Na Rua Visconde de Itaboraí, no Centro de Niterói, entre vitrines que hoje alternam portas fechadas e a pressa dos passantes, há uma loja que resiste. Pequena, de estantes apertadas, mas repleta de histórias, a Livraria Ideal é um desses lugares que parecem existir fora do tempo. E talvez exista mesmo. É sustentada há 89 anos por uma mesma família e, desde os anos 1980, por um mesmo homem: Carlos Mônaco, ou Seu Mônaco. Para o livreiro, abrir a porta da loja todos os dias não é um compromisso com o comércio, mas com a memória.
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— Para mim, a livraria é uma higiene mental. Venho aqui para conversar, tomar um cafezinho, rever amigos. A loja é própria, não pago aluguel. Isso é um fator favorável para que a gente consiga permanecer — diz.
Carlos Mônaco nasceu no ofício. Filho de Silvestre Mônaco, imigrante italiano que trocou a Segunda Guerra pelas calçadas de Niterói, começou a trabalhar entre livros aos 10 anos. O pai havia iniciado o negócio com uma banca improvisada entre uma padaria e uma barbearia, ambas chamadas Ideal, e ali mesmo a livraria ganhou nome e endereço. Desde então, o ofício virou legado.
— Meu pai passou para mim, e hoje meu filho também é livreiro — conta.
Ele não se lembra do primeiro livro que vendeu, quando começou a ajudar o pai na livraria, mas lembra o que mais fazia sucesso na época e do que ele também mais gostava:
— É, foi uma coisa familiar, né? Meu pai vendia revistas também. Naquela época certas revistas foram marcantes para mim e para o público leitor, como O Cruzeiro, a Manchete, além de gibis de super-heróis como Batman, Capitão Marvel, Mandrake, Fantasma. Há 50, 60, 70 anos atrás, eram nomes de revistas que todos gostavam de ler, né? Principalmente os jovens.
A Livraria Ideal também foi, e continua sendo, ponto de encontro de escritores, historiadores, jornalistas, políticos, colecionadores e curiosos. No espaço que virou referência cultural, desfilaram nomes como o cantor Nelson Gonçalves, o ator Grande Otelo e os jornalistas José Cândido de Carvalho e Luiz Antônio Pimentel. A trajetória da livraria já foi até tema de um livro do historiador niteroiense Aníbal Bragança, chamado “Livraria Ideal. Do cordel à bibliofilia”.
Não por acaso, o trecho do calçadão onde fica a loja foi batizado de “Calçadão da Cultura”. Há até um mosaico na calçada como lembrança desse título.
Mas a relação com a literatura vai além da venda. Carlos Mônaco e o pai fundaram, em 1957, o Grupo Mônaco de Cultura, que promoveu mais de 800 lançamentos de livros. Também ajudaram a instituir, na Câmara Municipal, a Medalha Escritor José Cândido de Carvalho, entregue a artistas da cidade.
— José Cândido de Carvalho era membro da Academia Brasileira de Letras, lançou um livro que marcou na literatura brasileira, “O coronel e o lobisomem”, e era frequentador assíduo aqui — lembra.
E mais: Seu Mônaco cedeu à UFF, em forma de comodato, um acervo de mais de dez mil livros sobre a história do Rio de Janeiro.
Apesar de sua presença importante no cenário cultural da cidade, a Livraria Ideal sempre foi, antes de tudo, um espaço simples. Não há vitrines elaboradas nem móveis planejados. A loja é um corredor estreito, forrado de livros até o teto, onde o tempo parece dobrar as esquinas.
Já a filosofia de atendimento do lugar diz muito sobre ele: não há pressa, não há pressão. Seu Mônaco traz consigo teoria peculiar sobre o ofício, aprendida com o pai.
— O cliente de livrarias quer ir à livraria para pesquisar, garimpar… Às vezes ele entra procurando uma coisa e acaba achando muitas outras diferentes. O melhor atendimento de um livreiro é o não atendimento — diz, evocando a lição do imigrante italiano.
Entre as obras eternas que passaram por suas mãos estão primeiras edições de Machado de Assis e Erico Verissimo, além de edições raras de Dante Alighieri e Miguel de Cervantes. Houve também lamentações, como a frustação ao tentar comprar uma edição rara de “O bandolim”, de Luiz Pistarini, que acabou enterrada no caixão de um bibliófilo, a pedido do falecido.
Apesar do prestígio e da memória acumulada, Seu Mônaco sabe que o mundo mudou. O comércio de livros físicos encolheu, a clientela diminuiu, livrarias históricas fecharam as portas, no Rio e em Niterói.
— As grandes livrarias desapareceram. No Centro do Rio tinha a Cosmos, a São José, a Francisco Alves. Aqui também sumiram. A venda de livros caiu muito com a chegada da tecnologia, dos computadores, dos celulares. Um exemplo: há muitos anos uma enciclopédia era valiosa. Hoje ninguém mais procura enciclopédias, dicionários. Caiu muito porque as pessoas vão diretamente na internet. Mas para mim a enciclopédia tem mais apuro, mais fontes. Tem toda uma pesquisa envolvida. Na internet não é a mesma coisa — lamenta.
Seu Mônaco, porém, não se rende ao pessimismo; e seu filho Carlos César, atento às modernidades do mercado, usou a própria internet como arma para sobreviver ao novo cenário que se apresentou nos últimos anos. Hoje, parte do acervo é vendida no site Estante Virtual, numa frente tocada pelo herdeiro.
— Foi meu filho que teve a ideia, e eu acho que essa iniciativa foi ótima para a livraria. Há uma venda boa, melhor do que nas lojas. Mas isso inclusive tira um pouco mais do movimento, talvez contribua ainda mais para o fechamento dos comércios. Mas a tendência pode ser mais ou menos isso daqui a alguns anos: o negócio vai ficando pela Estante Virtual e com isso as lojas vão ficando desvalorizadas — diz.
O livreiro confessa: o que o emociona não está nos algoritmos, e sim nas conversas que nascem entre livros, nas memórias que voltam com cada visita de antigos clientes, no silêncio das páginas folheadas devagar.
Ver a cidade mudar nem sempre é fácil. Para ele, a Niterói de hoje é mais silenciosa e esvaziada do que aquela de décadas atrás.
— Antes, todas as lojas estavam ocupadas. Hoje, muitas estão fechadas. Isso gera desemprego, moradores de rua… A cidade perdeu muito —conta, apontando para todas as lojas fechadas ao longo da rua que frequenta há tantos anos no Centro.
Mas Seu Mônaco também reconhece o que ficou: a memória viva dos que passaram, muitos deles eternizados nas estantes da livraria e nas dedicatórias dos livros vendidos.
Agora, com O GLOBO comemorando 100 anos, o livreiro relembra o tempo em que o jornal era vendido emgrande quantidade numa banca logo em frente. E valoriza a presença do caderno de Niterói do jornal, que continua a contar histórias da cidade, incluindo, mais de uma vez, a dele.
— O GLOBO sempre foi um dos jornais mais importantes para Niterói, e não é a primeira vez que apareço nas no jornal! — brinca.
Aos 83 anos, Seu Mônaco não fala em deixar de abrir as portas da loja quase todos os dias, de segunda a sábado, entre 8h e 16h.
— Tenho um acervo guardado para a aposentadoria, mas não penso em me afastar. Aqui na Livraria Ideal está meu coração — diz.