O leitor pode imaginar o desafio que é fazer crítica de televisão para O GLOBO. Afinal, o jornal pertence à mesma empresa que controla a emissora aberta de maior audiência do país desde que foi criada. Até mesmo amigos sempre imaginam que há uma pressão interna forte para influenciar as avaliações, sejam elas positivas ou negativas. Mas não. Esse é meu trabalho no jornal há 27 anos e posso garantir que sempre fui absolutamente livre para fazer os textos.
As reações que recebi ao longo desse período nunca vieram de dentro. Atores, diretores, autores, cenógrafos, figurinistas e outros profissionais comportam-se como era esperado: diante de elogios, ficam satisfeitos, e as avaliações negativas causam irritação. Isso é natural e me acostumei, porque sou hoje crítica semanal de televisão e, até 2023, fazia as notas 10 e zero, atualmente a cargo de Anna Luiza Santiago, titular da coluna Play. Alguns romperam relações, houve abaixo-assinados em correntes de e-mails de personagens zangados — lembro especialmente de um, liderado por um ator de novelas muito famoso, que tomou grandes proporções mesmo em tempos pré-redes sociais.
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É natural: ninguém se sente bem diante de um comentário ruim. Mas tanto as avaliações negativas quanto as positivas sempre expressaram a minha opinião sincera, levando em conta os critérios mais técnicos que pude encontrar. Essa postura, ao longo dos anos, acabou me trazendo a confiança do leitor fiel. E é ela que me faz conquistar o respeito de cada novo leitor. Tenho certeza de que isso também foi verdade em relação a todos aqueles que me antecederam nessa tarefa.
A coluna começou em 1976, assinada por Hildegard Angel; em 1988, veio Tetê Nahaz, que ficou até 1990 e foi sucedida por Lúcia Leme, a criadora das notas 10 e zero. Quando ela saiu, em 1992, Patricia Andrade ocupou seu lugar. Ela fez dupla com Renata Reis, depois com Rosângela Honor e comigo, a partir de 1998. Amélia Gonzalez assinou por um período e, de 2000 a 2023, passei a titular daquela meia página do Segundo Caderno.
O jornal sempre cobriu bem televisão. O primeiro registro é de abril de 1965, quando a TV Globo foi inaugurada. É curioso conhecer, através do jornal, o que ia ao ar na época. O alto da página 9 do primeiro caderno veio ocupado, à esquerda, com a programação de todas as emissoras para o dia seguinte. Às 13h, por exemplo, a TV Excelsior exibiria um telejornal; às 17h, a Globo apresentaria “Capitão Furacão” e desenhos animados; havia novelas em vários canais: “Rua da Matriz” e “Ilusões perdidas” (na Globo) e “A indomável” (na Excelsior). Do lado direito, o leitor encontrava uma coluna dedicada ao rádio, intitulada “As várias faces do entretenimento”. Logo abaixo, ficava a lista dos filmes em cartaz nos cinemas do Rio.
Naquele dia, por causa da inauguração da Globo, a página 13 veio com um parágrafo anunciando: “Uma emissora padrão de instalações primorosas, perfeitamente esquematizadas dentro das mínimas exigências e dotadas de todos os modernos recursos”. Em seguida, vinha uma lista com os nomes de 13 firmas patrocinadoras, entre elas uma olaria, uma fábrica de esquadrias, outra de tintas e de instalações elétricas. Nenhuma dessas empresas resistiu ao tempo, só a Globo.
As duas páginas seguintes destacam a programação da TV Globo, abrindo as fotos. Quem sintonizasse o Canal 4 naquela semana, entre outras atrações, encontraria “Os Monstros”, “A Família Buscapé”, “A Feiticeira” e um faroeste, “As viagens de Jaime”. Uma imagem de Humphrey Bogart franzindo a testa encabeçava a lista dos filmes —“nove por semana, dublados em português”, como frisava a legenda. As sessões “Romance na Tela”, “Sábado de Aventura” e “Cine Globo” atraíam os telespectadores, que iam migrando do rádio para a nova mídia. O jornal acompanhava esse movimento com atenção e refletia esse interesse. Queria atender a esse leitor ávido por serviço (a programação e os horários) e por conhecer os bastidores da televisão.
Assim, em 1971, surgiu a coluna Zoom, com notas. E, em novembro do ano seguinte, o primeiro suplemento dominical dedicado ao assunto, o Telesemana. No início, eram poucas páginas, mas já havia mais de uma coluna importante. A primeira delas era de Artur da Távola, pseudônimo de Paulo Alberto Monteiro de Barros. Sua presença entre as figuras que refletiam sobre televisão fazia toda a diferença. Ele parou de publicar na contracapa do Segundo Caderno apenas em 1987, e é lembrado até hoje por seus textos sempre inteligentes.
Enquanto a televisão enfrentava o desdém dos intelectuais, o escritor, jornalista (e político) combatia esse olhar. Em 1979, escreveu: “Telenovela é um gênero muito novo. Mas aos poucos vão se formando autores específicos, sobreviventes das elites culturais que, por preconceito, rejeitam esse caminho dramatúrgico, da mesma forma que rejeitam outros caminhos literários ‘apenas’ porque falam com o grande público. Misturado com o masoquismo, parece a certas elites culturais que bom é o que fala para poucos”. Impressiona a atualidade do que ele escreveu há quase 50 anos.
Já Bastidores da TV levava a assinatura de Marisa Raja Gabaglia. Jornalista conhecida, ela também foi jurada em programas de auditório, como o de Flávio Cavalcanti. Era um nome respeitado, um sinal das intenções de O GLOBO de investir nesse assunto.
Em setembro de 1979, foi lançado um dos maiores sucessos do jornal: o Caderno de TV. Na capa, Tarcísio Meira, Dina Sfat e Francisco Cuoco. O trio estrelava a novela “Os gigantes”, de Lauro César Muniz (alguns capítulos dela chegaram recentemente ao Globoplay). Em 1981, o suplemento, rebatizado de Revista da TV, trazia Tony Ramos na capa e uma chamada que era também uma enquete: “João Victor ou Quinzinho, os gêmeos de ‘Baila comigo’. De quem você gosta mais?”. O caderno saía aos domingos e publicava reportagens, resumos das novelas e adiantava o que aconteceria em capítulos futuros. No dia a dia, a cobertura de televisão ocupava a contracapa do Segundo Caderno.
Uma crítica recorrente é o espaço dedicado à TV Globo na cobertura de televisão. Não há como negar que ele, de fato, é maior e tem um aspecto intrinsecamente promocional. Mas também é impossível negar que isso reflete a absoluta dominância da emissora na audiência.
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Com a chegada do digital, tudo foi migrando para a internet, e a Revista da TV em sua forma impressa deixou de fazer sentido (mas é muito lembrada por antigos leitores que, até hoje, escrevem falando dela). Na internet, a cobertura de televisão é intensa, e o interesse do público se traduz em números expressivos. A coluna de televisão continua publicada no Segundo Caderno, acompanhando a evolução da mídia e mantendo o compromisso com o olhar crítico. Afinal, ninguém pode negar: a televisão é aquilo que mais gera assunto em todas as telas.
Patrícia Kogut é colunista do GLOBO