção de um megaespetáculo musical como “Hair” sempre despertou a curiosidade — e a imaginação — do público fã do gênero.
O novo “Hair”, que conta a história de jovens hippies que protestam contra a Guerra do Vietnã nos anos 1960 (e tem como um dos símbolos a canção “Let the sunshine in”, ou “Deixe o sol entrar”, em tradução livre), chega com a grife da dupla que em 2025 celebra 35 anos de serviços prestados ao teatro musical brasileiro, Möeller & Botelho.
Frequentadora de coxias desde quando acompanhava os espetáculos da irmã, a bailarina e coreógrafa Dalal Achcar, até os tempos em que foi de iluminadora à produtora executiva no Theatro Municipal, ao longo de 20 anos, Aniela Jordan parecia bem à vontade ao liderar a banca da primeira audição aberta para “Hair” naquela tarde de janeiro, no Rio. É que o lance da executiva é ficar de olho no que acontece no palco.
— Acho uma chatice fazer reunião financeira. Eu gosto mesmo é do artístico — disse a empresária, que conduziu sete horas de testes com 270 artistas, somente naquele dia.
A rotina da audição era simples. O candidato entrava e entregava ao pianista a partitura da música que pretendia cantar. Eram permitidos apenas 16 compassos, o que corresponde a mais ou menos 30 segundos de apresentação.
Diferentemente dos testes de elenco para a maior parte dos espetáculos musicais no Brasil, que são realizados com atores pré-selecionados pelos produtores, a audição aberta permite que qualquer pessoa, literalmente, participe. Basta chegar.
— A audição aberta é democrática, mas é muito cruel — disse Aniela. — A escolha final é sempre subjetiva, mas neste sistema conseguimos identificar muitos novos talentos.
O máximo que podia acontecer ao final de cada microapresentação era ouvir uma de duas frases da banca examinadora: “muito obrigado”, que significava “você não passou”; ou “você volta amanhã para o teste de dança”, que sinalizava o avanço à próxima fase.
Sim, houve choro. Tanto de felicidade quanto de frustração.
Quem chegou para o primeiro teste no salto, literalmente, foi o ator Wagner Lira. Avançando na primeira fase das audições abertas em São Paulo, em janeiro, ele desembarcou de mala, cuia e scarpins para a segunda fase, em fevereiro, na Cidade das Artes, na Zona Oeste carioca.
Os sapatos faziam parte da sua tentativa de incorporar a personagem Margaret Mead, uma turista conservadora e caricata que se assusta com os hippies de “Hair”.
— Já entrei “Convicta” — brincou Wagner, citando o título da versão de Botelho para a canção da personagem que o ator defendeu sobre os sapatos e vestido numa longa túnica verde.
Neste clima de reality show, Wagner foi aprovadíssimo, conquistando seu segundo papel num grande musical. O primeiro foi “A família Addams”, em 2022. De quebra, ele também ganhou a bênção dos pais para a profissão que escolheu.
— Eles nunca me apoiaram. Só agora relaxaram, estão felizes. Mas ficaram preocupados de novo porque eu tive que me mudar para o Rio (risos).
Outro ator egresso da audição aberta parece ter o nome sob medida para este musical. Kabelo tem 27 anos, é professor de hip-hop e começou a treinar a voz com os louvores da igreja evangélica que frequentou quando criança e adolescente. Atualmente, ele a exercita nos cantos para Exu que entoa nos terreiros das religiões de matriz africana que frequenta.
Kabelo não sofreu muito para cantar os 16 compassos de “I can’t stand still”, do musical “Footloose”, na sua primeira audição. Curiosamente, foi na hora da prova de dança, seu território mais confortável, que ele tremeu nas bases.
— Cara, eu ia dançar para o Alonso (Marcelo Alonso, coreógrafo do musical), um cara respeitadíssimo. Fiquei muito nervoso… Para piorar, ele ainda me puxou para a frente do grupo do teste, pediu que eu fizesse o movimento que ele queria e mandou para a turma: “É assim, entenderam?” Fiquei todo cagado de vergonha — disse o rapaz que agora tira onda nos ensaios: — Sou nome de musical!
No processo de ensaios que começou há dois meses no Teatro Adolpho Bloch, a turma que veio das audições abertas ganhou o respeito dos colegas da nova montagem, notável quando eles foram aplaudidos quando chamados para a foto que ilustra esta reportagem. Afinal de contas, eles deixaram para trás nada menos do que 900 candidatos, contando os que se apresentaram no Rio e em São Paulo.
Entre os mais entusiasmados com os novos colegas está o trio de protagonistas, Felipe Simas, Eduardo Borelli e Estrela Blanco, que foram convidados para os testes, mas também tiveram que cumprir a rotina de audições.
— Enfrentei essa seleção com sangue nos olhos porque eu queria muito esse papel — contou Estrela, que esteve no elenco da montagem de “Hair”, também dirigida pela dupla, em 2010, quando fez parte do coro.
Naquele ano, o musical escrito pelos americanos James Rado (1932-2022) e Gerome Ragni (1935-1991) contabilizava 43 anos desde a estreia, na Broadway, em 1967. Em 2025, “Hair” já beira as seis décadas, com centenas de montagens no mundo todo. Luis Calainho arriscou uma explicação:
— Com tantas guerras por aí, racismo, exclusão e intolerância, montar “Hair” hoje é como acender uma tocha no meio do escuro.
Charles Moeller concordou.
— Este é um daqueles momentos em que o mundo está precisando, e muito, deixar o sol entrar.