Um grupo de pessoas está confinado num espaço em que é impossível distinguir o que é parede do que é tela, e boa parte da interação com o “mundo” é realizada por gestos. Mesmo no banho, é possível ler notícias, conferir a meteorologia, ver um programa qualquer. Até a quantidade de pasta de dente a chegar à escova é determinada por um movimento preciso dos dedos em direção ao espelho. Este mundo à parte, futurístico e distópico, é a base de “Quinze milhões de méritos”, um dos episódios mais inquietantes e comentados da série “Black mirror” quando ela foi lançada, no final de 2011. Até hoje, este segundo capítulo — que traz uma sátira a programas de entretenimento, obsessão pelo corpo e busca incontrolável por distração, mas esta é outra história — é lembrado como um dos mais marcantes, ainda que quase 15 anos (um século em se tratando de evolução tecnológica) tenham se passado desde que chegou ao streaming.
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De início, o que intriga é a possibilidade de que este cenário possa se tornar real. Com tantas telas ao redor (nas TVs, nos computadores, nos celulares, nos relógios, nas fechaduras, nas geladeiras, nos carros), o que falta para um indivíduo do século XXI passar a viver imerso num ambiente em que elas são tão onipresentes a ponto de se tornarem invisíveis? Muito. Mas o caminho até lá parece cada vez mais curto.
Neste ecossistema em que as telas imperam, elas assumem formas distintas, seja em aparência, tamanho ou configuração. Podem ser flexíveis e dobráveis, como já vistas hoje em celulares, notebooks, monitores e aparelhos de TV, mas ganhando dimensões e aplicações ainda inalcançáveis. Podem ser acessadas através do pensamento, através de interfaces cérebro-máquina, em que será possível interagir com dispositivos através da mente (graças a chips implantados no cérebro, por exemplo). Podem ser transparentes, quase invisíveis, como na ficção de “Black mirror”, permitindo que se tenha acesso a informações, sem que isso obstrua a visão do que está à sua frente. Podem ser holográficas e tridimensionais, aposentando o conceito de tela plana e abrindo possibilidades como “manipular” objetos virtuais e participar de um jogo de futebol como se estivesse num estádio, sem sair de casa.
É o caso de se perguntar: precisamos mesmo disso tudo? E aqui vai um exemplo: imagine uma embalagem de medicamento que contém uma tela, e é ela que acende um alerta para a data de validade, além de exibir outras informações práticas. Não é uma aplicação útil? Neste exercício de se prever o futuro, as telas seriam tão baratas e comuns que poderiam substituir o papel. Parece impossível? Melhor não duvidar.
Das telas de CRT, usadas por décadas em TVs e monitores, até as telas OLED de hoje, passando por plasma, LCD e microLED, o caminho tecnológico tem sido longo, mas percorrido de forma veloz. E há muita estrada pela frente. Isso passa pelo desenvolvimento de outras tecnologias, como as relacionadas à realidade aumentada e virtual; pela evolução dos smartphones para dispositivos vestíveis (como já começou com os relógios inteligentes); pela criação de displays de retina, como uma lente de contato, em que o olho é a própria tela. Um mundo, de fato, screenless (sem telas), como se diz no jargão tecnológico.
No exercício de previsão do futuro das telas, podem ser tomadas duas direções: a do sonho e conceito, em que a diversão é idealizar um cenário onde elas prevaleçam e sejam mais transparentes, virtuais, inteligentes e redimensionáveis; e outra é a do desenvolvimento tecnológico propriamente dito, que permita tornar devaneio em realidade.
— O fato é que estes dois mundos, o do sonho e o das tecnologias possíveis, estão convergindo cada vez mais — diz o professor Marcelo Pereira, coordenador de Experiência Digital da PUC-Rio. — Um exemplo é o dos óculos inteligentes, que avançaram muito nos últimos anos. Mas ainda há desafios, e não apenas tecnológicos e de custo, mas também culturais, como se acostumar a ter uma tela 24 horas por dia na sua frente, ter que tirar para carregá-la etc.
O professor destaca que o uso crescente da inteligência artificial pode contribuir para acelerar este processo:
— As telas poderão identificar o que o usuário está fazendo e onde ele está, para se adiantar e calibrar iluminação e brilho, exibir informações, ampliando até nossa capacidade cognitiva.
Hoje, as telas já nos oferecem um mundo de possibilidades. Veja o caso da revolução em curso com a DTV+ (de Digital Television+), que a Globo lançou em abril e promete transformar a experiência da TV aberta, marcando o início das transmissões experimentais com a nova tecnologia de sinal digital, que deve ser disponibilizada a partir de 2026. Entre os avanços da DTV+, estão melhorias na qualidade de imagem — com suporte a 4K HDR —, áudio imersivo e personalizado, além de recursos interativos, como compras via controle remoto e publicidade segmentada geograficamente.
— Este novo modelo transformará a TV aberta em uma experiência digital avançada, combinando funcionalidades interativas e personalizadas com alta qualidade de imagem e som, sem perder seu alcance universal e a essência democrática e gratuita da televisão. A DTV+ permitirá acesso sob demanda a conteúdos customizados, programações regionalizadas e publicidade direcionada, além de possibilitar a interação direta do usuário com a programação, como votações e compras via controle remoto — diz Raymundo Barros, diretor de Tecnologia da Globo.
Há casos em que a tela, mesmo sendo a alma do negócio, mantém o formato por anos. No caso do Open Air Brasil, a tela de 325m², que veio da Suíça para a exibição de filmes a céu aberto, vem sendo aprimorada desde que estreou, em 2002. Ainda que se tenha a impressão de que nada mudou.
— A estrutura metálica é a mesma; o restante, não. Tem projetor, lâmpadas, processador e alto-falantes novos — diz Renato Byington, diretor do Open Air Brasil. — O equipamento vai e volta da Suíça a cada dois anos. No início, entre as recomendações para uso, uma indicação era não montá-la virada para o leste, para evitar luminosidade da lua cheia, por exemplo. Hoje, isso não é mais necessário.
No Roxy, histórico cineteatro do Rio, que agora atende por Roxy Dinner Show e oferece um espetáculo grandioso, um telão de 210m², com tecnologia 4D, também é peça fundamental, e chega a roubar a cena em alguns momentos. O corpo de baile interage com o imenso painel high-tech, com imagens que saltam aos olhos.
— Quando pensamos o espetáculo, sabíamos que precisávamos de algo que emocionasse de verdade. A supertela de LED não é apenas uma estrutura tecnológica, é um videocenário pulsante, que transforma o palco numa janela para o Brasil. A tecnologia está a serviço da emoção. A cada imagem, o público viaja, se emociona, se reconhece. É o Brasil em alta resolução. — diz o cenógrafo Abel Gomes.
Como se vê, um mundo inteiro de possibilidades cabe numa tela, seja ela protagonista, coadjuvante ou até invisível. E esta revolução está apenascomeçando.
Houve um tempo em que o computador era um equipamento exclusivamente “corporativo”, uma máquina já comum em companhias, para diferentes fins e em diferentes formas, mas ainda distante da imagem que ele assumiria depois. Porém, já era possível vislumbrar este futuro em que, tal qual imaginamos hoje com a onipresença das telas, o computador pessoal (outrora chamado também de microcomputador) assumiria distintas funções numa casa, como um eletrodoméstico com superpoderes.
Em 25 de novembro de 1991, quando O GLOBO publicava semanalmente um suplemento específico sobre tecnologia, o Informática etc., uma reportagem trazia este exercício de futurologia (ao lado). “Até o ano 2000 o micro já terá saído do escritório para a sala de estar. Será um eletrodoméstico indispensável em qualquer residência, substituindo a contento o telefone, o videocassete, a TV, o videogame e a aparelhagem de som. Será, de fato, o tal eletrodoméstico multimídico que revolucionará a vida do cidadão, definitivamente cibernético”, dizia o texto da jornalista Cristina De Luca.
Os especialistas não previam um futuro distante: ele já estava ali, batendo à porta. “A indústria mundial trabalha para que, em 1994, o computador pessoal padrão seja uma máquina com no mínimo 12Mb de memória, vídeo HDTV de 19 polegadas, winchester de 378Mb, CD-ROM, caixas de som e interface RDSI no lugar do modem (para comunicações simultâneas de voz e dados)”, continua a reportagem. “Com o computador multimídico será possível desfrutar do videofone dos Jetsons. Assistir à programação da TV em uma janelinha da tela enquanto se escreve uma carta. Gravar o show do cantor predileto no CD-ROM e reeditá-lo como melhor convir. Ou ainda alterar o roteiro de um filme e assumir literalmente a pele do personagem predileto”. Um profissional da área, entrevistado na reportagem, arriscava: “Já em 1994, tentar comprar um computador que não inclua capacidades multimídicas será parecido com tentar comprar hoje um carro no Texas sem ar-condicionado”, afirmava Ed Jüge, diretor de Planejamento de Mercado da Tandy Corp.
Hoje, termos como winchester, disquete, videocassete, multimídia e outros tantos parecem saídos de um museu de grandes novidades. Na época, há 34 anos, tudo isso não apenas era novidade, como sonho de consumo. E a realidade acabou superando em muito algumas previsões.
“Como se vê, chegar ao micro doméstico do ano 2000 é apenas uma questão de tempo e de astúcia. As tecnologias básicas estão todas mais ou menos disponíveis. Resta integrá-las, da melhor forma possível. Essa integração, sim, será o significado mais fiel dessa tal ‘multimídia’. No princípio, os frutos dessa conquista ainda deverão ser exclusivos de bolsos abençoados. Mas, se tudo correr dentro do previsto, não mais que duas décadas separam cidadãos comuns dessas facilidades antes só conhecidas através das histórias de ficção”, encerrava o texto.
E não é que aconteceu mesmo?
Marcelo Balbio é editor de Cultura e foi editor adjunto do caderno Informática etc.