O cenário de abandono que domina a região central da cidade levou a Prefeitura do Rio a lançar mais um programa de incentivos. É o Reviver Centro Patrimônio Pró-Apac, que foca em imóveis degradados que destoam do entorno — já em processo de revitalização—, de acordo com decreto publicado na quarta-feira (16) no Diário Oficial. Uma outra medida também assinada por Eduardo Paes, na sequência, declara de utilidade e de interesse públicos para fins de desapropriação 16 endereços no Largo de São Francisco e ruas próximas, cercados de bens históricos. A maioria está ocupada por estacionamentos.
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O projeto da prefeitura é, após a desapropriação, leiloar esses imóveis. Os novos donos deverão fazer obras de restauração e dar um uso a esses espaços. Para isso, ganharão do município apoio financeiro de até R$ 3.212 por metro quadrado. O investimento inicial previsto é de cerca de R$ 11 milhões. Outros bens devem ser incluídos no programa mais adiante.
Quatro imóveis ficam no histórico Largo São Francisco de Paula, ao lado da igreja de mesmo nome e do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs), da UFRJ. Outros nove estão na Rua do Teatro, e três, na Sete de Setembro. O edital com as regras do leilão deve ser publicado ainda este ano.
O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Osmar Lima, que coordena o projeto ao lado da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, explica que os atuais donos serão indenizados com o valor arrecadado no leilão e que os arrematantes poderão dar qualquer destinação aos imóveis.
— Não estamos limitando nem obrigando qualquer tipo de função. Mas os arrematantes que destinarem os imóveis para habitação ganharão o potencial de construir em outras áreas da cidade. Com relação às reformas, como a maioria dos imóveis desapropriados tem algum grau de tombamento, isso deve ser respeitado nas obras — destaca. — Os próximos passos incluem um conjunto de atos burocráticos internos da prefeitura, como análise mais aprofundada dos imóveis e definição de seu valor de mercado, para a publicação do edital de leilão.
A medida integra o Programa Reviver Centro, em vigor desde 2021, e considera o novo Plano Diretor, que prioriza a função social da propriedade, a diversidade de usos e a preservação do patrimônio cultural. Os imóveis desapropriados estão numa área emblemática do Centro. O Largo de São Francisco de Paula é um dos mais antigos logradouros da cidade. Já foi palco de acontecimentos históricos, como comícios em defesa do Abolicionismo e da República — e continua sendo cenário de manifestações.
— O número 9 da Rua do Teatro já abrigou a famosa perfumaria Silva. Já o 25 do Largo São Francisco já foi a Casa Colibri, também muito conhecida. Inicialmente, ela vendia animais. Quando o mundo se modernizou, virou uma petshop, até que fechou — conta Cláudio Castro, diretor da Sérgio Castro Imóveis.
Embora considere bem-vinda a proposta de recuperar imóveis abandonados, ainda mais com apoio público, a coordenadora da Comissão de Patrimônio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB RJ), Noêmia Barradas, entende que o decreto deixa de fora questões importantes.
— O decreto está centrado num modelo de desapropriação por interesse público e leilão. É voltado para o mercado — afirma. — Uma lacuna na proposta, por exemplo, é não fixar diretrizes de uso habitacional, especialmente de habitação de interesse social. E, como não cria instrumentos que garantam a inclusão de moradias populares nesses imóveis reabilitados, o programa corre o risco de promover um processo de gentrificação, ou seja, de expulsão de pessoas que historicamente ocupam a área central.
Já o arquiteto e urbanista Luiz Fernando Janot, professor da UFRJ, avalia que qualquer iniciativa é importante para o Centro:
— Quando não há gente morando e trabalhando e os prédios estão vazios, o comércio vai para o brejo. Os incentivos são fundamentais para reverter esse processo. No Centro, é preciso dar incentivo; e não só para recuperar, mas para ocupar também, seja como residência ou comércio.
Um hotel de ‘utilidade pública’ em Ipanema
Fechado desde 2017 devido a uma disputa societária, o Hotel Ipanema Plaza, na esquina das ruas Farme de Amoedo e Prudente de Morais, em Ipanema, foi oficialmente declarado de utilidade e interesse públicos pela prefeitura. O imóvel, que já foi avaliado em R$ 200 milhões no mercado imobiliário, será desapropriado e, em seguida, leiloado, para “renovação urbana”, conforme decreto publicado ontem no Diário Oficial pelo prefeito Eduardo Paes.
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Segundo o colunista Ancelmo Gois, o hotel teve seu valor reduzido para cerca de R$ 80 milhões em 2023, quando um grupo chinês chegou a negociar a compra. Na época, o prédio acumulava dívidas com impostos e precisava de reformas estruturais.
O presidente da Associação de Moradores e Amigos de Ipanema (Amai) e da Associação Comercial de Ipanema, Carlos Monjardim, recebeu com esperança a notícia. A Amai e o movimento Viva Ipanema haviam pedido à prefeitura uma solução para o imóvel.
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— O prédio virou um motel de mendigos e de viciados em crack. O pessoal invade, já quebrou as portas para entrar várias vezes. Na porta, fica um acampamento de população de rua, que faz necessidades na calçada, suja tudo. À noite, as pessoas ficam com medo de passar pelo local.
O decreto municipal estabelece que o imóvel — localizado no número 34 da Rua Farme de Amoedo e que tem 140 suítes e um terraço com piscina— será alienado por meio de leilão público. Mas o secretário de Desenvolvimento Econômico, Osmar Silva, explica que os arrematantes não terão subsídio. O prédio também terá que continuar como hotel.
— A cidade não pode perder um equipamento, porque eles estão em conflito — afirma o secretário. — A cidade voltará a ter um estabelecimento turístico naquela região, que é tão importante. E estamos dispostos a usar esse instrumento sempre que identificarmos anomalias, com no caso do Ipanema Plaza.