A viúva de um dos mortos na noite de ontem em Paraisópolis, na região Sul de São Paulo, alega que a Policia Militar impediu o socorro do marido.
Um vídeo obtido pelo GLOBO mostra um policial ao lado do corpo, com a arma em punho, atirando perto de um morador que tenta se aproximar para prestar assistência ao baleado. Ele está com as mãos para cima, a fim de mostrar que está desarmado. Um dos tiros acerta um muro.
Viúva alega omissão de socorro pela PM
A coordenadora financeira Victoria dos Santos Félix, de 26 anos, conta que o marido Bruno Leite, 29 anos, estava em casa quando viu nas redes sociais o protesto “não pacífico” ocorrendo nas ruas da comunidade e decidiu se unir.
Condenado por tráfico, furto e porte ilegal de armas, ele é egresso do sistema penitenciário e era considerado pelas forças de segurança uma liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC), segundo Victoria.
— Acho que conheciam ele, acho que os policiais sabiam quem era ele. Meu marido ficou muito tempo baleado na viela, cerca de meia hora, quarenta minutos. Quando colocaram na viatura pro socorro, ele já estava morto — afirma.
O caso foi registrado como homicídio decorrente de intervenção à oposição policial. Segundo o Segundo o Boletim de Ocorrência, a morte ocorreu por volta das 20h36, na Rua Pasquale Gualupi, esquina com a Rua das Jangadas.
De acordo com o BO, policiais militares foram cercados por cerca de cem indivíduos que praticavam crimes, incluindo disparos de fuzil contra eles.
“Em determinado momento, uma equipe de policiais foi cercada em uma viela e disparos de arma de fogo foram feitos contra os militares, vindo ao atingir um policial. A fim de repelir a injusta agressão, um policial militar efetuou disparo de arma de fogo contra os criminosos, vindo a atingir um deles”.
Ainda segundo o documento, Bruno Leite estava armado. Ele foi levado ao hospital do Campo Limpo. Já o policial militar atingido foi socorrido ao Hospital Albert Einstein.
Os policiais alegaram no BO que o resgate não chegou pela “desordem social que assolava o local”. “Não havia condições táticas e operacionais para os policiais permanecerem no local a fim de preservar o sítio do confronto, motivo pelo qual esta equipe, bem como a equipe pericial, não conseguiu ir ao local do confronto”.
O ouvidor das Polícias do Estado de São Paulo, o advogado Mauro Caseri, afirma que, se a situação tivesse ocorrido em outro bairro de São Paulo, que o socorro a uma pessoa ferida deve ser feito pelo Samu. Mas que, se o episódio tivesse ocorrido em outra área da cidade, não periférica, os moradores teriam conseguido se aproximar para prestar socorro à vítima sem serem rechaçados.
— Tem uma visão de avaliação equivocada. Poderia ser um diálogo mais tranquilo — opinou.
Segundo o ouvidor, o protocolo policial de progressão de uso da força prevê a utilização primeiro de armas não letais, como spray de pimenta e bomba de gás, e menos letais, como taser, antes da arma de fogo.
— Não sei o que aconteceu antes. Mas, pela imagem, a progressão aparentemente não foi respeitada. Usar arma de fogo para garantir que a pessoa não se aproxime é mais um erro. Porque posso cometer mais um homicídio. Agora, não posso garantir que é uma arma de fogo. Vamos pedir as informações — disse.
Duas pessoas foram mortas por policiais militares durante uma operação em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, nesta quinta-feira (10). A primeira morte foi registrada no fim da tarde.
Em reação, moradores da comunidade colocaram fogo em barricadas, atacaram motoristas e depredaram imóveis. À noite, durante a confusão, uma segunda pessoa foi morta por agentes da PM. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, os policiais “foram recebidos a tiros por suspeitos” e reagiram atirando. O policiamento segue reforçado no local, com a presença da cavalaria da PM. Segundo relatos de moradores, o clima é de tensão.
À tarde, segundo a secretaria, os policiais receberam uma denúncia de que homens estavam armados vendendo drogas em determinado ponto da favela. Ainda de acordo com a pasta, quando os PMs chegaram, três suspeitos fugiram em direção a uma casa, e na abordagem um dos suspeitos, que tinha 24 anos, morreu baleado e outros dois foram presos.
O homem que morreu se chamava Igor Oliveira de Moraes Santos e foi detido três vezes antes de completar 18 anos por tráfico de drogas. Foram apreendidas armas de fogo, munições e drogas. De acordo com informações das forças de segurança, os suspeitos que foram presos eram foragidos por roubo e um deles não havia retornado de uma saída temporária em março de 2024.
Já por volta das 20h, em meio ao protesto onde havia barricadas e incêndios em vários pontos da comunidade, foram recebidos a tiros, e um agente chegou a ser baleado. Ele foi socorrido ao Hospital Albert Einstein. Um homem de 29 anos foi atingido por um PM e morreu. As duas mortes são investigadas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), por meio de um inquérito policial.
No fim da tarde, manifestantes começaram a instalar barricadas e atear fogo em avenidas importantes da região, como a Giovanni Gronchi, que teve trechos bloqueados. Ao menos vinte focos de incêndio foram registrados, segundo o Corpo de Bombeiros. Além da Giovanni, outros pontos de barricadas ficam na Rua Doutor Flávio Américo Maurano e na Praça Moacir Nicodemos. ]
Dois policiais militares foram presos em flagrante por homicídio doloso pela morte de Igor Oliveira em Paraisópolis na tarde desta quinta-feira. A informação foi divulgada pelo coronel Massera, porta-voz da Polícia Militar nesta sexta-feira (11). Por meio das imagens gravadas pelas câmeras corporais dos agentes, foi constatado que a morte “não foi dentro das excludentes de ilicitude” e se tratou de “uma ação ilegal”.
— A análise nos indicou que a morte do Igor Oliveira não foi dentro de padrões que nós esperávamos, dentro das excludentes de ilicitude. Visualizamos, pelas câmeras, que dois PMs que atiraram no Igor o fizeram já com o homem rendido e a providência tomada foi a prisão em flagrante — falou o coronel durante coletiva de imprensa.
Nessa ocorrência, segundo o coronel, os agentes do 16º Batalhão, responsável pela área, já estão usando o novo sistema de câmeras corporais do estado, em que as gravações não são ininterruptas, mas precisam ser acionadas pelos agentes. Massera explicou que um dos policiais que estava na ocorrência acionou a câmera em determinado momento, e a partir daí “todas as câmeras acabaram acionadas pelo sistema Bluetooth”.
Quatro policiais da Rocam participaram da ação. A incursão começou após eles terem recebido uma denúncia pelo sistema Disk Denúncia sobre venda de drogas na Rua Rudolf Lotze. Quatro homens invadiram uma residência e, segundo a PM, foram encontrados em suas mochilas 595 porções de maconha, 49 porções de maconha sintética, 208 porções de crack, 22 frascos de lança-perfume, 4 comprimidos de LSD, 32 comprimidos de ecstase, além de um caderno de anotações, uma balança e R$ 1.300 em dinheiro. Três deles foram presos e um morreu.
Dois deles, Marcos Vinicius Mendes dos Santos e Iuri Nascimento Souza de Jesus, tinham passagem por tráfico, roubo, furto, receptação e porte de arma e também eram procurados da Justiça. Um terceiro, chamado Vitor Davi da Silva Santos, não tinha passagem. Já Igor, que morreu ao ser baleado no interior da casa, não possuía passagem como adulto, mas tinha registradas ocorrência de ato infracional por roubo e tráfico quando era menor de idade.