Na terra do surfe, é um maratonista, de 84 anos, o maior incentivador da prática esportiva. Renê Jerônimo, que chegou em Fernando de Noronha aos 17 anos, foi quem criou a primeira corrida de rua da ilha. Em 2011, o evento era exclusivamente para os moradores. Ontem, a 13.ª edição da Corrida e Caminhada Renê Jerônimo contou com 400 corredores, além do patrocínio da Olympikus.
Esta é a terceira vez que a Olympikus se junta à Associação dos Atletas Desportistas de Fernando de Noronha para a realização desta prova que posteriormente originou outras duas do gênero na ilha, o Mountain Do e os 21k de Noronha. Em 2017, a marca bancou a corrida após um pedido do ator Bruno Gagliasso, que tem uma pousada na ilha.
Marcio Callage conta que, quando assumiu a diretoria de marketing da Olympikus, Gagliasso era embaixador da marca e ele faria mudanças na área:
— Tínhamos uma questão: ele não corria. Como trabalharíamos a visibilidade assim? Ele pediu um desafio e treinou para a Meia Maratona do Rio. Ao completar a prova me pediu ajuda para o Seu Renê — lembra Callage, que fala com carinho do maratonista. — Ele me apresentou tudo o que precisava escrito numa folha de papel, não lembro ao certo, mas era algo como cinco melancias, outras tantas bananas… Super simples e muito profissional.
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Depois desta corrida, a Olympikus criou o seu próprio circuito “butique”, o Bota Pra Correr (BPC), com corridas em lugares paradisíacos do Brasil. A primeira parada foi no Parque Estadual do Jalapão, no Tocantins.
Ontem, em Noronha, a corrida de Seu Renê fez parte do calendário de 50 anos da Olympikus. Entre 2025 e 2026, a marca fará ou apoiará 50 corridas.
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— Voltar para Noronha, onde tudo começou, para comemorar nossos 50 anos, depois de termos rodado com o BPC por alguns lugares icônicos do Brasil, é muito especial para nós — comemora Bianca Dallegrave, gerente de marketing da Olympikus.
Sandra Lima, de 50 anos, sobrinha de Seu Renê, conta que este ano o evento ganhou trechos na areia das principais praias da ilha para atrair mais turistas. Esse é o desejo de Seu Renê.
— Depois que a Olympikus colocou os olhos na gente, é que comecei a buscar coisas novas para ter um evento mais profissional — explica Sandra, que sempre teve ajuda de empresas locais — A gente pedia muito 0800, de frutas, gelo, camisa. Ainda somos uma corrida amadora, em termos de planejamento e estrutura, mas não deixamos nada a desejar às melhores corridas de rua. Tem pórtico, nossas camisas sempre foram boas, as frutas são frescas, as medalhas vêm do Recife e a paisagem é única.
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O evento, com provas de 3km, 5km, 8km e 16 km, manteve a essência simples. O luxo ficou por conta do visual. A começar pela largada, na Ponta do Air France, ponto mais perto do continente, divisa do Mar de Dentro, uma piscina, cheia de canoas havaianas com turistas para ver o nascer do sol, com o agitado Mar de Fora. É um local histórico, onde os franceses davam apoio à aviação comercial na década de 1920.
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Os atletas começaram na BR 363, a menor rodovia federal do país, com cerca de 7 quilômetros, a única da ilha. E o percurso mais longo passou por praias como a do Sancho, Cacimba do Padre, Quixabinha, Bode, Conceição e a do Meio. A prova foi dura, com muitas subidas e descidas.
Ontem Seu Renê não correu, mas acompanhou tudo de perto e era abraçado por vários moradores. Segundo a sobrinha, ele está com as “pernas bambas” e não gosta de tomar remédio.
Desde que chegou em Noronha não saiu mais. Natural de Natal, ele já fez de tudo na ilha. Ajudava a família na plantação de milho, batata, feijão, melancia e melão e ainda na criação de porcos. Também foi comandante de barcos de carga, responsáveis por trazer mantimentos aos moradores. Teve atuação na política, quando se tornou conselheiro distrital na ilha. Até hoje faz parte da associação dos pescadores.
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Seu Renê diz que começou a correr aos 8 anos, quando integrava um grupo de escoteiros. E que voltou ao esporte há cerca de 15 anos, quando criou a Associação dos Atletas Desportistas de Fernando de Noronha, que hoje conta com 80 corredores de várias idades.
— Ninguém queria correr. Acho que a primeira edição teve umas 50 pessoas — lembra Seu Renê, que diz que em Noronha “quem corre mais são os olhos” — Me considero uma pessoa simples, comum, como muitas daqui. Também sou pobre, mas rico de conhecimento.
O pedagogo Samuel Ferreira Marques, ex-funcionário da escola Arquipélago, a única da ilha, explica que Seu Renê sempre incentivou os jovens a praticar a corrida “pela qualidade de vida”. E que em 2016, teve papel fundamental ao ajudá-los na disputa dos Jogos Escolares de Pernambuco. É que escola Arquipélago não tinha uma equipe para treinamento.
— Seu Renê foi lá e se comprometeu com os jovens e até o comando da Aeronáutica lhe deu permissão para treinar na pista do aeroporto, que é plana. E era às 5 horas. Os meninos ficaram em 10.º lugar entre todo o Estado. Hoje tem muito adolescente querendo correr — conta Samuel, que mostra admiração a Seu Renê. — Ele é um exemplo de superação, tem uma história linda com o mar, atravessava esse marzão para trazer mantimentos para a ilha. De filho de um agricultor, o João Barrão, a navegador e exemplo do atletismo. Mostrou para a comunidade local que quando se foca em algo, não para si, as coisas acontecem.
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Seu Renê, que já completou maratonas e até ultramaratona, foi adotado pelos avós de Sandra, quando ele tinha 5 anos. Hoje tem quatro filhos e dois bisnetos. Rinaldo foi para a corrida com o pai. Rinalda, Rosilda e Priscila ajudam na organização dos eventos.
— Por ele, estava correndo ainda… Hoje fica mais em casa, adora namorar e jogar dominó e sinuca — acrescenta Sandra, ao comprar com a edição do ano passado, quando o tio correu. — Ele é divertido, gosta de piada e é muito tranquilo. O mundo pode estar caindo e ele sempre diz: ‘O que me importa?’. Também é um homem de fé. Teve períodos de perrengue da corrida, da gente não ter dinheiro, e ele sempre dizia que a gente ia conseguir. E a gente sempre conseguiu.
*A repórter viajou a convite da Olympikus