É difícil achar um ponto óbvio que entrelace “Le Villi” (aqui traduzida como “As Bruxas”) e “Friedenstag” (“Um Dia de Paz”), as duas óperas encenadas em conjunto no Theatro Municipal de São Paulo. Moralistas talvez se deliciem com o aspecto de relativa hipocrisia de seus autores: enquanto “As Bruxas” são um conto sombrio de condenação à traição masculina, esporte em que Giacomo Puccini foi uma espécie de Michael Phelps, “Um Dia de Paz” é uma história composta por um Richard Strauss que teve cadeira dentro do Reich nazista, ainda que os historiadores ressaltem uma enorme inocência política do compositor alemão. De certa forma, temos dois gênios deixando para a história algum tipo de comentário criativo sobre traços dúbios de seus caráteres.
Felizmente, André Heller-Lopes é um encenador muito mais interessante do que a moda atual de castigar os autores do passado em nome de uma ortodoxia política. Deixar que essas obras contem suas “verdades” – ao mesmo tempo em que podemos visitar suas idiossincrasias – é o que permite que este programa duplo seja o mais fascinante acontecimento operístico deste ano até agora, entre Rio e São Paulo.
Para aproximar essas duas óperas em seus contextos, Heller-Lopes retira “As Bruxas” da Floresta Negra e a situa numa espécie de repartição, com iluminação fria e indireta (desenhada por Gonzalo Córdova), em que coro e corpo de baile (bem caracterizados nos figurinos anos 1930 de Laura Françozo) comemoram a herança de Roberto (Marcello Vannucci, tenor, que se alterna nas récitas com Eric Herrero), noivo de Anna (Daniela Tabernig, soprano, ou Gabriella Pace) e futuro genro de Guglielmo (Johnny França, barítono, ou Rodrigo Esteves). A busca por essa herança vai desviar Roberto de seu futuro casamento, levando Anna à morte por depressão. A vingança se dará com a invocação das Bruxas (as “Villi”, segundo a tradição folclórica da Europa Central), que encurralam Roberto em seu retorno e o levam à morte diante do fantasma de Anna. O mesmo tenor será o soldado piemontês, que só canta em italiano na ópera seguinte, com libreto em alemão dos escritores Joseph Gregor e Stefan Zweig, judeu austríaco que morreu no Brasil.
A primeira coisa a se notar, para quem acompanha o trabalho de Heller-Lopes, é um conceito de espaço muito mais amplo para a cena, graças à cenografia de Bia Junqueira, o que permite as danças muito bem coreografadas por Luiz Fernando Bongiovanni. Essa nova fluidez também será percebida na grande fortaleza de “Um Dia de Paz”, em que a parede que mostrava uma foto de bombardeio da Segunda Guerra se desloca, revelando o interior avermelhado de um exército sitiado, onde um Comandante (Rodrigo Esteves, barítono, ou Leonardo Neiva, a depender da récita) é pressionado pela população que defende a aceitar a rendição e interromper 30 anos de fome.
Com toda essa liberdade para se contar, tanto “As Bruxas” quanto “Um Dia de Paz” ganharam um tratamento musical absolutamente alto dentro do contexto brasileiro – O GLOBO viu os dois elencos. A soprano dramática argentina Daniela Tabernig, que canta tanto o papel de Anna quanto o de Maria, foi capaz de traduzir tanto a doçura de Anna quanto a revolta de Maria, mulher do Comandante, sendo ela mesma um dos mais poderosos elos entre uma obra e outra, oferecendo legato pucciniano e o típico transe feminino straussiano em porções generosas, com uma voz audível o tempo todo. Entre os homens, Eric Herrero mostrou um belo timbre, volume e um “squillo” bem encaixado para o exigente papel de Roberto, embora sua atuação cênica ainda se ressinta de certos maneirismos. Ao seu lado, Gabriella Pace mostrou a habitual categoria, embora houvesse questões com seu volume ao fundo da plateia.
O experiente Rodrigo Esteves esteve mais à vontade como Guglielmo no dia 25, com direito a uma delicada oração em trio com Pace e Herrero, do que no dia 19 como o Comandante, papel em que Leonardo Neiva sobressaiu. Eiko Senda (Maria) e Johnny França também estiveram muito bem nas récitas acompanhadas.
A boa regência de Priscila Bomfim foi muito idiomática e atenta aos detalhes em “Le Villi”, enquanto que, na dificílima partitura de “Um Dia de Paz”, a orquestra enfrentou mais desafios para manter a coesão. Ainda assim, o equilíbrio entre vozes e instrumentos se manteve elogiável do início ao fim, o que permitiu ainda que alguns dos coadjuvantes brilhassem na segunda peça, especialmente os tenores Geilson Santos (soldado) e Miguel Geraldi (prefeito), que cantou como quem dava a própria vida em sua esplendorosa participação ao final de “Um Dia de Paz”. Preparado por Hernán Sánchez Arteaga, o Coro Lírico Municipal teve boa participação.
Tudo considerado, é impossível escapar do spoiler de que “Um Dia de Paz” encerra as noites do Municipal de São Paulo com um grande clamor pela paz iluminando a grande sala de forma empolgante, o que provoca a plateia a aplaudir antes mesmo dos últimos compassos. Ainda que o approach mais intelectual seja resistente a esse tipo de golpe, é inegável que a decisão de André Heller-Lopes consolida toda a emoção da música pacifista de Richard Strauss, decretando uma esperança por imagens de paz nas TVs e redes sociais. A ópera ainda tem o direito de ser empolgante, e o encantamento no ano lírico de 2025 na ponte aérea finalmente chegou.
“As Bruxas”, de Puccini, e “Um Dia de Paz”, de Richard Strauss
Direção cênica de André Heller-Lopes
Regência de Priscila Bomfim
Theatro Municipal de São Paulo