O ruído triste de m aspirador robô preso num canto da sala ligou uma luzinha na mente criativa de TJ Klune. Autor de livros de fantasia que exaltam a diversidade e a resistência, o autor americano imaginou uma releitura de Pinóquio, invertendo a premissa da fábula de Carlo Collodio. Em “A vida entre marionetes” (Morro Branco), seu novo romance publicado no Brasil, um menino humano criado por robôs busca entender quem ele é num mundo distópico dominado por máquinas.
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A fábula tecnológica mistura ternura, humor sombrio e crítica social, características típicas de Klune, que já publicou seis livros no Brasil, como “Ravensong” e “Em algum lugar além do mar”, todos lançados pela Morro Branco. A questão da identidade é outro elemento importante em sua obra, conhecida por destacar personagens e temas LGBTQIAPN+.
“A vida entre marionetes” não é um romance explicitamente queer, mas fala sobre “famílias por escolha” (ou “famílias encontradas”, numa tradução mais literal), um tema tão popular que já virou “trope literário” (termo que ajuda a resumir ou a guiar a história de um livro). O protagonista humano é criado por uma família nada convencional de párias, que inclui um robô aspirador dramático, uma enfermeira robótica paranoica e um androide com um passado misterioso. Eles vivem escondidos, mas seguros, até que um de seus membros é capturado por seu antigo laboratório.
— É importante lembrar que esse conceito de “família por escolha” foi criado por pessoas queer — diz o escritor, em entrevista por videoconferência. — Como tantos outros da comunidade LGBTQIA+, eu precisei sair pelo mundo e construir minha própria família. Fui formando ela com pedacinhos das pessoas que conheci ao longo do caminho.
Klune conta que descobriu ser gay aos 10 anos, no início dos anos 1990, quando vivia no interior do Oregon, um estado liberal com áreas rurais profundamente conservadoras. Não era, como o escritor lembra, um “lugar seguro para um garoto queer tentar se encontrar”.
— Eu não tive uma família amorosa e acolhedora — diz. — Minha mãe e meu padrasto zombavam de mim por gostar de ler e escrever. Tudo aquilo que me dava alegria era visto como algo que podia ser tirado de mim. Mas as pessoas que me machucaram, que deveriam ter me protegido, hoje estão velhas e sozinhas. E, honestamente, é isso o que acontece quando você escolhe a raiva, o preconceito, o ódio.
Klune vive hoje sozinho numa cabana no meio do nada, perdida nas montanhas do estado de Washington. Um cenário que lembra o clima sobrenatural de “Twin Peaks” (a série também se passava no Noroeste dos Estados Unidos, na fronteira com o Canadá), e é de lá que o autor encontra inspiração para imaginar mundos fantásticos e personagens excêntricos.
Suas histórias são permeadas por sentimentos positivos como esperança, resistência e pertencimento. Em “A casa no mar cerúleo” (2022), por exemplo, o protagonista acaba encontrando aceitação e sentido para a vida num orfanato criado para esconder crianças extraordinárias tidas como “perigosas” pela sociedade.
A sequência do livro, “Em algum lugar além do mar”, de 2024, é concluída com um bombástico ensaio que ajudou a definir a carreira de Klune. O texto reflete sobre legado literário, e traz fortes críticas a J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter, por seus comentários e ações contra a causa trans. Depois disso, o autor passou a ser apresentado pela mídia como o “anti-J. K. Rowling”, um rótulo que ele mesmo adotou.
Segundo Klune, ficou difícil separar Rowling de sua obra, já que a britânica usa a fortuna das vendas de Harry Potter para financiar campanhas vistas por muitos como transfóbicas. Ela doou dinheiro para o grupo For Women Scotland, que luta contra validação de mulheres trangênero em conselhos de agências governamentais na Escócia. Também criou o JK Rowling Women’s Fund, cuja intenção seria criar um ambiente para “mulheres protegerem seus direitos baseados no sexo”. A escritora já disse que o movimento trans pode “erodir” os direitos das mulheres.
— Se você é uma bilionária com uma enorme plataforma que usa todo o seu tempo para atacar uma das minorias mais vulneráveis que existem, então você é prejudicial à sociedade — afirma Klune.
Rowling tem um patrimônio estimado em R$ 5,5 bilhões e está envolvida como consultora na futura série da HBO baseada no bruxo mais famoso do mundo.
— É lógico que Rowling vai ganhar muito dinheiro com esse lançamento e, por isso, temos que pensar no que estamos apoiando com o que consumimos — diz Klune, defendendo os comerciantes que se recusam a vender os títulos da autora. — Essas lojas não estão banindo nada, apenas estão sendo fiéis às suas convicções. Ainda podemos encontrar Harry Potter em diversos outros lugares.
Klune, porém, ressalta que a escolha de consumir ou não Rowling deve ser feita pelas próprias crianças. Ele lembra da resposta que deu a um homem que, num evento, perguntou-lhe se deveria impedir o filho não binário de ler Harry Potter, seu personagem favorito.
— Disse ao pai que ele até poderia explicar ao filho as visões que a autora tem sobre pessoas como ele — conta Klune. — Se o filho quisesse continuar a ler depois disso, tudo bem. Se não quisesse, tudo bem também. Mas nunca, em hipótese alguma, devemos tirar um livro de uma criança.