Na era em que o sono virou mais uma etapa da rotina de beleza, Kim Kardashian resolveu estender sua marca de shapewear, a Skims, para o rosto. O lançamento do chamado Face Wrap, uma faixa modeladora facial com fios de colágeno que promete “suporte ultramacio ao maxilar”, viralizou nas redes ao prometer contorno facial mais definido sem bisturi, agulhas ou qualquer esforço, apenas com uso noturno. Mas o que parece mágico no marketing nem sempre se sustenta na ciência dermatológica.
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Com o apelo de transformar a hora de dormir em mais um momento estético, o acessório chegou ao mercado como “item indispensável da rotina noturna”, feito do mesmo tecido compressivo que consagrou os modeladores corporais da empresária. Ele é preso ao topo da cabeça com velcro e envolve o maxilar e o pescoço com a promessa de esculpir essas regiões com o tempo. O discurso da marca gerou diversas reações nas redes.
“Kim Kardashian com o rosto que foi feito numa mesa de cirurgia, sem falar dos ácidos e do botox, querendo que o povo acredite que uma faixa na cara vai deixar o rosto como o dela kkkkk”, escreveu uma internauta. Outra ironizou: “Hora de dormir é sagrada, estar confortável para relaxar é primordial. Isso não parece confortável. Estamos perdendo a mão em busca da beleza.”
Mas, afinal, será que a faixa facial tem algum efeito prático no contorno do rosto, ou estamos diante de mais uma tendência de beleza vendida com promessas inalcançáveis? Para responder à pergunta, ouvimos a dermatologista Fabiola Bordin, autora do livro Melasma sem mistérios e especialista em estética facial.
Segundo Fabiola, é importante entender o limite real desses acessórios: “A faixa ajuda muito pouco ou nada na melhora do contorno da face. O que pode acontecer é diminuir o acúmulo de líquidos na face e pescoço, deixando a face ‘menos inchada’ momentaneamente, mas apenas nas pessoas que possuem tendência para isso.”
Ou seja, o máximo que se pode esperar do uso da faixa é uma redução passageira de inchaço facial, o que pode até deixar o rosto aparentemente mais definido ao acordar. No entanto, isso não tem relação com firmeza da pele ou rejuvenescimento:
“A perda de contorno da face ocorre por mudanças estruturais de osso, músculos e pele. São mudanças internas. Se deixar a pele comprimida melhorasse nosso colágeno, poderíamos usar roupas apertadas que nosso corpo nunca ficaria flácido… nossos músculos não perderiam definição…”
Há riscos dermatológicos no uso prolongado da faixa?
Não exatamente, de acordo com a dermatologista: “Não há um risco dermatológico. Apenas não é necessário. Existe porque tem cliente que compra. Mas não necessariamente funciona.”
A faixa não oferece perigo, mas tampouco deve ser vista como algo funcional em termos de rejuvenescimento.
Quando o uso da faixa pode fazer sentido?
A faixa pode, sim, ter seu papel em contextos específicos — mas muito distantes das promessas do marketing de beleza:
“Faixas podem ser momentaneamente necessárias após cirurgia plástica para diminuir o edema ou ajudar na cicatrização da ferida operatória.”
Além disso, há situações pontuais em que podem ser úteis para prevenir marcas formadas durante o sono:
“Faixas ou placas podem ser interessantes para as rugas do sono, podendo ajudar a diminuir as rugas da região do tórax que acontecem pela posição de dormir de lado, por exemplo. Mas elas não deixam a pele mais firme, não reduzem rugas de contração da face por exemplo, não reduzem o envelhecimento estrutural.”
E para quem quer firmeza facial de verdade, o que funciona?
Fabiola afirma que é possível, sim, melhorar o contorno facial e a firmeza da pele sem recorrer à cirurgia, mas não com truques virais. São necessários tratamentos clínicos e estratégias combinadas:
“Melhorar contorno de face é muito possível com procedimento de consultório, pois não é algo simples. Como falei, normalmente precisamos ajustar mais de um mecanismo interno: músculos, tecido gorduroso, contorno ósseo e pele.”
Entre as alternativas mais eficazes, ela cita: “Dentre os tratamentos, podemos citar o uso de tecnologias do ultrassom microfocado, radiofrequência microagulhada e estimulação eletromagnética de alta intensidade (EMFace).”
Autocuidado ou nova obrigação estética?
O lançamento da faixa modeladora facial de Kim Kardashian desperta um debate importante: até que ponto o autocuidado virou mais uma pressão estética? Quando o descanso precisa ser “otimizado” com gadgets e compressões, a linha entre bem-estar e exigência estética pode se perder — especialmente para mulheres, o principal público desse mercado.
A faixa da Skims pode até fazer parte de uma rotina de cuidados para quem gosta de experimentar novidades, mas como alerta a especialista, é essencial saber diferenciar o que é marketing do que é resultado clínico real. E, acima de tudo, lembrar que