Ao retomar na segunda-feira o envio de armamentos à Ucrânia, o presidente americano, Donald Trump, deu mais um sinal de que está sem rumo certo para cumprir uma de suas promessas de campanha: o cessar-fogo definitivo para a guerra lançada pela Rússia contra o território ucraniano em 2022.
- Contexto: Trump acusa Rússia de ‘seguir matando gente’ e ameaça novas sanções após ataque massivo contra a Ucrânia
- Alívio financeiro: Rússia recupera acesso a fundos e produtos restritos com afrouxamento da política de sanções dos EUA por Trump
A mais recente reviravolta para Kiev — Trump jamais foi um entusiasta do apoio americano à Ucrânia — começou no dia 2 de julho, quando a Casa Branca, invocando “os interesses dos EUA”, anunciou que não mandaria mais armamentos como os sistemas de defesa Patriot ou os mísseis de ataque Hellfire. A decisão pegou o governo ucraniano de surpresa, em meio a uma das mais intensas ondas de ataques russos contra o país, que deixaram dezenas de mortos e grande devastação.
“O lado ucraniano enfatizou que qualquer atraso ou procrastinação no apoio às capacidades de defesa da Ucrânia apenas encorajará o agressor a continuar a guerra e o terror, em vez de buscar a paz”, disse a Chancelaria ucraniana, na semana passada, em comunicado.
Dois dias depois, ainda em meio aos ataques aéreos contra a Ucrânia, Trump conversou com o presidente russo, Vladimir Putin, por telefone, contando com sua “arte da negociação” e encorajado por uma sequência de sucessos: no mês passado, ele forçou uma trégua entre Israel e Irã (que contou com bombardeios americanos), e vem obtendo avanços nos termos para um cessar-fogo em Gaza, embora sem um acordo definitivo à vista.
Trump desligou o telefone sem qualquer compromisso. Horas depois, Putin lançou, de acordo com os ucranianos, 539 drones e 11 mísseis contra o país.
— Estou muito decepcionado com a conversa que tive hoje com o presidente Putin. Não. Não fiz nenhum progresso com ele hoje — disse Trump a jornalistas na sexta-feira passada. — E também conversamos, como vocês sabem, sobre a guerra com a Ucrânia. E não estou feliz com isso. Não estou feliz com isso.
Na segunda-feira, o presidente americano disse que retomaria o envio das armas aos ucranianos, relegando a culpa pela pausa ao Departamento de Defesa.
— Vamos enviar mais armas. Precisamos, eles precisam ser capazes de se defender — afirmou o presidente na segunda-feira, antes de um jantar com o premier israelense, Benjamin Netanyahu. — Eles estão sendo duramente atingidos. Teremos que enviar mais armas. Armas defensivas, principalmente, mas eles estão sendo duramente atingidos.
Um dia depois, ele voltou a falar da guerra, e demonstrou alguma impaciência com Putin.
— Putin nos diz muita besteira, se você quer saber a verdade. Ele é muito legal conosco o tempo todo, mas acaba não tendo importância — disse Trump nesta terça-feira, em declarações na Casa Branca. —Putin não trata bem as pessoas. Ele mata gente demais. Então, enviamos algumas armas defensivas; eu aprovei.
- Antes aliados: Rússia e Azerbaijão veem tensões aumentar, com redução de influência de Moscou
A decisão deixou alguns políticos ucranianos animados, mas receosos. Afinal, as idas e vindas se tornaram rotina na errática estratégia do líder americano para a guerra.
Quando estava na disputa para retornar à Casa Branca, Trump usou a guerra na Ucrânia para destacar o que considerava ser a fragilidade de seu antecessor, Joe Biden, e para prometer encerrar o conflito em 24 horas caso fosse eleito. Os votos vieram, desta vez sem falsas controvérsias em relação ao resultado, ele foi empossado em janeiro, mas a promessa de campanha segue longe de ser cumprida.
Os dois lados se reuniram diretamente apenas duas vezes, em maio e junho, na Turquia, concordando com uma troca de prisioneiros, mas pouco avançando nos termos para um cessar-fogo temporário e sem condições prévias, como quer a Casa Branca e também os ucranianos. Uma terceira rodada de negociações ainda não tem data para acontecer.
Ao mesmo tempo, os russos continuaram com sua campanha de ataques aéreos, avanços terrestres no leste ucraniano e com uma bem-sucedida campanha para expulsar as forças ucranianas da região de Kursk, invadida em agosto do ano passado, em uma ação que contou com o apoio de tropas norte-coreanas. Já Kiev ampliou o uso de drones de ataque dentro da Rússia, culminando com a ação chamada de “Teia de Aranha”, que destruiu bombardeios estratégicos a milhares de quilômetros das linhas de frente.
- Após reunião de cúpula: Lavrov fala em ‘motim’ dentro da Otan e ameniza acusações de perda de objetividade no Brics: ‘princípios de igualdade’
O impasse também diz muito sobre a maneira personalista como o presidente americano conduz sua estratégia para a guerra.
Trump não esconde o desdém que sente pelo líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, e a relação entre os dois inclui uma altercação pública na Casa Branca, críticas em fóruns, entrevistas e redes sociais, além das suspensões de envio de ajuda, como a da semana passada e outra anunciada em março, após o embate no Salão Oval. Mesmo com a retomada dos carregamentos de armas, a pergunta que fica no ar em Kiev é: “quando será a próxima reviravolta?”.
— Não é a estratégia ideal que gostaríamos de ver — disse ao New York Times Maksym Skrypchenko, presidente do Centro de Diálogo Transatlântico, um centro de estudos em Kiev. — Mas precisamos nos adaptar a ela e devemos encontrar um lugar para a Ucrânia nesta estratégia.

Trump bate boca com Zelensky e diz que ele está ‘jogando com a Terceira Guerra Mundial’
Por outro lado, Trump guarda uma antiga admiração por Vladimir Putin. Em 2022, disse que a decisão russa de mover suas tropas para a fronteira com a Ucrânia, pouco antes da invasão, era “genial”, e nos anos anteriores havia elogiado o que via como capacidade única de liderança do homem que comanda a Rússia há 25 anos. E isso se refletiu nas conversas entre os dois sobre a guerra, e na forma como Washington lida com Moscou.
Ele tem recusado, de maneira recorrente, a aplicação de sanções contra a Rússia, e incentiva a expansão dos canais de contato entre funcionários dos dois governos. A maneira dura como trata com Zelensky contrasta com a docilidade dos contatos com Putin, e com a virtual ausência de pressão para que Moscou concorde com a proposta de um cessar-fogo incondicional de 30 dias. Neste cenário, no Kremlin ganha força o discurso de que o único resultado aceitável é a vitória total sobre Kiev.
Resta saber até quando o personalismo falará mais alto. Senadores republicanos estão avançando com uma legislação que impõe sanções duras contra países que negociam com a Rússia, e o presidente disse nesta terça-feira que estava analisando, de maneira “muito séria” o texto, sem deixar claro se a fala foi sincera ou uma figura de retórica.