Cozinhar carne cultivada em laboratório e comer barrinhas de proteínas à base de inseto compõem o cenário da alimentação no futuro. O motivo é a exigência de produção sustentável de comida para um planeta que deve ultrapassar 10 bilhões de habitantes até o fim do século e enfrenta eventos extremos provocadas por mudanças climáticas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), as emissões globais dos sistemas agroalimentares representam em torno de 30% de toda a emissão de gases do efeito estufa no mundo. No Brasil, chegam a cerca de 70%, segundo o Observatório do Clima.
— Para alimentar todo mundo com proteína animal, seria necessário um aumento extremamente elevado na produção — explica Ana Paula Bastos, pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves.
As proteínas alternativas dispensam a criação em larga escala de animais para abate. Há quatro categorias em expansão. A mais difundida, inclusive do Brasil, são os alimentos plant-based, com proteína vegetal. Outra é a dos produtos à base de fermentação a partir de biomassa. A terceira são os insetos, já consumidos em muitos países, especialmente asiáticos. O quarto grupo, considerado o mais inovador, é o da carne cultivada em laboratório.
— Você coleta as células do animal e as armazena num banco. Na hora que quiser utilizá-las, retira uma parte e faz a proliferação até chegar a uma densidade suficiente para colocá-las num biorreator. Nele, você insere outros ingredientes, como um meio de cultura com fatores de crescimento, vitaminas, água, sais. Esse biorreator mimetiza o corpo do animal para a célula se desenvolver e proliferar — explica Kamila Habowski, cientista de alimentos e pesquisadora do Laboratório de Microbiologia Quantitativa de Alimentos da Unicamp.
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A carne cultivada evita o abate e poupa recursos para ser produzida, acrescenta Carla Molento, pesquisadora do Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná, coordenadora do Napi Proteínas Alternativas e presidente da Associação Brasileira de Agricultura Celular:
— Os sistemas nos livram de outros problemas, como o gasto de água, uso de terra e risco de doenças contagiosas emergentes. Mas o cultivo celular ainda está na fase de desenvolvimento na maior parte do mundo.
Em quatro países, a carne cultivada já pode ser vendida. O primeiro a autorizar foi Cingapura, em 2020, com nuggets de frango cultivados. Em 2023, os Estados Unidos aprovaram o filé de frango. Em seguida, em 2024, Israel deu o aval para a carne bovina, e Hong Kong aprovou um patê de codorna, também liberado em Cingapura. China, Holanda, Austrália e Coreia do Sul investem na alternativa, mas ainda sem ter produtos liberados. No Brasil, os produtos ainda estão longe de chegar ao público. As especialistas acreditam que dentro de até 15 anos os alimentos de laboratório devem avançar e chegar ao cardápio dos brasileiros.
Um desafio é a produção da carne cultivada em nível industrial. Hoje, os ingredientes e biorreatores usados ainda vêm da área de pesquisa. Habowski, da Unicamp, conta que isso é um entrave para definir o quão sustentável é esse tipo de alimento:
— Ainda não temos uma indústria grande para confirmar que os biorreatores não vão gastar muita água, gerar gases de efeito estufa
Outro entrave é o acesso a banco de células para dar início ao cultivo, algo que vem sendo trabalhado na Embrapa, conta Ana Paula. O teor nutricional deste tipo de carne varia, segundo a pesquisadora:
— Você faz a carne dentro de um ambiente controlado e consegue ter uma concentração maior ou menor de proteína numa porção. O peito de frango normal, por exemplo, tem 30 gramas de proteína em uma porção de 100 g.
Outra proteína que deve ser mais consumida no futuro é a derivada dos insetos. A FAO estima que 2 bilhões de pessoas em todo o mundo já são adeptas da entomofagia, a alimentação à base de insetos.
— A parte comestível de um inseto é de cerca de 80%, enquanto no frango é de 55% e, numa vaca, de 40%. E um quilo de inseto precisa de 18 metros quadrados para criação, enquanto um um quilo de vaca precisa de 198 metros. De água, precisamos de 23 litros para produzir 1 grama de proteína de inseto e de 112 litros para produzir um 1 grama de proteína de vaca. E o inseto se cria mais rápido — compara Elaine Soares, doutora em Entomologia e professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).
Há mais de 2 mil espécies já registradas como uso culinário em 140 países. Alguns têm 77% de teor de proteína. Fabíola Dorneles Inácio, bióloga e professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR), onde coordena um projeto de criação de insetos para alimentação, lembra que a tanajura já é consumida no Nordeste, no Norte, no Centro-Oeste e em partes de Minas Gerais.
— Espécies como tenebrio molitor, que é a larva do besouro, a barata cinérea e a mosca soldado-negro são campeãs na quantidade de proteínas. E são ricos em gorduras boas, insaturadas, ácidos graxos completos, importantes para a nossa saúde. Também têm todos os aminoácidos essenciais, além de vitaminas, fibras e minerais — defende.
A bióloga explica que, devido à resistência cultural, muitas iniciativas buscam usar esses animais de forma mascarada, como em farinhas para pães, bolos e sorvetes. Mas, para ela, com o tempo é possível que as pessoas fiquem mais abertas a experimentar:
— Há algumas décadas, não era comum comer peixe cru no Brasil, enquanto na Ásia era muito comum. Hoje, muitos brasileiros comem sushi. Tudo é uma questão cultural. Claro que comer barata é algo difícil. Mas sabemos que a população mais jovem está mais disposta a experimentar coisas novas.
Para a historiadora Ana Carolina de Viotti, professora da Unesp e responsável pelo projeto “Comer História”, o mercado de proteínas alternativas está ligado à redução do hábito de cozinharem casa e a um crescimento da indústria alimentícia no futuro. Mas, para ela, persistirá um dos principais desafios de hoje: a expansão dos ultraprocessados, como salgadinhos, refrigerantes e macarrão instantâneo:
— A industrialização massiva transformou os modos de produzir, conservar a comida, consumir e entender a comida — diz a historiadora, ressalvando que crescem movimentos de revalorização da comida como prática cultural e afetiva, a exemplo de cozinhas populares, hortas urbanas e saberes tradicionais. — Nas próximas décadas viveremos essa tensão entre uma alimentação cada vez mais mediada por tecnologias e outra que insiste em manter vivos os vínculos comunitários que alimentam, também, a vida social.
Os desafios das mudanças climáticas e da superpopulação do planeta não são novidade nas páginas do GLOBO. Já em 1954, antes mesmo de o termo “aquecimento global” se popularizar, o jornal trazia o alerta: “O mundo está ficando mais quente”.
Em 1973, a matéria “Ano 2000: comida feita na fábrica” projetava um futuro em que “comida instantânea de astronautas” e “máquinas-cozinha” seriam soluções para alimentar um planeta com 3,7 bilhões de habitantes em crescimento acelerado.
Em 2011, O GLOBO passou a noticiar que o aquecimento da Terra já afetava a produção de alimentos — e que mudanças na dieta, com novas fontes de proteína além da carne animal, ganhavam espaço como solução.
Dois anos depois, em 2013, o jornal anunciou a produção do primeiro hambúrguer cultivado em laboratório. O veredito dos críticos? Faltou sal e pimenta. Mas o paladar era de carne.