Desde seu lançamento na Netflix no mês passado, o filme original de animação “Guerreiras do K-Pop” tem incendiado a internet — e as paradas musicais. A fantasia liderou os rankings globais da plataforma e inspirou inúmeros memes, desafios de dança (alguns coreografados por estrelas da música coreana), produtos temáticos e fanarts. A trilha sonora igualmente estrondosa invadiu as paradas musicais, com oito de suas canções entrando na Billboard Hot 100.
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“Guerreiras do K-Pop” acompanha as integrantes de um grupo fictício de K-pop feminino enquanto conciliam carreiras exigentes e lutam para salvar o mundo de demônios que roubam almas. Os diretores do filme, Maggie Kang (artista veterana de storyboard em filmes como “A Origem dos Guardiões” e “Gato de Botas”) e Chris Appelhans (diretor da animação “Din e o Dragão Genial”, também da Netflix), falaram sobre a criação do longa e sua ascensão inesperada como fenômeno cultural global.
A seguir, veja trechos editados da conversa.
Maggie, a história por trás de “Guerreiras do K-Pop” foi ideia sua. O que te convenceu de que um filme que combina elementos tão distintos como K-pop, animação, arte e mitologia tradicional coreana e demônios poderia ressoar com tantos públicos diferentes?
MAGGIE KANG: Bom, nada me convenceu. [Risos] Basicamente, eu só estava tentando criar algo que eu mesma quisesse assistir: um filme que celebrasse a cultura coreana. E, por algum motivo, eu cheguei à demonologia. Achei que os jeoseung saja (ceifadores da mitologia coreana) — que são o que os garotos se tornam no fim do filme, com os chapéus e mantos pretos — eram uma imagem icônica da minha infância, da qual eu morria de medo, então sabia que queria retratar isso. E a ideia de demônios naturalmente levou às guerreiras. Queria ver super-heroínas mais relacionáveis, que gostam de comer e fazer caretas. Não queríamos retratá-las apenas como bonitas, sensuais e legais. Elas tinham inseguranças reais e mostravam isso.
Caçar demônios geralmente é algo feito em segredo, então essas garotas precisavam de uma persona pública. Eu também queria muito fazer algo relacionado ao K-pop. Foi tipo: vamos ver se essas duas coisas podem funcionar juntas.
Como vocês dois acabaram trabalhando juntos nesse projeto?
CHRIS APPELHANS: Aron Warner, o produtor de “Din e o Dragão Genial”, estava ajudando a Maggie a desenvolver isso. Ele me disse: “Você precisa conhecer a Maggie. Ela é muito inteligente, e essa ideia é genial.” E ele estava certo. [Risos]
Maggie me contou sobre a ideia e, uns 10 minutos depois, eu estava tentando manter a compostura por fora, mas por dentro eu pensava: “Meu Deus! Por favor, me deixe trabalhar nesse filme com você.” Quando você tenta fazer filmes, está sempre em busca de algo comovente e que você nunca tenha visto antes — e essas coisas raramente aparecem. Essa era uma dessas.
A gente basicamente nunca discordava. Tínhamos forças diferentes, mas acho que a soma das nossas capacidades gerava uma mistura bacana.
Quando ouvi o título “Guerreiras do K-Pop” e li a premissa, fiquei um pouco cético. Como você apresentou a ideia para a Sony Pictures Animation (produtora da série)?
KANG: Conteúdo coreano é muito popular, e a ideia foi apresentada mais ou menos no auge do BTS, então acho que não foi difícil de vender nesse sentido. Se você não estivesse vivendo debaixo de uma pedra, sabia o quão grandes eram o BTS e o conteúdo coreano.
Foram quase sete anos exatos, do pitch até o lançamento. Eu conhecia o Aron havia muito tempo também. Quando ele foi para a Sony com “Din e o Dragão Genial”, me ligou e disse: “Você tem algo para me apresentar?” Eu apresentei assim: “É um grupo feminino de K-pop que caça demônios em segredo.” E ele disse: “Adorei!” Achei que fosse piada. Mas, na semana seguinte, ele já tinha um contrato pronto.
Alguns meses depois do início do desenvolvimento, Kristine Belson, nossa presidente na Sony Pictures Animation, disse: “Acho que isso tem potencial de se tornar um grande filme.” Então começamos a buscar um parceiro de direção, e foi aí que o Chris entrou.
Ejae, que faz os vocais da Rumi [uma das guerreiras], participou desde muito cedo e compôs alguns demos da primeira música, “How It’s Done”, e uma versão do dueto “Free”. Tocamos essas duas como prova de conceito para a música.
Parece que vocês não enfrentaram muita resistência.
KANG: Todo dia eu pensava: “Nossa, eles vão cancelar isso.” Mas não cancelaram.
APPELHANS: Acho que até mesmo nas apresentações para o sinal verde, dizíamos: “O filme vai começar com essas garotas no passado, na Coreia. Superem. Vai ser legal.”
Mas também dizíamos que esse era um filme com uma história universal, sobre vergonha e o poder da música de conectar as pessoas. E isso transcende qualquer identidade nacional.
Vocês tinham um público-alvo específico em mente? Há muitas pessoas que não são fãs de K-pop e que também estão curtindo o filme.
KANG: Minha carreira inteira foi em grandes estúdios, sempre fazendo filmes para os quatro quadrantes, então isso está sempre no fundo da minha mente. Mas eu sempre me perguntava por que não focávamos em um grupo muito específico. Quando eu era adolescente e amava K-pop, gastava todo o meu dinheiro com isso. Estudei em uma escola só para meninas e, quando Titanic foi lançado, tinha amigas que assistiram no cinema sete, oito vezes. Eu pensava: por que ninguém explora esse amor obsessivo das adolescentes? Então tentei fazer um filme para mim mesma hoje, claro, mas também para minha versão adolescente. Recentemente, alguém disse: “Parece que você fez um filme para garotas adolescentes, mas talvez haja uma garota adolescente dentro de todo mundo.”
Romance, amizade e a ideia de vergonha e de se esconder — acho que esses são temas que falam com o público global porque são coisas com as quais todo mundo se identifica. Acho que esse é também o motivo pelo qual quis tornar o filme o mais coreano possível, porque queria provar que não importa em que cultura a história se passa — tudo gira em torno dos personagens e da narrativa.
Em que momento vocês perceberam que estavam criando algo grandioso?
APPELHANS: Lembro de assistir aos TikToks alguns dias depois do lançamento. O nível de paixão nos montagens e os comentários — a Maggie e eu brincamos por mensagem, tipo: será que essas pessoas estavam na sala de roteiro com a gente? Porque a maneira como reagiam às piadas era exatamente como a gente tinha discutido por cinco anos. Em todos os níveis, parecia que tudo o que esperávamos que ressoasse, de fato estava ressoando.
Todas as referências à arte, mitologia, culinária e cultura pop coreana — parecia que cada cena do filme tinha algum elemento coreano.
KANG: Vivi a maior parte da minha vida na América do Norte, mas sempre me senti culturalmente, antes de tudo, coreana. Meu senso de humor é uma mistura de novelas coreanas dos anos 90, programas de variedades e K-dramas, mas também Os Simpsons, Looney Tunes e todas essas influências ocidentais das sitcoms. E o Chris — ele assistiu a muitos conteúdos coreanos. Então nós dois temos esse amálgama de influências que adoramos.
Tínhamos um grande número de talentos coreanos na equipe. A Imageworks, que cuidou da parte digital do filme, garantiu que houvesse vozes coreanas em todos os departamentos. Tivemos um comitê coreano inteiro cuidando da autenticidade.
APPELHANS: Ter tantos talentos coreanos ou pessoas influenciadas por mídia coreana na equipe tornou isso possível. Porque podíamos dizer a um de nossos animadores: “Lembra daquela expressão que a garota faz no K-drama Weightlifting Fairy? Pode encontrar 50 GIFs de outros momentos assim em outros K-dramas?” E, no dia seguinte, ele voltava com: “Aqui está a gama completa de contrações nos olhos e formas de boca.”
E isso só mostra como é necessário ter diversidade no topo e em todas as áreas. Isso é o que torna algo realmente especial possível.