O sabor de uma condecoração é o de virar referência. O savoir-faire que bate o coração do empresário e agitador sociopoliticocultural Raphael Vidal, o último a receber a cobiçada Medalha Pedro Ernesto, na noite desta quarta-feira (30). Com uma novidade no cardápio: a entrega, em vez da pompa e circunstância do plenário da Câmara dos Vereadores, ocorreu no seu Casa Porto, onde tudo começou.
“Há meia dúzia de anos não tinha um real no bolso e agora virei comendador dessa cidade. Era só o que me faltava”, brinca Raphael, que pediu pela mudança no formato da cerimônia, para ir como normalmente vai trabalhar todos os dias: bermuda, camisa e chinelo.
Ao sabor de petiscos da casa, samba e muita batidinha, qual é o peso desta honraria, para Raphael Vidal? “Isso é de uma responsabilidade tremenda. Virar referência para outras pessoas, virar exemplo, é uma responsabilidade que não é tão fácil de carregar. Mas eu sigo muito os ensinamentos de Ifá, que é a religião que eu sigo, e parte desses ensinamentos tem a ver com a postura, tem a ver com o caráter, tem a ver com o que você tem para oferecer para o mundo a partir de uma relação ética com a sociedade.
Numa noite celebrada com amigos, clientela e fãs, Raphael Vidal – uma espécie de mecenas da gastronomia da região central do Rio – comemorou a cidade onde nasceu..
“Abracei essa cidade, eu abracei o Rio de Janeiro com muita paixão, com muito amor, com muito tesão. E quando a cidade te devolve esse abraço, o que a gente tem que fazer é abrir os braços e receber com toda paixão.”
Largo da Prainha, Beco das Sardinhas e Rua da Carioca. Três lugares históricos que haviam caído no esquecimento, mas que, aos poucos, foram voltando às manchetes graças ao carioca de Vista Alegre que se transformou em editor de livros, produtor cultural e, de repente, não mais que de repente, dono de bar.
Hoje, são cinco sob seu cuidado: a Casa Porto, o Bafo da Prainha e o Dois de Fevereiro (junto ao chef João Diamante), no Largo São Francisco da Prainha, e os novíssimos Capiau, botequim de fogão à lenha, no Beco das Sardinhas, e a choperia Cotovelo, na Rua da Carioca.
“Somos insistência. E é isso, tudo que aconteceu na minha vida é porque eu insisto, e junto com a minha equipe, com quem trabalha comigo. Insistir é o verbo.”
A honraria foi concedida pelo vereador Rafael Aloísio Freitas, para quem a medalha é um quase um dever. “ A gente é da Zona Norte, mas só viemos nos conhecer depois dessa lei, que não beneficiou somente ele, evidentemente, mas todo um setor da economia.”
Quando recebeu a notícia, Raphael Vidal só teve tempo de pensar num único prato: moela milanesa. “Foi o primeiro que nós criamos na Casa Porto para tornar a casa um botequim depois de esta servir de centro cultural de 2013 a 2018.”
15 nomes da gastronomia em cinco anos
A Medalha Pedro Ernesto é a maior condecoração concedida pelo município, por meio da Câmara Municipal, a pessoas e instituições que se destacam por relevantes serviços prestados à cidade e à sociedade carioca. O próximo da lista é João Paulo Campos, do bar Velho Adonis, de Benfica, cuja entrega está marcada para a próxima segunda-feira (4). Outro nome da gastronomia agraciado. Em cinco anos, ao menos 15 medalhas foram destinadas a profissionais da gastronomia no Rio.
“O Adonis não é só um patrimônio cultural da cidade Ele é mais do que isso, é um pedaço da cidade Um pedaço da cultura, da boemia, democracia”, defende João Paulo.
A de João Paulo Campos sairá pelas mãos do vereador Felipe Pires.
“Valorizar o trabalho do João Paulo é reconhecer que a gastronomia também é cultura, é resistência e também motor para a economia”, justifica Felipe Pires.
João Paulo veio do interior do Ceará, enfrentou as dificuldades de quem chega a uma cidade grande para vencer na vida. Começou como garçom, foi maître em grandes restaurantes e, com muita luta, construiu seu próprio caminho.
“Não é só sobre tradição que estamos falando, é sobre geração de empregos, sobre movimentar a economia local, sobre dar dignidade a quem trabalha com comida. João batalhou muito para chegar até aqui, e representa milhares de trabalhadores e trabalhadoras que constroem o Rio todos os dias com as próprias mãos. Ele merece cada aplauso”, acrescenta Pires.
Para o presidente da Câmara dos Vereadores, Carlo Caiado, o Rio não é a capital turística do Brasil só por causa da sua beleza natural e das paisagens maravilhosas. É também por conta da sua culinária. “A nossa gastronomia é excepcional e certamente é um dos muitos fatores de atração. Nada mais justo do que homenagear com a mais alta condecoração da Câmara as pessoas responsáveis por isso.”
O gosto disso tudo para João do Adônis? “De polvo com bacon, que eu acho que virou o queridinho da cidade, um dos petiscos mais premiados da minha vida.”