Em meio ao furacão político chamado Jeffrey Epstein, o milionário que morreu na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por abuso sexual e tráfico humano, o número dois do Departamento de Estado dos EUA esteve frente a frente com a principal associada de Epstein, Ghislaine Maxwell, condenada a 20 anos de prisão. Mas as turbulências provocadas pelo ressurgimento do caso em Washington estão longe de serem dissipadas, afetando diretamente o governo de Donald Trump.
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A reunião aconteceu em um escritório do Departamento de Justiça em Talahassee, no estado da Flórida, a mesma cidade onde a socialite está presa desde 2022, após ter sido transferida de uma prisão em Nova York. Mais cedo, Todd Blanche, subsecretário de Justiça, afirmou a jornalistas que se “Ghislaine Maxwell tem informações sobre qualquer pessoa que tenha cometido crimes contra vítimas, o FBI e o Departamento de Justiça ouvirão o que ela tem a dizer”.
Segundo o advogado dela, Maxwell colaborou durante toda a conversa.
— Ela nunca se recusou a responder. Ela respondeu a todas as perguntas com sinceridade, honestidade e da melhor maneira possível — disse David Markus a repórteres, após o final da reunião. — Não queremos comentar sobre o conteúdo.
O Departamento de Justiça não se pronunciou.
Para Maxwell, a conversa também foi uma chance de obter na Casa Branca uma aliada para conseguir reduzir ou até eliminar sua pena de 20 anos, ligada à condenação por tráfico humano e abuso de menores, em 2022. Tribunais negaram, no passado, pedidos de fiança e de novos julgamentos, mas ela tenta fazer com que a Suprema Corte analise o caso, mas o Departamento de Justiça, mesmo sob comando de Trump, pediu, no dia 14 de julho, que a Corte rejeite seus recursos. O tribunal ainda não decidiu se ouvirá o caso.
Como demonstraram as investigações, Maxwell, uma socialite e ex-namorada de Epstein, atuou no esquema de tráfico humano mantido pelo milionário, além de incentivar e participar dos abusos contra jovens mulheres, algumas delas menores de idade. Ela também manteve contato com vários dos amigos de Epstein, incluindo Trump e o príncipe Andrew, afastado da vida pública e da monarquia britânica após o escândalo. Maxwell nega as acusações, e diz ter se tornado um “bode expiatório”.
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Os dias que antecederam a conversa não foram os melhores para a Casa Branca. Uma reportagem do Wall Street Journal, na semana passada, revelou uma mensagem enviada por Trump a Epstein no 50º aniversário do milionário, em 2003, com um poema e um desenho com conotação erótica, e que também sugeria segredos compartilhados — depois da publicação, o presidente anunciou um processo bilionário contra o jornal. Na quarta-feira, a rede CNN mostrou imagens de Epstein em um dos casamentos de Donald Trump, em 1993, reiterando a proximidade entre os dois, o que o republicano tenta amenizar.
Um pedido feito pelo Departamento de Justiça para a liberação de depoimentos no caso de Epstein e também de Maxwell, feito a um tribunal, foi negado, e na quarta-feira a imprensa americana afirmou que a secretária de Justiça, Pam Bondi, informou ao presidente que ele aparecia nos documentos do processo, mas que, segundo ela, “nada nos arquivos justificava uma investigação ou processo mais aprofundado”.
Jeffrey Epstein, um milionário com muitos amigos e aliados na elite econômica, incluindo o então empresário Donald Trump, foi acusado de manter uma rede de exploração sexual e tráfico de menores de idade, e morreu na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento. Mas o caso nutre, há muitos anos, teorias da conspiração sobre uma suposta lista de clientes de Epstein, que incluiria figuras conhecidas do meio político. O próprio Trump, em sua campanha à Casa Branca, prometeu revelações caso fosse eleito.
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Ele venceu a eleição do ano passado, e inicialmente alguns de seus aliados disseram que a chamada “lista de Epstein” estaria prestes a ser liberada. Os meses se passaram, e as novas análises internas mostraram que não havia listas, e que as teorias da conspiração não correspondiam à realidade, irritando parte da base trumpista — o presidente tem tentado se descolar do caso, e chamou seus apoiadores de “estúpidos” e “tolos”.
Eleitores chegaram a queimar seus bonés Maga (sigla de Façam os EUA Grandes Novamentes), e deputados e senadores da ala mais radical pressionam para a divulgação de todos os documentos. Na quarta-feira, uma comissão da Câmara aprovou uma moção para a liberação dos documentos e para ouvir Maxwell, pressionando ainda mais as autoridades federais.
Para acalmar os ânimos, o presidente da Câmara, Mike Johnson, antecipou o início do recesso, enquanto as conversas na base governista seguem acaloradas, Por outro lado, a oposição democrata viu na crise uma oportunidade para atingir Trump e potencialmente obter ganhos na eleição de meio de mandato, no ano que vem, quando toda a Câmara será renovada, além de parte do Senado.
