Numa tarde de segunda-feira, no fim de junho, na Universidade Lasell, em Massachusetts, nos EUA, estudantes encerravam a última aula de espanhol básico do semestre. Em duplas, praticavam perguntas sobre nome, comidas favoritas e hobbies.
Era uma conversa rotineira para Sara Leclair e Mandy Waddell, até que Sara, uma estudante do segundo ano, de 20 anos, perguntou à sua colega: “Quantos anos você tem?”
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— Ah, isso está ficando pessoal… — respondeu Mandy, fingindo constrangimento. — Oitenta e um.
As duas riram, e a aula continuou.
As colegas intergeracionais — Sara, estudante de pedagogia infantil, e Mandy, professora aposentada do ensino fundamental — se aproximaram por meio da parceria entre a universidade e a Lasell Village, uma comunidade de moradia sênior instalada no campus da universidade, nos arredores de Boston.
O arranjo pouco convencional, que permite que aposentados compartilhem espaços e aulas com universitários, ao mesmo tempo em que gera receita para a universidade, tem sido um sucesso duradouro — e cada vez mais, um modelo a ser seguido.
Não há, talvez, nenhuma representação melhor do envelhecimento da população dos EUA do que idosos ocupando campi originalmente projetados para jovens de 18 anos. Mas, com a queda nas matrículas universitárias, aumento de custos e rápido envelhecimento da população do país, essa união improvável está fazendo cada vez mais sentido.
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Andrew Carle, consultor do setor de moradias para idosos, estima que já existam cerca de 85 “comunidades universitárias de aposentadoria” nos EUA, número que, segundo ele, deve crescer nos próximos anos:
— É um par improvável, mas, quando feito corretamente, há sinergia e o modelo pode ser extremamente bem-sucedido para ambos os lados.
Esse é um nicho — geralmente caro — do mercado de moradias para idosos. Não é uma solução mágica para os desafios enfrentados pelo ensino superior, como queda de matrículas, aumento de custos e ameaças orçamentárias vindas da administração Trump neste ano.
Nem todas as universidades estão preparadas para receber uma comunidade de aposentados em seus campi. Mas, em muitos casos, a parceria funciona, e representa o tipo de pensamento criativo que será cada vez mais necessário diante de mudanças demográficas convulsivas.
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A partir do próximo ano letivo, pesquisadores projetam uma queda drástica no número de formandos do ensino médio, resultado da queda nas taxas de natalidade iniciada na crise financeira de 2008. Ao mesmo tempo, mais de 10 mil pessoas completam 65 anos por dia nos EUA. Até 2050, o número de idosos deve chegar a 88 milhões, ultrapassando os menores de 18 anos e representando mais de 20% da população.
O número reduzido de jovens já levou pelo menos 40 faculdades americanas a anunciarem seu fechamento desde 2020. Em um cenário de queda acentuada na matrícula, outras 80 instituições podem ter o mesmo destino.
No outro extremo, o crescimento da população idosa pressiona a necessidade de moradia adequada. O Centro Nacional de Investimento para Moradia e Cuidados para Idosos estima que serão necessárias 806 mil novas unidades de moradia para idosos nos EUA até 2030. No primeiro trimestre deste ano, menos de 20 mil estavam em construção nos 31 mercados acompanhados pela entidade — o menor volume desde 2013.
Diante desse cenário, mais administradores universitários e operadores de moradias sênior estão unindo forças. O movimento remonta aos anos 1980, com duas instituições pioneiras do Meio-Oeste americano: as universidades de Iowa State e Indiana.
Ambas criaram empreendimentos para acomodar administradores, professores e ex-alunos aposentados que queriam passar a aposentadoria em seus campi. Com o tempo, firmaram parcerias com operadoras especializadas e ajudaram a criar um novo modelo.
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Desde então, o conceito se espalhou por todo o país. A Lasell Village exige que os moradores dediquem 450 horas por ano a atividades educacionais. Já a Capstone Village, ligada à Universidade do Alabama, também fica no campus, mas não impõe essa exigência. Outras, como a Legacy Pointe, perto da Universidade da Flórida Central, têm vínculos menos formais.
As universidades costumam receber receita via contratos de arrendamento, royalties ou prestação de serviços. Em alguns casos, possuem participação parcial ou total nas comunidades de aposentados, por meio de organizações sem fins lucrativos.
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A Lasell Village foi idealizada pelo ex-presidente da universidade Tom de Witt, como forma de utilizar terrenos disponíveis e gerar receita para uma instituição à beira da falência. A comunidade foi inaugurada em 2000.
—Literalmente tirei a Lasell Junior College da falência. Senão, não haveria mais nada aqui — diz ele.
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Alguns campi desativados foram transformados em moradias para idosos. Foi o caso do Newbury College, em Boston, que fechou em 2019 após ver seu número de alunos cair de mais de 5.300 para cerca de 600 em 20 anos. A Kisco Senior Living inaugurou em dezembro de 2024 o The Newbury of Brookline, um centro de moradia de alto padrão no local.
Doug Manz, diretor de investimentos da HYM Investment Group, afirma que antigos campi podem ser oportunidades atrativas em mercados imobiliários disputados como Boston ou Nova York. Os campi de faculdades como a Eastern Nazarene e a College of New Rochelle também estão sendo avaliados para isso.
— É triste, mas faculdades pequenas de artes liberais estão desaparecendo — analisa Manz. — Enquanto isso, a demanda por moradia sênior só cresce. As duas tendências juntas geram oportunidades únicas.
A Broadview, localizada no campus da Purchase College, em Nova York, atraiu enorme interesse desde que abriu, em dezembro de 2023. O projeto de US$ 400 milhões foi financiado com títulos municipais, e hoje tem lista de espera de 75 famílias.
— Nossos residentes foram aprendizes a vida inteira, e querem isso também na aposentadoria —afirma Ashley Wade, diretora executiva da Broadview.
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Steve Shelov, ex-pediatra de 80 anos, é um exemplo. Seu dia a dia inclui aulas de história da arte e Bíblia, orientação a estudantes de medicina e atividades culturais.
A Broadview cobra uma taxa de entrada que varia entre US$ 270 mil e US$ 2,5 milhões, com reembolso de 80% ao final do contrato. As mensalidades vão de quase US$ 4 mil a US$ 13 mil. Em troca, a Broadview paga US$ 2 milhões por ano à faculdade. Segundo Mike Kopas, vice-presidente da Purchase, 75% vão para bolsas estudantis e 25% para apoio a professores:
— As bolsas têm sido maiores do que jamais conseguimos oferecer.
Apesar do sucesso, esse tipo de projeto nem sempre é viável. Faculdades pequenas, privadas e afastadas de grandes centros geralmente não são atrativas para moradias sênior. Além disso, o processo também pode ser demorado.
A proposta da Broadview, por exemplo, foi apresentada em 2003, mas o complexo só foi inaugurado 20 anos depois. A oposição de vizinhos ou disputas legais, como ocorreu com a Lasell Village, também pode atrasar projetos. E há o risco de parcerias com empresas pouco confiáveis, como o caso da Eckerd College, que gastou centenas de milhares de dólares para salvar sua comunidade sênior de uma falência.
Às vezes, os conflitos surgem após a inauguração. No Mirabella, na Arizona State University, os moradores processaram uma casa de shows vizinha por “barulho incessante”. O caso foi resolvido, mas levantou críticas de estudantes, que reclamaram de más condições de moradia e priorização de recursos para aposentados.
Especialistas dizem que o modelo funciona melhor quando prioriza experiências intergeracionais e aprendizagem ao longo da vida — e não apenas como fonte de receita.
Na Lasell Village, estudantes trabalham no refeitório e dizem se sentir como se tivessem 200 avós. Já houve até um “baile sênior” para jovens e idosos.
Amizades surgiram desses encontros. Courtney Tello, formada em educação infantil, chama a moradora Toni Miller de sua “avó bônus”.
— Conhecer a Toni foi uma das partes mais importantes da minha faculdade — revela Tello. — Ela me motiva e cuida de mim. Muitos estudantes se beneficiariam de uma amizade assim.
O ex-presidente Tom de Witt, que idealizou a Lasell Village, agora aposentado, tornou-se morador em 2021:
— Claro que me mudei para cá. Fui presidente por 19 anos. Este é o meu bairro.