Um dos bairros mais antigos da cidade, reduto de parte da aristocracia carioca, Botafogo experimenta uma gradual mudança de perfil a partir das primeiras décadas do século XX até tornar-se o bairro vibrante e de classe média dos dias de hoje. Ao lado de mansões — algumas delas ainda presentes no bairro — surgiram vilas operárias e pequenas comunidades, que acompanharam o crescimento da população trabalhadora da cidade. É nesse período também que cresce a favela Dona Marta, uma das mais emblemáticas da cidade. Ao mesmo tempo, o bairro chega ao século XXI como polo de gastronomia de alto padrão.
Feita em 1925, portanto há cem anos, uma fotografia noturna da Enseada de Botafogo com o Morro do Pão de Açúcar ao fundo — do fotógrafo Guilherme Santos e que hoje é parte do acervo do Instituto Moreira Salles (IMS) — mostra um bairro iluminado, porém bem menos adensado que hoje, e com o desenho praticamente inalterado de suas ruas.
Os últimos Censos do IBGE mostram uma flutuação pequena na população do bairro, com tendência de diminuição. No levantamento de 2000 foram identificados 78.259 moradores no bairro. Houve um aumento em 2010, com o número pulando para 82.890. Já no Censo de 2022, o mais recente, o número de habitantes do bairro recuou para 76.728.
Nestes 100 anos as transformações vividas por Botafogo foram muitas. Uma das mais significativas foi a inauguração, em 1952, o Túnel do Pasmado que ligou o bairro Botafogo à Urca e ao bairro de Copacabana. Bem pertinho do túnel, nascia, algumas décadas depois, em 1980, o RioSul, shopping center que, com sua torre, até hoje é um marco da arquitetura na cidade.
A verticalização de Botafogo, com o surgimento de edifícios cada vez mais altos teve seu auge entre as décadas de 1950 e 1980, com prédios residenciais que substituíram parte das casas antigas.
O crescimento de Botafogo é emblemático do que aconteceu com toda a cidade do Rio. Quem desembarcava no Rio em 1925 encontrava uma cidade ainda imersa na fervilhante onda de transformações urbanísticas iniciadas nos primeiros anos do século XX. Havia pouco, a então capital da República rompera a barreira de um milhão de habitantes sendo de longe a maior concentração urbana do país com quase o dobro de São Paulo, que vinha na segunda posição com pouco menos de 580 mil. Desde então, muita coisa mudou na paisagem carioca. A cidade cresceu ainda mais, ficou gigante. Do núcleo central, ainda dominante há 100 anos, a ocupação avançou para as zonas Sul, Norte e, principalmente, Oeste. A população mais que quintuplicou, passando dos seis milhões segundo o censo de 2022 do IBGE.
Um século depois é possível dizer que “o Rio de Janeiro continua lindo” como na canção, mas com problemas — e oportunidades também, claro — que cresceram na mesma proporção. A cidade avançou em praticamente todas as direções, inclusive para o mar, com uma série de aterros, e para o alto, com edifícios cada vez mais imponentes. Bairros surgiram, vias importantes foram abertas, favelas foram removidas de forma autoritária e outras tantas foram criadas com a mesma precariedade.
Para o arquiteto e urbanista Denis Gahyva, pesquisador do Instituto Pereira Passos (IPP), o crescimento do Rio obedece a um caminho comum a outras grandes cidades mundo afora: o dos trilhos.
— As linhas da Central do Brasil e da Leopoldina foram fundamentais. E, além disso, as linhas de bonde também desempenharam papel crucial, especialmente para os bairros da Zona Sul, como Copacabana, Ipanema e Jardim Botânico, que se desenvolveram a partir desses acessos — observa Denis Gahyva.
Obedecendo à mesma lógica, os grandes eixos viários também desempenharam papel fundamental na expansão do Rio.
— O principal eixo viário antigo da cidade é a Estrada Real de Santa Cruz, que hoje se divide em vários trechos: a antiga Suburbana, a Avenida Santa Cruz. Isso foi fundamental para a penetração rumo ao sertão carioca — diz o pesquisador.
Para Rafael Soares Gonçalves, historiador e professor da PUC-Rio, esses últimos cem anos já começaram sob o signo da mudança, com o arrasamento do Morro do Castelo, que repaginou toda a região do Centro. Depois disso vieram as avenidas Presidente Vargas e Brasil, decisivas para o redesenho da cidade e sua expansão em direção ao subúrbio. É nesse momento, segundo ele, que também começa a aumentar o processo de favelização:
— A cidade tinha um quadrado muito específico, que era esse eixo mais central, com algumas expansões para Botafogo e São Cristóvão. Nos anos 1940 ela ganha uma proporção maior. E aí a gente começa a ver também a dimensão das favelas. Então, parte dessas favelas vai seguir, vão crescer também em áreas periféricas, mas há uma forte concentração nas áreas mais centrais, sobretudo no eixo da Zona Sul.
Nesse período em que a cidade se expande em direção à sua periferia, é também o momento em que se consolida a ideia de divisão da cidade por zonas e Copacabana ganha destaque como o protótipo da Zona Sul dourada no imaginário carioca.
Na década de 1960 a cidade perde o posto de cidade mais populosa do Brasil sendo ultrapassada pela primeira vez por São Paulo nas medições do IBGE. Mas essa não foi a principal mudança desse período: com a chegada de Brasília, o Rio perde o posto de capital federal.
— É claro que a capital estando no Rio, a gente tinha uma centralidade que foi perdida, em termos políticos. Houve um certo esvaziamento econômico também. São Paulo já vinha absorvendo grande parte das indústrias, num processo contínuo que vinha desde pelo menos os anos 1920 e 1930.