Emanuelle Araújo, de 49 anos, era criança quando Clara Nunes (1942 — 1983) morreu, mas conta que se lembra perfeitamente da comoção em casa e da tristeza do pai:
— Eu era pequena, mas aquilo bateu em mim de um jeito muito forte.
Mais de 40 anos depois, a atriz e cantora baiana interpreta a artista mineira no musical “Clara Nunes — A tal guerreira”, que chega esta sexta-feira (8) à Grande Sala da Cidade das Artes, na Barra, com texto de André Magalhães e Jorge Farjalla, que também assina a direção da superprodução, com elenco de 30 pessoas, entre atores e músicos.
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— Desde criança, a Clara é a trilha sonora da minha casa, é uma herança do meu paizinho, que era muito fã. Depois, fui desenvolvendo uma adoração mesmo, que vai além das canções e é relacionada também à importância que ela tem no feminismo e na história da nossa música — conta Emanuelle.
O espetáculo chega ao Rio após estrear, em julho, em Belo Horizonte, onde Clara foi morar ao sair de sua cidade natal, Cedro (hoje chamada de Caetanópolis). Mas antes disso, no ano passado, o musical teve temporadas em São Paulo e Fortaleza estreladas por Vanessa da Mata, idealizadora do projeto, que desejava enaltecer “a brasilidade, a versatilidade e a extensão vocal”, entre outros feitos da cantora.
— Clara Nunes nunca foi celebrada como deveria. Sempre achei estranho como ela parecia estar sendo apagada da memória histórica das grande cantoras brasileiras — argumenta Vanessa, que precisou deixar a produção para se dedicar à turnê “Todas elas”, do álbum homônimo recém-lançado, com direção artística de Farjalla.
Quando Vanessa saiu de cena, o diretor pensou “logo de cara” em Emanuelle para substituí-la.
O ponto de partida da peça é justamente a morte da “sabiá”— apelido de Clara eternizado na música “Um ser de luz”, que Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Mauro Duarte fizeram em sua homenagem — que tanto marcou Emanuelle. A cantora morreu aos 40 anos após sofrer uma parada cardíaca durante uma operação de varizes. Ela foi reanimada e ficou por 27 dias em coma profunda, antes de morrer.
— Todo mundo fala: “na hora da morte, passa um filme na nossa cabeça”. Esse sentido que quis dar. É sobre a morte da Clara — diz Farjalla, explicando de onde veio a ideia. — Eu não queria fazer um documentário. Não queria o óbvio. O musical foi inspirado no filme “De-Lovely — Vidas e amores de Cole Porter”, em que um alter ego do Porter aparece e vai ajudá-lo a assistir à própria história. E, para essa figura, eu trouxe a Bibi Ferreira (interpretada por Carol Costa), que aparece como essa figura que poderia guiá-la por esse desconhecido que é a morte.
Na vida real, Bibi Ferreira (1922-2019) era grande amiga de Clara e também a dirigiu no teatro, como no musical “Brasileiro, profissão esperança”, em que a cantora contracenava com Paulo Gracindo.
Orixás e traços de afro-brasilidade, constantes na obra de Clara, são peças fundamentais na estrutura da trama, na qual aparecem entidades como Nanã (Ananza Macedo), Iansã (Leilane Teles) e Ogum (Lucas Purificação). Com estes elementos como fios condutores, a montagem passeia por diversos momentos da vida da artista, desde as raízes em Minas Gerais ao sincretismo religioso, os amores e a paixão pela Portela.
Tudo embalado com músicas eternizadas na voz da tal mineira, como “O canto das três raças”, “Guerreira”, “Conto de areia”, “Portela na avenida”, “A deusa dos orixás”, “Coisa da antiga”, “Feira de mangaio” e “Você passa eu acho graça”. Algumas, como “Morena de Angola” e “O mar serenou”, têm versões apenas instrumentais. Segundo o diretor, as letras se entrelaçam com o texto e são o elemento que compõe a dramaturgia.
Apesar de utilizar figurinos que reproduzem modelos icônicos usados por Clara Nunes, Emanuelle Araújo faz questão de dizer que não imita a artista:
— Não há qualquer compromisso com mimetização, não é esse nosso objetivo no espetáculo. A gente homenageia a Clara.
Não é a primeira vez que a baiana entra na pele de Clara. Em 2011, ela incorporou a cantora para um ensaio fotográfico de uma revista. Seis anos depois, participou de um quadro do “Domingão do Faustão” em que precisava se caracterizar como um ídolo: escolheu Clara. Mais tarde, em 2019, foi convidada para representar a artista mineira no desfile da Portela em sua homenagem, “Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar uma Sabiá”. Desfilou no último carro, junto com a Velha Guarda.
Mas para Emanuelle o musical tem um tempero diferente. É uma forma de unir a atuação e o canto, duas carreiras que ela tem consolidadas. Despontou como cantora da Banda Eva e faz parte da Banda Moinho há mais de 20 anos, junto com Lan Lanh e Toni Costa. Como atriz, o currículo passa por filmes como “Ó paí, ó” (2006) e novelas como “Órfãos da terra” (2019). Ela conta que por muito tempo fez questão de separar as duas profissões.
— O musical me traz a beleza de unir minhas duas carreiras. Ainda mais esse, que enaltece a música popular brasileira, que é a música que eu defendo— pontua Emanuelle.
A atriz assume que se sente próxima da personalidade de Clara”.
— Um grande tesão de ser atriz é viver coisas que não têm a ver com você. Mas, neste momento, eu me identifico muito com as escolhas da Clara, no sentido de reverenciar a nossa cultura. Acho muito bonito ver que o quanto isso que ela estava defendendo nos anos 1970, 1980 se perpetua até hoje.
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Onde: Cidade das Artes (Grande Sala), Barra. Quando: Sex, às 20h. Sáb, às 16h e às 20h.Dom, às 15h e às 19h. Até 31 de agosto. Estreia sexta (8). Quanto: De R$ 45 a R$ 300. Classificação: 12 anos