A ópera “Os Pescadores de Pérolas” é uma bela realização de um Georges Bizet, que tinha apenas 24 anos quando criou esta joia de apenas quatro personagens em 1863. Trata-se de um triângulo amoroso simples, que à luz das terminologias do século XXI pode ser descrito como “um sangrento conto hindu da friendzone”: temos dois amigos fadados a se apaixonar pela mesma mulher proibida, num canto do mundo em que a privação do prazer feminino garante o equilíbrio social e espiritual de uma tribo.
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Ao fim e ao cabo, trata-se de uma página de enorme lirismo e orquestração imodesta daquele que viria a se tornar o autor de “Carmen”, a ópera mais famosa do mundo. Para encená-la, com direção musical de Luiz Fernando Malheiro e encenação de Julianna Santos, o Theatro Municipal do Rio contou com a sua mais recente pérola: a soprano Ludmilla Bauerfeldt, que já se sente absolutamente em casa na Praça Floriano.
No papel de Leïla, a sacerdotisa cuja virgindade defende uma pequena aldeia asiática das assombrações, a cantora foi um suntuoso destaque vocal desde o primeiro ato, em que exibiu na ária “O Dieu Brahma” seu belíssimo legato e coloraturas cintilantes. No segundo, seu dueto com Nadir (o tenor argentino Carlos Ullán) foi igualmente celebrado pela chuva de aplausos que tem se tornado frequente toda vez que Bauerfeldt canta na Cinelândia.
Aos personagens de Nadir e Zurga (Vinicius Atique, barítono), Bizet confere uma das mais belas melodias não só de “Pescadores”, mas de toda ópera francesa, e aí tivemos alguma frustração. No dueto “Au Fond du Temple Saint”, cujo tema atravessará a ópera até o seu final, o argentino chegou a revelar um belo timbre lírico, muito leve, mas prejudicado por uma emissão hesitante que o transformava em algumas notas de passagem. Isso também tirou o brilho de sua performance da delicada e açucarada ária “Je Crois Entendre Encore”, uma joia que já foi gravada até por gênios do rock como David Gilmour, ex-Pink Floyd, e David Byrne, dos Talking Heads.
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Por sua vez, Vinicius Atique, sempre dono de boa presença na atuação, fez uma apresentação correta na estreia do dia 16. Completando o quarteto principal, o baixo Murilo Neves emprestou um eficiente caráter sombrio ao sacerdote Nourabad. Alternam-se nos papéis Caio Duran (Nadir), Michele Menezes (Leïla), Homero Velho (Zurga) e Leonardo Thieze (Nourabad).
O regente Luiz Fernando Malheiro foi extremamente feliz em seu novo encontro com a Orquestra Sinfônica do Municipal, extraindo linhas muito elegantes de um conjunto que parecia em péssima forma na “Viúva Alegre” que abriu a temporada.
O coro do Municipal também mostrou vivacidade nos coros festivos, embora ainda não tenha encontrado as sonoridades mais camerísticas que a partitura também pede. As danças do primeiro ato, coreografadas por Bruno Fernandes e Matheus Dutra, tiveram brilho e exotismo na medida certa, com o uso pontual de gestos hindus e belas formações entre os bailarinos.
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A concepção deste “Pescadores de Pérolas”, a cargo de Julianna Santos, foi simples e funcional, com um desenho de vídeo refinado, de autoria de Angélica de Carvalho, que projetava as águas do mar na areia da aldeia. Esse efeito, encantador para os espectadores do balcão nobre às galerias, é menos perceptível ao público situado na plateia: quem está no nível térreo perde essa grande qualidade do espetáculo e acaba tendo a impressão de que a iluminação de Paulo Ornellas é demasiado escura para destacar a cenografia de Desirée Bastos, que também assina os figurinos.
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A rigor, Pescadores tem apenas um único cenário, um humilde e bem projetado ancoradouro de um vilarejo, diante do qual ergue-se uma tenda à guisa de templo no segundo ato.
Lamenta-se que o programa do Municipal não tenha trazido as intenções de Julianna Santos para esta produção: do que se depreendeu do palco, houve um belo resgate de uma obra que usa uma música absolutamente deslumbrante para nos indagar se a liberdade do desejo feminino não seria um valor pelo qual valeria a pena morrer. Ao permitir que a obra fale de si mesma, Julianna dispensa acréscimos redundantes que enfraquecem o conteúdo e menosprezam a inteligência do público e comprova que certas obras são atuais por mais exóticas que pareçam.
OS PESCADORES DE PÉROLAS, de Bizet
Direção cênica de Julianna Santos, regência de Luiz Fernando Malheiro
Onde: Praça Floriano, s/nº. Quando: 22, 24 e 26 de julho. Ingressos: de R$ 20 a R$ 90
www.theatromunicipal.rj.gov.br Cotação: bom.