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Fundador da Orquestra Maré do Amanhã, que chega aos 15 anos, anuncia plano de expansão e foco no vínculo dos alunos com a comunidade

BRCOM by BRCOM
julho 27, 2025
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Orquestra Maré do Amanhã já alcançou cerca de quatro mil alunos — Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Um episódio de violência pode deixar sequelas difíceis de reparar: estresse, traumas, ansiedade, medo. Mas, em outros, pode provocar um desejo de transformação. Este foi o sentimento que tomou Carlos Eduardo Prazeres após perder o pai, o maestro Armando Prazeres, sequestrado e assassinado em 1999. Depois de enfrentar o luto, reveses financeiros e uma depressão, ele se empenhou para criar um projeto que pudesse mudar a realidade de pessoas de áreas vulneráveis da cidade. Naqueles meses antecedentes à virada para o ano 2000, período em que se confirmou que o carro com os vestígios de sangue do pai foi encontrado na Maré, surgiu, então, a ideia de eleger o complexo de favelas o território para sua base de ação.

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— Eu quis continuar o trabalho dele — diz o ativista sobre o maestro, que era regente da Petrobras Sinfônica e criou a Orquestra Pró-Música do Rio de Janeiro, que fazia apresentações de cunho social.

Nos anos iniciais do projeto musical destinado a jovens, Prazeres vez ou outra ainda se perguntava: “Será que o homem que tirou a vida do meu pai já passou por mim? Será que tem um neto, um filho ou um sobrinho dele matriculado no projeto?” Aos poucos, deixou curiosidades e preocupações de lado e abriu atalho para o perdão, “remédio que se dá aos outros e que faz bem para si”, diz ele. No mês em que a Orquestra Maré do Amanhã completa 15 anos, o fundador do projeto é o personagem da série “O Rio e eu”, publicada pelo GLOBO e inspirada em pessoas que, ao mesmo tempo, transformaram a cidade e foram por ela transformados.

— Nunca soube quem foi esse cara, mas posso estar mudando a vida do filho ou do neto dele. Tenho certeza de que era isso que o meu pai faria se tivesse acontecido comigo. Então, me sinto responsável e peço todo dia a Deus que me ajude a transformar essa comunidade em um lugar de paz. É óbvio que eu não tenho ilusões de que eu vou acabar com o tráfico de drogas. Vai ter sempre alguém vindo comprar aqui. Eu só queria paz — diz o católico, jornalista e professor. — Minha principal questão era que eles entendessem que a violência entre eles atrapalha suas próprias vidas. Porque o traficante não quer seu filho no tráfico. Ele quer o dos outros, mas o dele não.

Orquestra Maré do Amanhã já alcançou cerca de quatro mil alunos — Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Em uma década e meia, o projeto social alcançou mais de quatro mil crianças e, atualmente, possibilita que alunos mais graduados façam intercâmbio com universidades estrangeiras e deem aulas.

— Ouvi no ano passado de uma menina algo que me tocou profundamente: “Quando a gente sai da Maré e vai para a Europa, leva com a gente 140 mil moradores que passam a acreditar que é possível”. Tem gente aqui que nunca foi ao Cristo Redentor, ao Pão de Açúcar. Uma vez, fizemos uma apresentação num quiosque da praia, e uma aluna teve uma crise de choro. Alguns minutos depois, soubemos que foi porque ela nunca tinha visto o mar. Às vezes, existe uma visão que as pessoas das favelas não podem sair de lá. As oportunidades têm que ser iguais. Eles têm que ter as mesmas opções de quem está na Zona Sul — defende Prazeres, de 51 anos, hoje morador de Petrópolis, na Serra.

Ver o mundo que os espera além da Maré foi uma chance que jovens como Debora Choi, de 27 anos, e Stephany Grativol, de 19, tiveram no ano passado. As violoncelistas participaram da turnê da OMA pela Europa em 2024 e conheceram países como Portugal e Inglaterra. De volta à capital fluminense, a caçula tem autoconfiança e estímulos para ocupar diferentes espaços da cidade. Mas circular com liberdade deixa de ser opção quando a violência atravessa seu caminho, longe ou perto de casa.

— Não é só sobre morar aqui. Nos preocupa voltar e acontecer alguma tragédia — diz Stephany.

Da primeira semana de janeiro até 8 de julho, a Maré teve 11 operações policiais. Na última, 29 escolas foram fechadas, além de serviços de saúde.

— Infelizmente, passou a fazer parte do nosso dia a dia lidar com isso. Hoje está tranquilo, mas a gente já tem em mente que se acontecer alguma coisa, tem que se esconder e correr. Vivemos em alerta. Há dias calmos, mas sempre dormimos pensando: será que vai ter operação amanhã? Porque mesmo com tiroteio tem que ir estudar, trabalhar… Muita gente morre querendo só cumprir o trabalho — lamenta a jovem.

As alunas não deixam as preocupações desafinarem as notas nem a esperança no futuro. Um dos alentos vem da resposta das crianças que, ao vê-las formadas e viajando o mundo, sonham. Debora, que já orienta novos talentos, lembra:

— Quando uma criança do projeto me diz: “Tia, você já viajou pra fora? Nossa, você está no clipe da Ludmilla! Como conseguiu?”. E eu digo: “Estudando”. Então, ela se empolga a estudar, acreditando que pode conquistar muitas coisas. Eu digo: “Estudando, até virar presidente do Brasil você pode!” Dar esse incentivo a eles é muito bom, assim como mostrar ao mundo que a Maré não é só de traficantes, tiro, operações. Tem muita gente incrível, projeto social de balé, vôlei, basquete, natação, dança.

Os alunos do projeto recebem bolsas. O valor pode subir para aqueles que já desempenham função de orientação. Atualmente, o projeto tem assistência da Lei de Incentivo à Cultura, do governo federal, e da Lei do ISS do Rio de Janeiro, além de ter como patrocinadores as empresas Galp Brasil, State Grid Brazil Holding, Google, Dasa e Assim Saúde.

— Quando os alunos perseveram e chegam à orquestra, que é o braço profissionalizante, eles recebem uma bolsa inicial de R$ 750. Mas o valor pode chegar a R$ 5 mil com as aulas que eles dão — explica Prazeres, que fala com orgulho de o projeto ter sido reconhecido Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio.

Recentemente, outras conquistas possibilitam planos de projetos ainda mais robustos: dois galpões vizinhos ao endereço do projeto, que fica na Rua da Proclamação, na Maré, foram comprados por uma empresa suíça e doados à organização. O plano é construir nos terrenos um teatro de arena que possa receber pelo menos 400 pessoas.

— Hoje, quando tem concerto, a orquestra se apresenta de lado, porque não cabe no palco. Na plateia, cabem umas 200 pessoas. Mas um só aluno costuma ter oito pessoas na família. Depois de conseguirmos construir, a intenção é trazer artistas que topem tocar dentro da Maré para as pessoas daqui: um Caetano Veloso, um Gilberto Gil, um Jorge Vercilo… — adianta.

Há ainda esforços para manter a sustentabilidade da ação: estudantes de Direito são incentivados a retornar para trabalhar com o grupo, assim como graduandos em Psicologia. Além de urgir a necessidade de o governo olhar para a Maré, que tem mais moradores do que Ipanema, Leblon, Lagoa, Gávea e Urca juntos, para Prazeres também está nas mãos dos “mareenses” interceder pelo seu lugar:

— Eles moram aqui. Eu sou só uma pessoa. Objetivamente, não sou eu que vou mudar o Complexo da Maré. A transformação dessa região está na mão de cada um. Deus me trouxe para cá por algum motivo, inspirado por uma história que vivi, meu trabalho é aqui. Mas eles estão dentro: os que vão transformar o país num lugar de paz, são vocês, entendeu? E eu acho que grande parte deles entendeu. Tem um vínculo territorial que é importante.

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