O uso de lareiras ecológicas, cada vez mais populares como alternativa de aquecimento durante o inverno, acendeu um alerta no Rio Grande do Sul. Com a intensificação do frio e termômetros marcando temperaturas negativas em algumas cidades, o estado registrou um aumento de 25,8% nas ocorrências envolvendo esse tipo de equipamento — incluindo casos de queimaduras, incêndios e intoxicações. De janeiro a julho deste ano, foram 112 chamados do gênero junto ao Corpo de Bombeiros — o equivalente, em média, a 16 casos por semana—, contra 89 no mesmo período de 2024.
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As chamadas lareiras ecológicas ganharam espaço por dispensarem chaminés e prometerem uma combustão “limpa”, sem fumaça ou fuligem. Esses equipamentos, que se popularizaram sobretudo em apartamentos e casas sem estrutura para lareiras tradicionais, funcionam com a queima de álcool etílico hidratado, o mesmo tipo de etanol vendido em supermercados. Para acender, basta colocar o combustível dentro do reservatório e ativar a chama, preferencialmente com um acendedor de haste longa.
O problema começa quando, por falta de informação ou economia, os consumidores utilizam álcool combustível comprado em postos — produto que contém aditivos tóxicos, como o metanol, que pode provocar envenenamento, lesões pulmonares e até cegueira se inalado por longos períodos. Em Santa Catarina, outro estado do Sul do país de frio intenso, o registro de acidentes se manteve estável entre maio e junho, tanto em 2024 quanto em 2025, com dez casos no total.
— Lareiras ecológicas devem ser usadas só com o combustível indicado pelo fabricante, geralmente etanol específico, sem improvisações. É crucial respeitar o limite de líquido e nunca reabastecer com o aparelho ainda quente ou aceso. Os vapores do álcool são altamente inflamáveis e podem causar queimaduras graves. Além disso, o uso em locais fechados oferece risco de intoxicação e princípio de incêndio — explica o primeiro-tenente Vagner Silveira, da Academia de Bombeiros Militares do Rio Grande do Sul.
Os acidentes são mais comuns do que se imagina. Em maio, o ex-zagueiro Lúcio, campeão do mundo com a seleção brasileira de futebol, sofreu queimaduras de segundo grau em 20% do corpo após uma explosão causada por uma lareira ecológica. O acidente aconteceu em sua casa, no Distrito Federal, após um amigo jogar álcool na tentativa de reativar o aquecedor. Imediatamente, o fogo se espalhou. Hoje, Lúcio faz fisioterapia e tratamentos com câmara hiperbárica para acelerar a cicatrização dos ferimentos.
— Todos estávamos muito próximos da lareira, mas como ele jogou o álcool virado para o meu lado, fui o mais atingido — relatou o ex-jogador em entrevista ao GLOBO no mês passado.
A cantora Britney Spears compartilhou com seus seguidores nas redes sociais, no fim do ano passado, que também teve a experiência de ter o rosto queimado após tentar acender uma lareira no quarto.
— Tirou meus cílios e minhas sobrancelhas. Queimou todo meu cabelo. Eu pensei que precisaria ir ao hospital. Meu rosto estava pegando fogo. Podia ser uma queimadura de segundo, terceiro grau — contou a artista na ocasião.
Outro risco, menos visível, é a intoxicação por monóxido de carbono (CO). Em ambientes mal ventilados, a queima do etanol consome oxigênio e pode liberar CO — um gás incolor, inodoro e altamente tóxico. A exposição prolongada provoca sintomas como tontura, náusea, dor de cabeça e, em casos mais graves, perda de consciência e morte.
— A instalação de detectores de monóxido de carbono em residências que utilizam fontes de calor com combustão interna pode ser uma saída para quem utiliza lareiras ecológicas. No Brasil, o equipamento ainda é pouco comum, mas já é obrigatório em muitos países da Europa e nos Estados Unidos — diz Fábio Contreiras major do Corpo de Bombeiros do Rio e especialista em segurança contra incêndios.
Outras dicas são nunca abastecer a lareira enquanto ainda estiver quente, manter janelas entreabertas para circulação de ar, posicionar o equipamento longe de cortinas, tapetes ou objetos inflamáveis e sempre supervisionar o fogo, especialmente em casas com crianças ou animais de estimação. O major frisa ainda que, em caso de acidente, jamais deve-se tentar apagar o fogo com água, pois o contato com líquidos inflamáveis pode espalhar as chamas — o correto é utilizar extintores adequados para líquidos inflamáveis (Classe B) ou lançar mão de métodos que eliminem o oxigênio, como abafamento com manta específica ou pano grosso.